“Você não acha uma casa vazia em Gabriel Monteiro”, afirma o prefeito tucano

Coca luta para manter seu 'pedacinho de céu'

Bom índice de desenvolvimento humano tem atraído moradores

A manutenção do IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) em bom nível (em 2010 foi de 0,763 em uma escala de 0 a 1) é uma das preocupações do prefeito de Gabriel Monteiro, Vanderlei Mendonça, o Coca (PSDB). Com a divulgação da boa qualidade de vida na cidade, muitas pessoas têm se mudado para lá, antes mesmo de conseguir um emprego, segundo ele. 

De acordo com o chefe do Executivo, o crescimento populacional pode colocar em risco o bom índice de desenvolvimento humano local. “Só nesta semana apareceram cinco crianças querendo vaga na creche”, comentou o tucano. Embora tenha boa qualidade de vida, o prefeito disse que não há emprego suficiente para quem vem de fora. 

Além disso, a situação do Hospital Beneficente Padre Bernardo Braakhuis, de Bilac, que atendia os moradores de Gabriel Monteiro, tira o sono do prefeito. Os pacientes da cidade que precisam de maiores cuidados são levados a Penápolis, a cerca de 70 quilômetros de distância. Confira trechos da entrevista que Coca concedeu à Folha da Região:
    
Gabriel Monteiro tem um dos melhores índices de desenvolvimento humano da região. Por outro lado, o município é pequeno e tem baixo índice de arrecadação. Qual é a sua estratégia para manter esse padrão de desenvolvimento humano nestes próximos quatro anos?
Para mantê-lo já está difícil. Devido a este excelente padrão de vida que os monteirenses têm, as pessoas ficam sabendo disso pela imprensa e vêm para cá. Para se ter uma ideia, só nesta semana apareceram cinco crianças querendo vaga na creche. Eles acham que Gabriel Monteiro tem vaga em creche de primeiro mundo à vontade, que a escola é de primeiro mundo, e vêm tudo para cá atrás da qualidade de vida, sem ter um emprego. O problema é gravíssimo. Eu acho que a primeira coisa que uma pessoa responsável tem que fazer é vir atrás de emprego. 
    
A cidade tem emprego para oferecer a estas pessoas que se mudam, buscando qualidade de vida? 
Hoje não há emprego para todas essas pessoas. A demanda é muito forte. Você não acha uma casa vazia aqui. Vamos ter que tomar alguma providência. Não vamos suportar essa carga. A nossa creche está cheia. Ela possui excelente qualidade, mas vai chegar a um momento em que vamos correr o risco desse índice cair. A nossa escola estadual é a segunda melhor do País. Esses dias, nós homenageamos seis alunos que foram premiados na Olimpíada de Matemática. Nem em Araçatuba aconteceu isso. Teve um estudante aqui da cidade que nunca estudou fora e passou em cinco universidades federais. 
    
O senhor acredita que este crescimento populacional pode derrubar o índice de desenvolvimento humano?
Pode. A pessoa tem o direito de ir e vir. Porém, tem noite que eu nem durmo maquinando o que eu posso fazer, justamente para não diminuir a qualidade de vida que temos. Eu falo que isso aqui é um “pedacinho do céu”. É uma cidade do nível da Europa aqui no Brasil. Se você questionar qualquer pessoa daqui sobre o que não funciona, ela não vai saber dizer. O povo daqui é bom e educado. Para vocês terem uma ideia, fui vereador por tantos anos (cinco mandatos) e era fiscal de posturas. Fiscal só mexe com o que é ruim, mas nunca tive problemas. É um povo ordeiro, trabalhador e educado.
    
Por ser uma cidade pequena, como é o seu relacionamento com a população?
É direto. Eu atendo as pessoas na rua. Fui vereador por 24 anos, então, é como se eu fosse da família deles. Não gosto nem que fale que sou prefeito. É o Coca mesmo. Aqui ninguém me conhece por Vanderlei. 
    
