Danilo Caymi se apresentou em Birigui no último dia 5

A musicalidade de Danilo Caymmi

Artista conta um pouco de seu berço musical e aspirações

Ele herdou do pai, o inesquecível Dorival Caymi, o dom para a composição e o canto. Da mãe, Stella Maris, o contato com o público e a interpretação nos palcos. É irmão de outras estrelas da MPB, Dori e Nana Caymmi. Seu nome: Danilo Caymi, que, entre suas atuações como músico, é cantor, compositor e arranjador. 

Ele iniciou a carreira artística participando como flautista, da gravação do disco “Caymmi Visita Tom”, de 1964. Atuou como flautista e compositor, obtendo o terceiro lugar no 3º Festival Internacional da Canção, na fase nacional, transmitido pela Rede Globo, em 1968, com a canção “Andança”, tendo como parceiros nessa composição Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, lançando a cantora Beth Carvalho, contando com a participação do grupo vocal Golden Boys. 

No começo da década de 199, foi convidado pela TV Globo a escrever trilhas musicais para seriados e novelas, como “Riacho Doce”, “Teresa Batista”, “De Corpo e Alma” e “Mulheres de Areia”. Além de sua atuação no Brasil, já fez turnê pela Suécia, Finlândia e Rússia.

Atualmente, planeja turnê com orquestra junto ao maestro que trabalha com Bibi Ferreira para levar o espetáculo “Danilo Caymmi canta Tom Jobim” a todo o País. Danilo foi um dos convidados na apresentação do pianista biriguiense Eder Giaretta, no teatro do Sesc, no último dia 5. O projeto mescla padrões da escrita erudita, explorando a liberdade característica do jazz e da improvisação. 

Em entrevista à Folha da Região, Danilo falou um pouco sobre o início de sua carreira, a vida artística e suas influências. 

INÍCIO
Eu estava mais preocupado com os estudos da escola, fazendo curso científico. Então, estava mais preocupado com a prova de química do que com a gravação em si [gravação do disco “Caymmi Visita Tom”, de 1964, sua primeira experiência no mundo da música]. Foi uma experiência maravilhosa de conhecer ali o Tom Jobim, que foi fundamental na minha carreira. Depois, trabalhei durante 10 anos. Eu tinha 16 anos de idade. 

Eu estava falando com o (Roberto) Menescal e escolhi as músicas instrumentais que eu ia tocar, que foram “Berimbau”, de Baden Powel e Vinicius de Moraes, e “Vai de Vez”, do próprio Menescal. Ele, mais tarde, veio ser produtor do meu disco, o que é bacana. 
Nesse disco, trabalhei como flautista, depois me dediquei aos estudos e, mais tarde, tive aulas de flauta, daí, larguei um pouco a música e fui fazer arquitetura. 

PROFISSÃO
Mamãe queria que tivesse alguém formado na família, ou coisa assim, porque, na vida, o artista precisa prestar muita atenção ao que faz, nos passos que você dá. A previsão é de uma carreira longa, mas o sucesso é o lado mais frágil do artista. Você veja, hoje, a velocidade com que as pessoas terminam, não como elas começam. É meteórico e termina sem a pessoa estar preparada psicologicamente. Deprime ver jovens que começam a ganhar dinheiro muito rapidamente e, depois, perdem. 

O difícil dessa profissão é se manter. Você tem que se virar nos trinta. Tem que ser um bom administrador. Eu, por exemplo, gerencio os direitos autorais que herdamos do meu pai, os meus e os da minha filha, que está começando. Quando eu falo da família, falo de mim e da Nana. Nós temos uma empresa, que cuida disso. Então, as pessoas têm uma visão muito glamorosa do que seja a profissão de artista, e não é. 

É uma profissão de autônomo, e autônomo no Brasil é muito difícil de ser. O Tom (Jobim) falava uma coisa muito gozada da sogra dele, que era viúva de militar e tinha um dinheiro que ganhava todo mês por esse fato. Ele falava: “Eu gosto muito da Dorita, porque ela tem aquele certinho no final do mês”. Então, voltando ao que falei, é muito difícil se manter na profissão. 

