Polícia Civil e agentes da CPFL fazem vistoria em um dos imóveis suspeitos de terem desvio de energia

Fraude na energia: Eletricistas cobravam 15% e acusados ficaram surpresos

Foram cumpridos 229 mandados de busca e apreensão

Pelo menos 34 pessoas foram presas em flagrante até a tarde desta segunda-feira (24), durante a operação Gato de Botas 2, deflagrada pela Delegacia Seccional de Araçatuba para combater furtos de energia elétrica. Outras quatro pessoas foram presas temporariamente por determinação da Justiça, acusadas de serem responsáveis por fraudar os medidores de energia elétrica.

Segundo a polícia, ao todo foram cumpridos 229 mandados de busca e apreensão e a expectativa era de que o número de flagrantes seria ainda maior, pois as ações nos locais investigados prosseguiriam durante toda a tarde e poderia se estender até o período da noite. Das 34 prisões em flagrante até a tarde, 17 foram em Birigui, onde três pessoas da mesma família foram presas temporariamente por determinação da Justiça. Pai e filho são eletricistas e acusados de cometer as fraudes. A mulher seria a gerente financeira do esquema criminoso.

O outro eletricista preso é de Lins, onde a polícia apreendeu R$ 211 mil em dinheiro, montante que seria proveniente da ação criminosa, que é investigada há pelo menos seis meses. Também foram apreendidos lacres usados em medidores de energia, alguns deles falsificados e outros furtados, segundo a polícia.

ARMA
Em Araçatuba, até por volta das 15h30, quando foi concedida entrevista coletiva na Delegacia Seccional, quatro pessoas tinham sido presas em flagrante por furto de energia elétrica. Um dos presos é um comerciante conhecido na cidade e que foi candidato a vereador na eleição passada. No estabelecimento comercial dele os policiais encontraram uma arma de fogo, da qual ele possui registro, porém, está com validade vencida. Apesar de não configurar crime, ele responderá administrativamente pela irregularidade.

Outra arma, uma carabina calibre 44 também com o registro vencido, foi apreendida em uma residência de alto padrão, na região central de Penápolis, pertencente a um empresário do ramo de pneus e que possui lojas em Araçatuba, Assis e Marília. Ainda em Penápolis foram presas outras oito pessoas, todas acusadas de furto de energia elétrica.

APURAÇÃO
A investigação teve início há cerca de seis meses e contou com a utilização de escutas telefônicas nos aparelhos de celular dos acusados de serem os responsáveis por fraudar o consumo de energia. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Araçatuba, Birigui, Clementina, Cafelândia, Andradina, Ilha Solteira, Coroados, Penápolis, Marília, Assis, Avanhandava, Barbosa, Piacatu, Bilac e Glicério.

Os policiais saíram em cumprimento aos mandados de prisão e de busca antes das 5h. Primeiro, eles foram nas residências dos acusados de serem os fraudadores da rede de energia elétrica. Segundo a polícia, a medida teve como objetivo impedir que atrapalhassem os trabalhos. A investigação apontou que além de cometerem as fraudes, eles deveriam acompanhar o funcionamento do sistema e desfazê-lo em caso de suspeita de fiscalização.

Em todos os endereços os policiais eram acompanhados de equipes técnicas da CPFL Paulista e o IC (Instituto de Criminalística) também enviava profissionais para realizar perícia quando constatada a irregularidade. Os casos foram registrados como furto qualificado, que prevê pena de até oito de cadeia. Por isso, os acusados não tiveram direito a fiança e serão apresentados em audiência de custódia no Fórum de Araçatuba nesta terça-feira.

 

Grupo cobrava de clientes 15% do que era economizado com fraudes

 

Em entrevista coletiva realizada na tarde de segunda-feira (24) na Delegacia Seccional de Araçatuba, a Polícia Civil informou que os presos acusados de fraudar o medidor de energia de centenas de imóveis na região cobravam 15% do valor economizado. Segundo o delegado Marcelo Curi, a Seccional foi responsável pelo serviço de inteligência, que grampeou os telefones das pessoas que realizavam os chamados “gatos”. Com a gravação dessas conversas, a polícia chegou aos acusados e às pessoas que se beneficiaram das fraudes.

Calcula-se que apenas 20% do total consumido era efetivamente registrado. “As pessoas que faziam o gato, ganhavam 15% da economia do beneficiado. Se elas tinham uma conta de R$ 1 mil por mês, o valor caia para R$ 200 e dos R$ 800 que deixavam de pagar para a companhia, elas pagavam 15% aos fraudadores. O pagamento era feito por mês”, explicou.

Ainda de acordo com Curi, quando ocorreram as prisões em 2012, a polícia descobriu que havia um grupo concorrente, mas não conseguiu identificá-lo. Devido àquelas prisões, esse grupo ganhou mercado.  A polícia apurou que eles procuravam interessados em se beneficiar com a fraude e essas pessoas os indicavam a conhecidos, que também queriam economizar no consumo de energia de forma fraudulenta.

FRAUDES
O delegado Paulo Natal contou que eram vários os tipos de fraude feitos pelos acusados. Na residência onde ele acompanhou o cumprimento do mandado de busca, o relógio medidor estava travado. “Como tem a data prevista da visita para a leitura, dez dias antes a trava era retirada. Assim, de 30 dias do mês, o medidor registrava dez. Com isso, economizava-se 20 dias no mês. Hoje faz 15 dias que foi feita a medição e o consumo está o mesmo”, revelou.