E de onde veio o apelido?
Vem desde quando me conheço por gente. Em 1992 foi a minha primeira eleição e o Coca ficou. Se falar Vanderlei, ninguém conhece. 
    
Como foram esses quase três primeiros meses de governo?
Foram de muita correria atrás de emenda e benefícios para o município. Não sei se é porque eu fui vereador por muito tempo, mas me sinto ainda mais na obrigação de ser um bom prefeito, pois não posso falar que não tinha noção da coisa pública. A Renée (Crema Vidoto, ex-prefeita) era do mesmo partido e a gente estava sempre aqui. Não posso falar que não estava preparado. Tenho a obrigação de fazer um bom governo. 
    
O senhor se deparou com alguma situação complicada com relação às finanças do município?
Não. Peguei os caixas “tranquilos”. Não tem dívidas. Só tem a questão do Hospital de Bilac que está nos dando preocupação. Não é na nossa cidade, mas a nossa população é atendida naquele hospital. Para se ter uma ideia, até janeiro deste ano pagávamos R$ 10 mil e, agora, na hipótese de abrir o hospital, vamos para R$ 30 mil, que não estava no orçamento do município. Mas vamos conseguir. Vamos abrir o hospital, se Deus quiser. Não vamos deixar a nossa população. Nós estamos sendo servidos por Penápolis por enquanto. O tratamento lá é excelente, o hospital e o pronto-socorro são bons, mas é longe. De repente, você perde uma vida por causa da distância. Custe o que custar, se for para salvar uma vida, vamos salvar com 19 quilômetros e não 70. Uma vida não tem preço. 
    
O Hospital de Bilac foi o maior desafio nesse período em que o senhor está como prefeito?
Esse foi, sem dúvida, o topo da minha preocupação. Tem noite que eu nem durmo. É muito raro a gente precisar do Hospital de Penápolis, mas pode acontecer de uma pessoa passar mal de madrugada e até chegar lá vai demorar. É uma vida que está em jogo.
    
Qual outra situação que o senhor acredita que precisa resolver?
Acho que é a questão desse pessoal de fora que está vindo para o município. Não sei nem se tem como resolver, porque a pessoa tem o direito de ir e vir. Está na Constituição. Não sei o que posso fazer para atendê-los da melhor forma possível. Não quero derrubar nossa qualidade de vida, pelo contrário. Tanto é que não medi esforço para investir na educação. Nosso material escolar é o melhor que existe hoje no mercado. Quero melhorar também na saúde. São nossas prioridades. O resto vem depois. 
    
A Renée teve alguns problemas com a Justiça. O seu governo é independente do dela? 
É. Nós estávamos no mesmo partido, mas o meu governo é independente. O que ela pensa pode não ser o mesmo que eu. Respeito a opinião de cada um. Eu a respeito muito. Não me deixou dívidas e é preciso frisar isso. Mas não tem nada a ver uma administração com a outra. 
    
O senhor tem estratégias para atrair empresas para o município, até por conta do aumento da população?
A partir de junho vou deixar a cidade bem bonita. A primeira coisa que um empresário vê quando chega a uma cidade é a sua aparência. Agora que a temperatura vai começar a dar uma amenizada vamos realizar poda de árvores, pintar tudo e deixar bem bonito para continuar convidando os empresários. Esperamos que a economia melhore. Eu preciso que venha primeiro o empresário, depois o trabalhador, mas está acontecendo o contrário. Vou investir forte no agronegócio, pois, em minha opinião, é o negócio da vez, apesar desta Operação Carne Fraca. Não sei se é porque eu gosto de agricultura, mas acho que é a bola da vez.

VEJA AQUI TODAS AS REPORTAGENS DA SÉRIE
'SUA CIDADE EM DISCUSSÃO'



LINK CURTO: http://tinyurl.com/kv2aau8