Marilda, a imagem de Jesus e a prima Suê Ura, a quem passou a considerar um 'braço direito'

10 anos após acidente, Marilda conta como superou 4 perdas

Dona Marilda, de Birigui, conta como superou quatro perdas

Marilda Ura, de 64 anos de idade, reside em Birigui e tinha tudo para desistir de viver e repudiar qualquer forma de consolo. De forma imediata, ela perdeu os dois filhos, a neta e o genro. Todos foram vítimas do acidente do voo 3054, operado pela TAM Linhas Aéreas, ocorrido no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e que resultou na morte de 199 pessoas. A tragédia, considerada a maior da aviação na história do Brasil, completa dez anos amanhã. No entanto, o que se vê em dona Marida é uma mulher que, apesar da saudade, conseguiu superar a perda dos parentes e, hoje, sente alegria e prazer na vida. 

Na tarde da última quinta-feira, ela recebeu a Folha da Região em sua casa, no Jardim Bela Vista. Na sala, diversas fotos dos filhos Melissa Ura Doná de Andrade, de 30 anos, André Ura Doná, 25, da neta Alanis Ura Doná de Andrade, 2, e do genro Márcio Rogério de Andrade, 35, estão espalhadas na raque. Durante a conversa, Marilda contou que, durante todo este tempo, vem vencendo barreiras e superando as perdas e saudades.

“Éramos muito unidos e uma grande família que me foi dada por Deus”, disse. Sobre o genro, ela foi categórica em dizer que se tratava de outro “filho” recebido de Deus. “O Márcio passou a tomar conta da família e era um conselheiro para o André”, lembrou. Marilda, que trabalhava em uma empresa do ramo alimentício no Japão na época do acidente, contou que estava saindo para o trabalho, quando um amigo perguntou se ela tinha visto o noticiário na televisão a respeito do acidente.

“Eu sabia que eles estavam naquele voo, mas custei a acreditar no que havia ocorrido. Fui para o trabalho e, durante o expediente, liguei para meus familiares em Birigui, quando, de fato, tive a pior notícia que uma mãe poderia receber. Naquele momento, eu morri com eles, mas não culpei Deus pela tragédia. Pelo contrário, ergui as mãos para o alto e pedi sua força”, destacou. Assim que falou com os familiares, Marilda pegou o primeiro voo para o Brasil, porém, a viagem, que parecia não ter fim, teve ainda de ser desviada para o Chile devido à pane no Cindacta 4.

ROTINA
A partir de 17 de julho de 2007, a rotina dela mudou. “Fiquei quatro meses sem me alimentar, apenas tomando água. Não tinha mais vontade de viver e a única coisa que eu pedia para Deus é que ele me desse força para superar. Por oito anos, não saía de casa”, lembrou. 
Para amenizar a perda, ela revelou inúmeras fotos dos familiares e as expôs em toda parte da casa, especialmente aquelas que estão na raque da sala.

O crochê, a terapia e a escrita também foram fatores fundamentais para ajudar na superação. “A força que eu tenho vem de Deus para caminhar entre as centenas de folhas secas que o vento levou para novos rumos. Minha fé é muito grande”, relatou, erguendo os braços em direção a um quadro de Jesus Cristo, pregado na parede da sala. Outra ajuda que ela teve foi da prima de primeiro grau Suê Ura, que se tornou o ‘braço direito’ dela. 

HOMENAGEM
O que, antes, era motivo de tristeza, hoje, segundo Marilda, tornou-se esperança em reencontrar os familiares. “A nossa vida é um ciclo: nascer, crescer e ir. Assim somos nós, sem revolta e questionamento, evoluindo nosso espírito nessa passagem aqui na Terra”, finalizou. Marilda participou ontem de uma cerimônia religiosa e de atividades realizadas na Praça Memorial 17 de Julho, ao lado do aeroporto e feita em homenagem às vítimas.


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