Dois pesos, duas medidas

Dinheiro para ações como as de Pereira Barreto poderia ser usado em prol dos animais

Após entrar na Justiça para conseguir o sacrifício de cão pertencente a um casal de idosos, o município de Pereira Barreto teve seu recurso de apelação negado, garantindo a vida ao animal e a felicidade de seus donos. A leishmaniose visceral canina já foi um grande problema na região, pois o transmissor da doença é o mosquito palha, ou Birigui, encontrado em abundância por aqui. 

No início da epidemia, inúmeros animais foram sacrificados devido à inexistência de tratamento para os cães e à possibilidade de contágio humano. Assim, como é impossível eliminar o vetor, optou-se pelo sacrifício dos caninos infectados.

Em 1999, ano em que os primeiros casos foram notificados na região, equipes do CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) faziam varreduras às residências e, onde havia cães, eram realizados os exames e, depois, notificados os proprietários sobre os resultados. Um sem número de animais foi sacrificado e, ainda assim, os casos persistem quase 20 anos depois. De um exemplo simples se depreende o mais óbvio: sacrificar não é a solução. 

Atualmente, para cortar o ciclo desta doença, que se estima em 12 milhões de infectados em 98 países, ações de combate ao mosquito transmissor são a forma mais eficiente e tais ações cabem ao Estado. O caso de Pereira Barreto serve para alertar a população e mostrar ao Estado que este não tem ascendência sobre o povo, principalmente quando não faz sua lição de casa.

Com pesquisas e empenho de instituições, conseguiu-se um tratamento para a leishmaniose visceral canina e que permite aos proprietários de animais optarem por este tratamento em vez de sacrificar seus companheiros que, em muitos casos, são tratados como membros da família. A justificativa judicial para a negativa da apelação do município foi direta: “Evidentemente, a dengue não é combatida através da eutanásia humana”. Muito justo e sensato, já que o Estado tentou, mais uma vez, jogar a culpa toda em um único animal, enquanto muitos vagam pelas ruas, infectados e ninguém faz a lição de casa.

Enquanto não forem implantadas políticas públicas de saúde relevantes, ficará sempre mais fácil comprar briga com o lado mais fraco da corda. Em meio aos 12 países da América Latina, o Brasil é responsável por 90% dos casos, o que indica que a lição de casa não está sendo feita. 

Em vez de eutanasiar os animais, fazer campanhas de vacinação pode ser um meio mais eficaz, pois a vacina hoje utilizada no país, embora cara, oferece proteção superior a 92%. O dinheiro para patrocinar ações iguais às de Pereira Barreto poderia ser revertido em prol dos animais.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.384201

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