De acordo com ele, também há casos em que o relógio era voltado manualmente para reduzir o montante consumido. Por isso, relógios foram apreendidos e serão periciados. Marcelo Curi informou que operações desse tipo passarão a ser constantes para tentar inibir esse tipo de fraude. “Isso será uma constante. Vamos realizar outras operações e aqueles que pensam que vão furtar energia e ficar impunes, não vão. Eles vão para a cadeia igual foram esses aí”, comentou.


Acusados se surpreenderam ao serem presos, diz delegado


O delegado Eduardo Lima de Paula, que acompanhou o cumprimento de mandados de busca e registros de flagrante em Birigui, revelou que as pessoas presas acusadas de furto durante a operação Gato de Botas 2 ficaram surpresas ao saber que iriam para a cadeia. De acordo com ele, houve casos em que a investigação apontou que o mesmo infrator manteria o esquema fraudulento na casa dele e no estabelecimento comercial que possui, por isso, foram feitas vistorias nos dois imóveis.

Segundo o delegado, muitas das pessoas que se beneficiavam do furto mediante fraude acreditavam que não estavam cometendo crime, mas apenas um ilícito administrativo, que poderiam ser multados, mas que não daria prisão. “Acompanhei os flagrantes e alguns dos autuados estavam visivelmente transtornados, por não estarem acostumados com o ambiente da delegacia e até perguntavam se realmente seriam presos. Sim, vão ser presos, e pela culminada, não tem nem direito a fiança num primeiro momento”, explicou.

Eduardo comentou que há quatro anos trabalha na delegacia em Birigui e constantemente há denúncias desse tipo de crime, sendo realizadas de 10 a 12 buscas por ano. Em maio deste ano, por exemplo, o ex-vereador biriguiense Odair Rodrigues Fernandes, o Odair do Paulista (PR), 40 anos, foi preso acusado desse mesmo crime. “O apoio que tivemos hoje (ontem) para cumprimento desses mandados é muito importante, pois é uma ação que foge da rotina e é preciso de pessoal para obtermos esse resultado”, disse.


Organização detida seria concorrente de presos em 2012


Os quatro presos durante a operação de combate ao furto de energia elétrica nesta segunda-feira (24) na região de Araçatuba seriam concorrentes do grupo preso em 2012, quando foi deflagrada a primeira etapa da operação Gato de Botas. Com aquelas prisões, eles teriam ampliado a atuação na região.

Daquela investigação, o Ministério Público em Bilac denunciou 11 pessoas por associação criminosa, seis vezes por furto e por comporem uma quadrilha especializada em fraudar contas de energia elétrica de empresas. O grupo, liderado por Marco Antônio Ribeiro Girão, teria furtado energia elétrica em Araçatuba (10 estabelecimentos), Birigui, Coroados, Ribeirão Preto (2 estabelecimentos cada), Rio Claro, Cafelândia, Lucélia, Araras, Barra Bonita, Igaraçu do Tietê, Itatiba e Limeira (1).

Ele e o pai dele foram condenados pelo TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) a três anos, seis meses e 20 dias de reclusão por corrupção ativa, em processo relativo à apreensão de um arsenal em uma casa no condomínio Serra Dourada, em Araçatuba. Foi essa apreensão que deu início à investigação do furto de energia.

Calcula-se que somente os crimes ocorridos em Bilac teriam causado prejuízo de aproximadamente R$ 586 mil à CPFL Paulista. Para adulterar o consumo, os denunciados retiravam os lacres dos medidores de energia elétrica e os substituíam por outros falsificados, que eram fabricados em uma empresa de Birigui. O dono da fábrica confirmou ter fabricado lacres falsos. Um funcionário da companhia de energia, responsável pela fiscalização, foi acusado de fazer “vistas grossas” para os lacres adulterados.


Concessionária deve cobrar os valores retroativos
 

Segundo a CPFL Paulista, as fraudes e furtos de energia elétrica são crimes previstos no Código Penal e a pessoa flagrada cometendo a irregularidade poderá ter que pagar os valores retroativos referentes ao período fraudado e multa.

A empresa esclarece que essas fraudes, chamadas “perdas comerciais”, contribuem para tornar a conta de luz mais cara para todos os consumidores. “Isso porque a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) reconhece uma parcela do prejuízo da distribuidora com o valor da energia furtada e dos custos para identificar e coibir as irregularidades”, informa.

A concessionária alerta ainda que essa prática piora a qualidade do serviço prestado e prejudica todos os consumidores, pois as ligações clandestinas sobrecarregam as redes elétricas e deixam o sistema de distribuição mais suscetível a interrupções no fornecimento de energia. Com relação à operação realizada nesta segunda-feira (24) em parceria com a Polícia Civil, a CPFL Paulista informa que seriam fiscalizados 210 estabelecimentos comerciais, residências e pequenas indústrias na região. 

Até as 13h30, aproximadamente 40 clientes com irregularidades tinham sido identificados, a maior parte por manipular o medidor de energia. Segundo a empresa, nos últimos 19 meses foram realizadas 3.995 inspeções em unidades consumidoras de Araçatuba, identificando 637 irregularidades relacionadas a desvios de energia elétrica. O volume de energia recuperado no período totalizou 573 MWh, equivalente ao consumo anual de 287 residências.

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