O 'não se corromper' e a contradição

A atual estrutura permite que caciques se eternizem na vida pública

Um dos políticos mais influentes da região nas últimas décadas, o ex-deputado estadual Ricardo Castilho (PV) resolveu contar, em livro, tudo o que viu durante suas passagens pelos poderes Executivo e Legislativo. O título da obra sugere a autoria de um nome marcado pela coerência em mais de 40 anos de vida pública: “Como fazer política sem se corromper”. 

Entretanto, em entrevista à edição deste domingo da Folha da Região, Castilho não esconde vícios típicos dos políticos contemporâneos. Logo, parte para o ataque contra um de seus principais desafetos, o atual prefeito de Penápolis, Célio de Oliveira (PSDB). Chama-o de “doente”. Tudo por causa da falta de apoio do tucano à eleição de seu filho, Ricardinho, para a presidência da Câmara, em 2013.

Na ocasião, Castilho era vice-prefeito do município. Deixa claro, portanto, que a aliança com Célio estava condicionada ao “palanque” a ser feito para eleger Ricardinho chefe do Legislativo. 

A contradição com o título do livro, nesse caso, é notória. Ora, alianças feitas em troca de favores estão entre as práticas mais recorrentes, porém, abomináveis sob o ponto de vista moral na política. É importante lembrar que, antes de ser vice de Célio, com quem rompeu politicamente com menos de um mês de governo, Castilho ocupou o mesmo posto no segundo mandato de João Luís dos Santos (PT). O petista é um dos principais adversários políticos do atual prefeito.

Na sua trajetória como homem público, Castilho foi ainda vereador, presidente da Câmara e prefeito de Penápolis entre a segunda metade da década de 1970 e o início dos anos 1980. 

Fato é que, nos dias atuais, soa utópico ou demagógico um político falar em “não se corromper”. Tudo começa pelo próprio sistema político brasileiro, que é falho. A atual estrutura permite que caciques se eternizem na vida pública; quando não, passem o papel de manter o sobrenome de suas famílias no poder. O excesso de regalias a ocupantes de cargos parlamentares ou executivos faz com quem já exerça essas funções lute para se manter nesses postos.

Manchete da edição de ontem da “Folha de S.Paulo” denunciava que os ministros mais ricos do governo Michel Temer (PMDB), com salários de R$ 30.934, recebem ajuda mensal para moradia e alimentação. Este é só um exemplo. A possibilidade de enriquecimento ilícito, certamente, é outra. Daí, vem outra epidemia que contamina a política brasileira, como Castilho bem pontuou em sua entrevista: a corrupção. Em resumo, para que políticos não se corrompam, não basta apenas ter representantes bem intencionados, mas o combate ao fisiologismo e à bandalheira ser, cada vez mais, eficiente, como tem feito a Operação Lava Jato.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.387839

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