Laura e Higor voltavam de uma sessão de fotos para o casamento quando viram a fumaça densa

'A gente não sabe o que sentir, o que pensar...'

Casal que perdeu tudo já recebeu doações das mais variadas

Um lar é mais do que um simples lugar para repousar a cabeça no final da noite. É um refúgio contra o mundo, uma fortaleza contra malfeitores e um lugar de comunhão com a família. Cada tijolo de cada casa tem uma história pra contar. Eles estão impregnados de um pouco de cada sentimento humano, afinal, é no lar que choramos e rimos longe dos olhos públicos. Nele, estão três dos quatro elementos básicos: o ar, que circula livremente; a terra, que molda os tijolos; e a água, que traz a vida. Mas é o quarto elemento, o fogo, que transforma tudo o que, um dia, foi chamado de lar em apenas um punhado de cinzas sem graça.

E foi o fogo, elemento que mudou a história da humanidade ao saber domá-lo, que queimou os sonhos e destruiu os planos do casal Laura Caroline Pontes Gonçalves, 33 anos, e Higor da Silva Pereira, 21 anos. Noivos e com casamento marcado para o próximo sábado, dia 23, eles guardavam os presentes e utensílios a serem usados em sua nova casa e dinheiro para a festa na casa dela. Mas a história mudou no último dia 8, quando um incêndio dizimou toda a residência.

Na casa, moravam a mãe e o irmão de Laura, além dela. “Eu, minha mãe e meu irmão morávamos aqui há uns 25 anos. É difícil ver a minha casa assim, irreconhecível. Ela reformou há pouco tempo a casa. Investiu mais de R$ 30 mil aqui na casa, tanto que tinha gente que não a reconheceu quando viu. Deixou do jeito que queria. E agora tudo se foi”, lamentou.

GALHOS
Na tarde daquela sexta-feira, fogo colocado em galhos em um muro ao lado da residência (os moradores não foram responsáveis pelo incêndio) fez com que as chamas se espalhassem e queimassem totalmente o imóvel, no bairro Jandaia, em Birigui, e outras duas casas. Os bombeiros foram chamados, mas, quando chegaram, pouco puderam fazer.

“Algumas coisas nossas estavam aqui, enquanto outras estavam na minha casa. A gente estava tirando as fotos do casamento e, quando chegamos em Birigui, vimos uma fumaça densa bem longe. Quando chegamos mais perto, o telefone tocou e o irmão dela avisou que a casa estava pegando fogo. Viemos correndo e estavam a mãe e o irmão dela aqui na frente. Já tinha pegado fogo na casa do fundo e estava se espalhando para cá. Tentaram apagar o fogo usando panelas e baldes, mas não deu tempo. Até os bombeiros chegarem, tudo se queimou”, relembrou Higor.

“Não deu tempo de pensar nada. É desesperador! A gente chegava, olhava pra dentro da casa e não via nada além de chamas. É angustiante ver tudo queimando, ver a vida delas todas aqui dentro e não poder fazer nada pra impedir. Ver tudo virar cinzas. Até agora, a gente não sabe o que sentir, o que pensar...”

Na residência, estavam eletrodomésticos, jogos de prato, enxoval, utensílios de cozinha e várias outras itens que foram dados de presente para o casal. Além disso, cerca de R$ 4,5 mil em dinheiro também viraram cinzas, bem como várias roupas, que eram alugadas pela mãe de Laura.

SEM LAR
Agora, sem ter onde ficar, Laura está dependendo da ajuda de amigos, que abriram as portas para ela e o irmão dormirem, até que a casa seja reconstruída. “Estamos ficando na casa de uma conhecida, que abriu as portas e nos recebeu”, contou. No entanto, diante do baque emocional e prejuízo financeiro, o casamento teve que ser adiado.

Porém, amigos de Laura iniciaram uma campanha na internet para arrecadar móveis, alimentos e até material de construção. Postagens feitas pela educadora Camila da Silveira Bracioli, que trabalha com Laura, e pela mãe dela, Nilvete Aparecida da Silveira Bracioli, viralizaram pelas redes sociais, causando uma avalanche de doações.

“A ajuda que estão nos dando é surpreendente. A proporção que isso tudo tomou nos alegra muito. Vemos muita gente participando e ajudando. Ficamos felizes e muito gratos de receber essa ajuda. Esperamos um dia retribuir de alguma forma essa ajuda. Agora, fica uma lição de vida. Tentar tirar dessa tragédia algo de bom.”

“Há pessoas que doaram sacos de cimento, blocos, areia. Uma loja nos ligou, dizendo que traria uma janela e uma porta. Muita gente ajudando. Não sei nem explicar essa repercussão e essa ajuda. Não só material. Tem uma moça que fala sempre comigo, fala que não tem como ajudar com bens materiais, me ajuda emocionalmente. Tem gente que ofereceu refeições e até mesmo um abraço. Não sabemos nem o que fazer pra retribuir depois. É uma gratidão que vai ficar pra sempre gravada em nossa vida”, completou Laura.

SAÚDE
Por ter inalado muita fumaça no dia do incêndio, a mãe de Laura precisou ser internada por complicações no pulmão. Até a tarde de quinta-feira, quando foi feita a entrevista, ela permanecia internada na Santa Casa de Birigui, onde está em observação médica e tratamento pulmonar.


Ajuda não para de chegar
após tragédia do último dia 8

O volume de doações é grande. E as circunstâncias que rondam cada uma delas tornam mais interessante ainda o ato de se desprender de um bem para ajudar outra pessoa. Segundo Camila da Silveira Bracioli, algumas histórias foram marcantes na primeira semana após a tragédia. 

O grande destaque foi uma moradora do bairro Portal da Pérola 2, que teve sua casa incendiada. “Ela entrou em contato comigo e doou um rack para a sala deles. Ela me contou que, no ano passado, a casa dela também tinha pegado fogo e ela tinha perdido tudo. Então decidiu doar porque sabe como é difícil reconstruir a vida após uma tragédia”, relembrou.

Ao saberem que o casamento seria cancelado por causa de objetos e roupas que se perderam no incêndio, várias pessoas se mobilizaram. “Muita gente disponibilizou vestidos de noiva, para que ela pudesse usar no casamento, bem como sapatos também. Uma cabeleireira ainda cedeu um dia de noiva para ela e para mãe dela”, completou Camila.

“Outro caso interessante foi de uma farmacêutica que me chamou, fez uma compra grande de mantimentos e me entregou. E eram todos produtos de primeira qualidade. Eu entreguei tudo para a Laura, que ficou feliz com a atitude.”

RECONSTRUÇÃO
A reportagem apurou que um grupo de amigos já se disponibilizou para fazer a remoção dos entulhos e demolição do restante da casa. Ainda foi conseguido a terraplanagem, as máquinas, combustível e o projeto para a nova casa. 

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