Nalberto Vedovotto é coach, jornalista e escritor em Birigui

Nalberto Vedovotto: Eu sou um trouxa, idiota!

Encontrava-me no interior de um supermercado. De repente, entre as abobrinhas, pepinos, melões, abacaxis, cebolas e verduras, surgiu um conhecido e, na “lata”, disse isso:
 
— Você é um trouxa, idiota!
 
Como diria o filósofo popular: “Pensei de migo para comigo”, e com meus miolos comecei a engendrar a reação: “Tenho mais de 60 anos, adepto da não violência, parte da vida dedicada à prática da compaixão, mas vou esquecer tudo e publicamente dar um cacete nesse camarada”.
 
— Quanto você recebia de salário por mês na instituição que você foi um dos seus fundadores e, por muito tempo, seu diretor-executivo?
 
Após dizer o salário de marajá que recebia mensalmente (só com o último, comprei uma fazenda de 50 alqueires), ele arrematou:
 
— Pois é! Veja se é ou não trouxa. Você foi um dos obreiros na criação da instituição, dedicou-se a ela por décadas e mais décadas e, hoje, seu substituto ganha três vezes mais do que isso, e ainda sobram mil reais para ele tomar uns cervejinhas.
 
O profissional a que esse conhecido se referia nem sequer era da minha cidade, chegara há pouco tempo, praticamente um imigrante. Fiquei sem resposta. Meu único gesto foi estender a mão ao interlocutor e dizer: 
 
— Se essa informação que repassa é verdadeira, toque aqui na mão do mais ilustre trouxa e idiota da face da terra, com meu pedido de perdão sincero pelo que pensei fazer contigo ao iniciar nosso diálogo.
 
Meu caro leitor, a quem respeito e dedico minutos preciosos da minha vida nesses contatos semanais. Pela segunda vez voltei a sentir o gosto amargo de ser trouxa e idiota, ao ouvir as notícias que os políticos transferirão recursos de uma rubrica para outra no Planejamento Plurianual (sempre dinheiro do erário — ajuntado com cada gota do suor do brasileiro que realmente produz), para que tenham mais de um bilhão de reais a fim de bancar suas campanhas eleitorais do próximo ano.
 
Um bilhão, que poderá chegar a 3,6 bilhões, segundo importante revista nacional, para que o candidato a uma vaga na Câmara e Congresso possa concorrer livre, leve e solto a uma cadeira no parlamento, que lhe renderá mensalmente, só de salário, R$ 33.763. “Com as verbas de auxílio-moradia e transporte, entre outras, o valor sobe para R$ 83.628,00. Suas excelências podem gastar ainda outros R$ 97.000 para contratar até 25 assessores” (Revista Veja, edição 2544, de 23/8/2017).
 
Aí eu pergunto: quanto você que é obrigado a votar neles, vai ter de retorno? Obrigado pela resposta imediata: “nenhum centavo!”
 
Será que não teremos de aplicar um corretivo nesses caras de pau, a exemplo do que faziam certos pais, que, diante da peraltice de um filho, o colocavam de bruços no colo e lhe acariciavam com umas cintadas pedagógicas? Cuidado, o “DIVA - Departamento de Investigação da Vida Alheia” adverte: “Se fizer isso hoje, você vai parar na cadeia”.
 
Num país de 16 milhões de desempregados, com empresas quebrando diuturnamente, uma notícia dessa beira à provocação, e nos remete aos mais despudorados sentimentos incivilizados, como diria o “profeta” Roberto Jeferson. Estou me candidatando a ser um dos que usarão a cinta, e você, qual será sua atitude? Alienar-se mais uma vez e sentir-se como eu, um verdadeiro e assumido trouxa e idiota, ou vai mandar um e-mail ao candidato no qual votou na última eleição informando que ele não terá mais seu voto e de ninguém da sua família, se aprovar tal canalhice?
LINK CURTO: http://folha.fr/1.365289

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