EXCLUSIVIDADE
Quando fiz sucesso com “Andança”, eu estava na faculdade. Foi no ano de 1968. Foi um ano politicamente difícil no Brasil e a própria música fez tanto sucesso que não me deixou olhar para a arquitetura. Eu estava me formando. Uso elementos da arquitetura com a minha música. Nas composições que fiz para a minissérie “Riacho Doce”, usei elementos do minimalismo, coisas que aprendi dentro de história da arte na arquitetura e seus conceitos. 

Hoje eu passei isso para a minha filha Alice, que está começando a fazer sucesso. Tudo que ela faz agora é contextualizado. Então, sempre procurei esse contexto dentro do meu trabalho. Sempre estive muito preocupado com o sucesso e sempre passo para a geração de Caymmis que o sucesso é quando o artista está mais frágil, falam por ele e você não controla a coisa toda. 

CANTOR
Eu sou mais cantor, compositor e músico. Eu comecei como músico em 1973, com Edu Lobo. Se você pegar os discos importantes dos anos 1970, eu estava em muitos. O primeiro disco do Milton Nascimento, o primeiro disco do Fagner, enfim, em vários primeiros discos de gente muito importante, eu estava lá. Se for à ficha técnica, você vai me encontrar. 

Depois, fui contratado para a banda do Tom, que me descobriu como cantor. Eu tinha dois solos importantes, um deles eu devo fazer aqui que é “Samba do Avião” e “A felicidade”. Ele falava assim: “Danilo, canta essa aqui porque eu tenho a voz abafada ao alho”. Até hoje, eu não sei o que é isso, mas vamos lá.

Cantar é uma arte maravilhosa. Eu tive um disco que esteve em várias listas de melhores do ano, que foi o “Danilo Caymmi canta Tom Jobim” e fiquei muito feliz com isso, porque é um disco de interpretação. O que está se perdendo hoje é a interpretação. Essa coisa de interpretar e mergulhar na música, você tem que passar ela, mesmo que seja um funk. 

Você tem que ter um elemento para passar. Eu outro dia, vi uma cantora muito famosa trabalhando, mas o olhar dela não estava linkado com o povo, isso é ruim. Ela estava voltada para ela só. É bom você tem essa volta para você, de concentração, mas você tem que ter uma ligação com o público em algum momento. A história toda passou no show e ela não fez isso. A gente aprendeu isso principalmente com a minha mãe, que foi uma grande cantora e que influenciou até meu pai na arte de cantar. 

ATUALIDADE
O que tem que acompanhar não é uma coisa saudosista. Meu pai detestava quando se dizia “aquele tempo que era bom”. Você tem que acompanhar a evolução tecnológica, como as coisas evoluem. Hoje, a forma de compor é totalmente diferente de 10 anos atrás. Hoje, você vê o jeito que minha filha compõe, ou tem um DJ, ou outro em outra situação. Os lançamentos dos produtos são totalmente diferentes. Agora, estou fazendo musica com ela. Ela, que pilota e eu agrego com o que sei, mas é uma forma de compor diferente. E estou me adaptando a essa forma de compor. 

REFERÊNCIAS
Minhas referências diretas foram Tom Jobim e meu pai. Os compositores clássicos, aprendi em casa. Gosto do Erik Satie, Debussi e dos impressionistas franceses. Estudei no Conservatório Brasileiro de Música e dos Seminários de Música Pró-Arte com uma professora de flauta, Odette Dias, na parte técnica musical. Toquei flauta, como já falei, mas hoje toco mais ou menos. Tenho estilo próprio. O bacana é quando uma pessoa reconhece “esse é o Danilo que está tocando”, ai eu gosto. 

MÍDIA
No lançamento dos discos dos jovens, eles estão preocupados com o digital. Minha filha está lançando um disco agora e a maior preocupação é o clipe e o audiovisual. A mídia de televisão e outros não se importam muito para eles. O que eu vejo e as pessoas estão lançando no mercado digital, inclusive com a indústria. 

PAIS
Hoje, as pessoas querem saber quem é Dorival. Desconhecem Dorival, desconhecem Tom. Conhecem a gente, sabem que somos cantores, mas é uma memória curta. Isso é ruim. Eu sou, só para esclarecer ai, que caiu algo recentemente sobre Tom Jobim no Enem e as pessoas não sabiam. Isso é muito ruim.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.384325

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