Nalberto Vedovotto é coach, jornalista e escritor em Birigui

Nalberto Vedovotto: Bendita és tu...

"Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Jesus, Mateus 25:40)

Se o anjo Gabriel estiver visitando a terra constantemente, com certeza dirá a Aparecida Salvador: “Bendita és tu entre as mulheres...”, tal qual se referiu a Maria, por ocasião da anunciação da vinda do “menino” Jesus! Há quase 4.000 dias o ritual dessa mulher é sempre o mesmo, de segunda a segunda, sem direito a férias, salários e, tampouco, ajuda de quaisquer instituições — públicas ou privadas.

Não é rica, pelo contrário, sobrevive com a aposentadoria adquirida no serviço público municipal, mas nem por isso faz da sua vida o que pessoas egoístas reprisam todos os dias: lamentações, mau humor, e de cada pequeno problema, seus infindáveis “mimimis”. 

Seu ritual é sagrado! Sabe que já não é mais dona do seu tempo livre, espontaneamente constrói o legado do qual não abre mão, e que será a sua marca, após a passagem repentina pela terra.

É sarcasticamente criticada por alguns “cristãos de carteirinhas”, que tentam desestimulá-la, com comentários medíocres, tais como: “Você acha que vai receber alguma coisa em troca desses manos?”

O seu público-alvo — nicho de mercado —, como acostumamos estudar com os ditos “gurus” do mundo digital, é composto por indivíduos que sequer têm uma telha para cobri-los quando chega a sombra enigmática e insondável da noite: alcoólatras, viciados em drogas, moradores de rua, ex-presidiários, mendigos que surgem sabe-se lá de onde.

Diariamente, lá está ela a preparar pessoalmente, com todo cuidado, zelo e carinho, o almoço para esses “clientes” que chegam e sabem de cor a senha: — Bom dia, Cida, tem comida pronta?

E assim, a cada movimento seu (próprio) vão chegando os Jefferson(s) (morador de rua, 33 anos, viciado em drogas desde os 12 anos de idade), Vanderlei(s) (45 anos, de Araçatuba, alcoólatra, há 10 anos na rua, e há um descobriu a casa na rua Nilo Peçanha, que o acolhe todos os dias e mata sua fome) e os Francisco(s) (de Guararapes, 54 anos, ex-trabalhador braçal no corte de cana, que saiu de casa há muitos anos).

Numa segunda-feira, enquanto conversava com ela, estes três cidadãos se deliciavam com um prato abarrotado com arroz, feijão, cuscuz, quibe de panela (uns três pedaços para cada um) e uma porção de couve refogada.

Sozinha, com a ajuda de sua protetora, Nossa Senhora Aparecida, essa mulher nos emociona por sua simplicidade, transmite com sua obra as lições que Jesus nos ensinou, e vai seguindo com sua missão de alimentar diariamente — 4 a 12 pessoas que nunca viu, não sabe de onde vem e cuja certeza é não querer nada em troca.

Onde buscou esta inspiração? Quando pequena — com três meses de idade — precisou deixar a zona rural para morar em Birigui, por causa da saúde debilitada. Sua avó, a levava à missa todas as semanas, desde os 5 anos, na capela do antigo Colégio das Freiras, onde hoje funciona um supermercado, em frente ao cemitério da Saudade.

Numa de suas perorações, quando orava por uma pessoa à beira do caixão, o espírita Adauto Quirino Silva, disse mais ou menos as sábias palavras: — O corpo foi o hospedeiro deste cidadão, o que vai valer para Deus é o que seu espírito fez de bom ao seu semelhante.

É isso, minha respeitável Aparecida Salvador, o que a senhora apresentará ao nosso Grande Pai, no momento maravilhoso de o Ver! Seu testemunho prático de vida deixa-nos diminuídos diante da pretensão que às vezes temos, de nos achar melhores do que nossos irmãos... 

LINK CURTO: http://folha.fr/1.379996

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