Para Ciro Veneroni, folha de pagamento de Avanhandava está fora da realidade

Empresário e estreante, prefeito quer reduzir folha de pagamento

Veneroni é mandatários que está despontando na política

O prefeito de Avanhandava, Ciro Veneroni (PSD), encaixa-se no perfil de mandatários que está despontando na política brasileira. Empresário do ramo de transporte, Veneroni também possui postos de combustíveis e uma empresa de cerâmica. No ano passado, aos 47 anos, ele disputou uma eleição pela primeira vez e foi eleito chefe do Executivo com 3.367 votos.

Para Ciro, existem grandes diferenças entre o setor público e o privado. O primeiro oferece muitas regras e burocracia para se conseguir algo. Ele explicou que, enquanto uma empresa precisa produzir, receber e vender, o município já conta com uma receita. A segunda etapa, que é semelhante nos dois casos, é o controle de gastos. 

A grande preocupação de Ciro é a folha de pagamento dos servidores, que, de acordo com ele, consome quase 60% das receitas do município. O limite pela Lei de Responsabilidade Fiscal é de 54%. O excesso de gastos com pessoal foi o que motivou a rejeição das contas do município em 2011. Confira trechos da entrevista que Ciro concedeu à Folha da Região:
    
Você pretende trazer seu conhecimento do setor privado para a gestão pública? De que maneira?
A grande diferença do setor privado e do setor público é que no primeiro você tem que produzir, vender e receber. Essa é uma etapa. A outra é controlar a saída do que entrou. O setor público não tem a primeira etapa. A Prefeitura não tem que vender nada, produzir nada. Ela tem uma receita. Você tem a segunda etapa, que é controlar os gastos. Uma das coisas que você hoje faz na sua casa, que eu faço na minha, quando você recebe seu salário, controla seu dinheiro. A principal coisa é controlar a saída: comprar mais barato, cortar da melhor maneira possível. É o que estou aprendendo nos primeiros meses. 
    
Como está a situação financeira do município?
Nós encontramos uma situação um pouco complicada. Muitos precatórios para pagar. O principal problema do município hoje é que nós temos 190 ações trabalhistas, que são pequenos valores que não viram precatório. Vamos fazer penhora em conta e isso vai atrapalhar muito. Temos problemas de compra, principalmente, de remédios. Os principais fornecedores de medicamentos têm crédito com o município e se a gente não quitá-los eles não querem fornecer. E também temos créditos em outros comércios. Esse é um dos principais problemas que enfrentamos hoje. 
    
Qual é o valor da dívida do município?
Nós temos R$ 3 milhões de precatórios para pagar e quase R$ 2 milhões de dívidas flutuantes (a curto prazo). 
    
Quais medidas estão sendo adotadas para tentar pagar esses valores?
Estou pagando primeiro o que estou comprando. Na medida do possível, o que está sobrando, estamos começando a liquidar alguma dívida do passado, mas bem de leve. Porque se você tentar pagar o que ficou para trás você não paga nem o seu. 
    
Nesses dois meses que passaram, qual é o balanço que você faz?
O setor público é muito travado para se conseguir as coisas. É muita burocracia, muita regra, tudo lento. Você tem que ver preços, documentação. No setor privado, você chega lá e fala: compra isso, quanto custa e tal. Isso é pouco difícil. Todo o começo de gestão é assim: troca de gestão, troca de secretário. Acho que tem que acostumar mais, cada um com seu companheiro novo, setor novo. Mas acho que dentro das dificuldades está indo bem. 
    
Como tem sido seu relacionamento com a Câmara?
Tranquilo. Os vereadores são muito conscientes. Eles sabem das dificuldades do município. Noventa por cento da Câmara foi renovada. Então, a moçada que entrou sabe que tem que mudar. 
    
A ex-prefeita Sueli Navarro Jorge (PSDB) foi cassada por improbidade administrativa. Como o senhor pretende tratar essa questão da ética no município?
Estou tentando fazer as coisas certas. Tem que ser certo. Qualquer coisa que você faz hoje pode cair em uma improbidade administrativa muito fácil. Você tem que andar como a lei manda. Não adianta querer dar um jeitinho daqui, um jeitinho dali, que vai dar problema. Tem que ser firme. Hoje o TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) está em cima. Todo mundo hoje tem percepção, sabe quando a coisa é certa ou quando tem cheiro de alguma coisa errada. O que é certo é certo, o que é errado é errado. As coisas têm que ser certas. 
    
Em 2011, a Prefeitura teve suas contas rejeitadas por causa de excesso com a folha de pagamento com pessoal. Como está hoje essa situação?
Eu encontrei a folha com índice totalmente fora da realidade, com quase 60% (da receita). Estou tentando trazê-la para realidade dos 54% que a lei manda. Reduzindo hora extra, gratificação, tentando ver se diminuo pessoal. Só que não é fácil. O outro segredo é aumentar a receita, aí o índice da folha cai. Mas está tudo em crise. Fiz uma isenção de IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) para tentar isso. É algo que me preocupa. Um negócio muito sério. Avanhandava está completamente fora da realidade. A gente tem que se adequar. 
    
Você tem planos para atrair empresas para Avanhandava?
Avanhandava necessita de empresas. Só que, em meio a crise que está hoje, achar uma empresa que está expandindo é difícil. Se você encontrar uma que queira ir para um município que talvez não tenha condições e recursos para te oferecer uma infraestrutura, é mais difícil ainda. Primeiro a gente precisa se adequar certinho, solidificar e estruturar o município. Aí eu vou ter condições de chegar em uma empresa e dizer que a contrapartida do município é isso aqui, para ficar interessante para a empresa. Se você chegar em um município que hoje está estruturado, você pode dar um barracão, isenção de impostos, infraestrutura. Faz uma série de coisas. Hoje, Avanhandava não tem como dar melhor condições para essas empresas. Mas estamos correndo atrás, de porta em porta. 
    
Em 2014, os comerciantes da cidade fizeram um protesto pedindo mais segurança. A cidade ainda sofre com esse problema?
Acho que não. Melhorou muito. Acho até que foi válido (o protesto). Os índices caíram muito. Não é o nosso principal problema hoje. O policiamento tem estado bem em cima mesmo. Estou tentando ver se consigo fazer a atividade delegada aqui, na qual o município paga aos policiais militares nos dias de folga, para ficarem com mais frequência na rua. Acho que nós vamos conseguir, para melhorar mais ainda. Obviamente que, quanto mais segurança, melhor. 
    
Qual é o maior desafio que você vê pela frente?
Acho que é restabelecer o crédito do município. Conseguir colocar a folha de pagamento dentro do que manda a lei e trazer emprego para o município. Quero terminar meus quatro anos com pelo menos 80% das ruas recapeadas. Nós não tínhamos pediatra, agora já temos. Fazer grandes obras acho difícil. Eu quero fazer o que nós já temos funcionar direitinho. Esse é o meu grande desafio. Obviamente, se a gente conseguir uma obra grande temos que abraçar. 
    
Como está a situação da educação no município?
A área de educação pode melhorar, mas não está ruim. Melhoramos muito a merenda escolar neste ano. Para se ter uma ideia, em 2016 eles compraram 4,4 mil quilos de carne. Eu comprei 6,8 mil para 2017.
    
Você falou na falta de pediatras que foi resolvida. Tem outra especialidade que está em falta? 
Fazia um ano que Avanhandava não tinha pediatra. Tinha crianças com seis anos, que nunca tinham passado por um pediatra. Temos ginecologistas, médicos do PSF (Programa Saúde da Família). Hoje, não temos condições, por exemplo, de ter um cardiologista.

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