Nalberto Vedovotto é coach, jornalista e escritor em Birigui

Nalberto Vedovotto: Jesus, ruim de R.H.

A afirmação que dá título a este artigo é comumente usada por frei Décio, pároco da Paróquia Imaculada Conceição de Birigui. Na homilia do dia 24 de setembro passado, (o tema abordado foi o Evangelho de Mateus 20, 1-16-a) ele voltou a utilizá-la ao analisar a atitude cristã de fazer justiça, completamente oposta a dos homens:
 
“Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: — O reino dos céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 
 
Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia e os mandou para a vinha. Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça desocupados e lhes disse:
 
— Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo. 
 
E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três da tarde, fez a mesma coisa. Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça e lhes disse: 
 
— Por que estais aí o dia inteiro desocupados? 
 
Eles responderam: 
 
— Porque ninguém nos contratou. 
 
O patrão lhes disse: 
 
— Ide vós também para a minha vinha.
 
Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 
 
— Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!
 
Os que foram contratados de madrugada, ao receberem uma moeda, assim como aqueles que chegaram à vinha depois das 17 horas, começaram a resmungar contra o patrão:
 
— Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro. 
 
Então, o patrão disse a um deles: 
 
— Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso, não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja por estou sendo bom?”
 
Se trouxer essa parábola para os dias atuais, a maioria dos empreendedores irá pensar: 
 
— Poxa! A empresa que praticar essa política salarial vai quebrar, por dois motivos. Primeiro, por pagar quantias superfaturadas e, segundo, o Sindicato vai entrar com ações trabalhistas exigindo a diferença de salário paga a menos para aqueles que trabalharam mais horas.
 
Aí, entra a sabedoria de Jesus. Ele pensava numa sociedade mais igualitária. Aquele que trabalhou 12 horas recebeu uma moeda de prata, suficiente para sustentar sua família por um dia. Como ficaria a família daquele que só trabalhou duas ou três horas? Seria justo seus membros passarem fome enquanto o vizinho estivesse se alimentando adequadamente?
 
Infelizmente, é o que assistimos hoje no mundo corporativo. Basta alguém do grupo ser guinado a uma posição de mando maior, que já começa a tratar os seus subalternos de forma desumana, e até comete assédio moral no trabalho.
 
Sem contar, é claro, as disputas internas, onde o vale-tudo por uma condição social melhor supera todo tipo de respeito e consideração humanas. De tanto medirmos o semelhante pelo que ele tem, acabaremos nivelados por baixo, com a ficção científica spilberianas se realizando em curto espaço de tempo — ou seja, não haverá miséria suficiente para ser dividida entre todos os seres da terra.
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