Morando em Penápolis desde junho, profissional tem recebido o carinho de torcedores nas ruas da cidade

Treinador busca forças no futebol para superar morte dos filhos em acidente

Técnico do Penapolense conta como está sendo nova fase da vida

A mulher que perde o esposo é chamada de viúva e o filho que perde os pais vira órfão, mas não há, no dicionário, um termo que designe o pai ou a mãe que perdeu um filho. A crença, ou “ordem natural das coisas”, segundo a qual os mais velhos morrem antes dos mais jovens dificulta ainda mais a compreensão do que é enterrar o corpo do próprio filho.

No domingo (13), data em que foi celebrado o Dia dos Pais, o técnico do CAP (Clube Atlético Penapolense), Claudemir Peixoto, de 45 anos, buscava forças para superar a perda dos dois filhos, vítimas de acidente automobilístico no último dia 31, na rodovia Castelo Branco, em Tatuí, a 392 quilômetros de Araçatuba. Coincidentemente, a tragédia ocorreu um dia após outro técnico de futebol, Abel Braga, do Fluminense, perder o seu filho de 18 anos, que caiu da sacada do apartamento, no Rio de Janeiro. 

SÍTIO
Eles voltavam para São Paulo, depois de terem passado o fim de semana no município de Cesário Lange, na região de Sorocaba, onde o treinador tem um sítio. Gustavo Acácio Peixoto, de 10 anos, e Ana Beatriz Peixoto, de 14, estavam em um Renault Logan, conduzido pela ex-mulher do treinador, que perdeu o controle da direção e capotou na pista. Além deles, o sobrinho Cauê Franco da Silva, de 12 anos, a ex-sogra de Peixoto e um garoto, de 13, estavam no carro.

Os filhos dele e o sobrinho não resistiram aos ferimentos. O outro jovem foi socorrido em estado gravíssimo com traumatismo craniano e segue internado. A ex-esposa e a mãe dela receberam atendimento médico e já foram liberadas. “Tem horas em que a ‘ficha não cai’ em relação ao que aconteceu e, quando eu lembro dessa tragédia, um vazio domina meu peito, por saber que eles não estão mais aqui”, disse.

Peixoto lembrou que, antes da tragédia, os filhos ficaram com ele durante a semana, em Penápolis. Ele havia os levado na sexta-feira (28) até Cesário Lange. De lá, seguiu viagem até Rio Claro (SP) para comandar o Penapolense em jogo da noite de sábado (29) contra o Velo Clube, vencendo por 1 a 0. “Diariamente, conversávamos por telefone ou mensagens. A Ana Beatriz constantemente me ligava, enquanto o Gustavo era mais quieto. Eu os amava e eles também demonstravam esse amor que tinham por mim”, conta, emocionado.

O técnico lembrou que os jovens sempre acompanharam seus trabalhos. “Em todos os times que fui treinador, eles iam, assistiam aos jogos e até ficavam comigo no hotel durante as concentrações. Éramos muito ligados, nos divertíamos e, agora, terei que acostumar com a situação”, relatou.

FORÇA
Católico, Peixoto destacou que, desde o trágico acidente, vem recebendo apoio de amigos, da direção do Penapolense e dos torcedores do time da região. “Lideranças religiosas conversam comigo sempre e esta força positiva que estou tendo me ajuda a suportar a dor. Nós nos preparamos para as mais diversas situações, como uma formatura, casamento e até uma partida de futebol, mas a morte, essa não conseguimos, apesar de sabermos que este é o nosso fim”, disse o treinador, treina o CAP desde junho, um mês antes do início da Copa Paulista, torneio que a equipe disputa.

Após a perda, na sua volta ao CAP, o técnico recebeu o abraço dos jogadores e da diretoria. “Outro dia, estava pelo centro da cidade, quando fui abordado por torcedores que me confortaram com palavras e abraços e isso é algo que não sei como agradecer. São estes gestos que têm me ajudado a superar esta dor que nunca aliviará”, conta o técnico, que, enquanto jogador, passou por São Bernardo, Noroeste e União Barbarense. Como técnico de futebol, começou a trabalhar em 2003. Antes de começar a trabalhar no CAP, comandava a o Campo Largo, da segunda divisão do Paraná.

APRENDIZADO
Peixoto frisou a importância de todos, principalmente aos pais, de não se esquecerem de se dedicarem aos filhos e aos parentes e amigos que os rodeiam. “A lição que eu tiro disso é que temos de viver todos os momentos a cada dia, pois o amanhã a Deus pertence. Guardarei comigo as boas lembranças e sei que meus filhos cumpriram sua missão e, hoje, estão em um bom lugar. Eles agora vivem dentro do meu coração.”

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UM TÉCNICO E A SUPERAÇÃO
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