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Cidades


COLUNA DO EDITOR

Corvos e a imprensa

 

Wilson Marini
Quarta-feira - 05/06/2002 - 11h29

Araçatuba - Dentro de algumas semanas começará a funcionar experimentalmente o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), que cobrirá com radares metade do território brasileiro. Quando o projeto foi questionado e recebeu críticas, no seu primeiro mandato, FHC saiu-se com esta: "Vamos evitar que esse espírito de corvo volte a pousar no País, de ver podridão em tudo". Foi logo depois que a revista IstoÉ publicou trechos fulminantes de conversas telefônicas gravadas pela Polícia Federal na casa do então chefe do Cerimonial, demitido em função do escândalo.

Ao mencionar os corvos, FHC disse depois estar fazendo menção ao poeta Edgar Allan Poe (1809-1849), autor de O Corvo, publicado em 1845 pelo jornal Evening Mirror, de Nova York. No texto, o corvo, uma espécie de mensageiro da fatalidade, responde a todas as perguntas com a expressão "nunca mais".

A frase de FHC rendeu. Houve quem sustentasse que o presidente quis se referir a Carlos Lacerda, conhecido como "Corvo" depois que teve uma charge publicada pelo jornal Última Hora. Outros especularam que FHC havia feito referência ao poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914), autor do verso: "Ah! Um urubu pousou na minha sorte!". A revista Veja dedicou uma capa ao assunto: "O Corvo é Graziano" (Francisco Graziano, assessor do presidente, também afastado).

O corvo é um pássaro negro semelhante à gralha e come de tudo. Confunde-se ao urubu, ave que se nutre de carne em decomposição e que por isso leva a fama de portadora de mau agouro. Machado de Assis refere-se ao urubu como sinônimo de agente funerário: "Prometo escrever a favor dos relojoeiros, dos salsicheiros, dos serralheiros, dos urubus".

Por tudo isso, políticos insatisfeitos com o tratamento que recebem às vezes costumam se referir dessa maneira preconceituosa quando colocados em xeque em suas idéias e atitudes.

No caso do Sivam, a imprensa apenas cumpriu o seu papel ao expor a podridão revelada com a espionagem no Palácio do Planalto. Como fez Noé que, segundo Gênesis, após os 40 dias de dilúvio, abriu a janela da arca e soltou o corvo, para testemunhar as águas secarem sobre a terra. O pássaro foi e voltou com a boa notícia. Se fosse um repórter multimídia, teria feito o texto, a fotografia e um filme para a Internet. O corvo de Noé é o primeiro repórter de que se tem conhecimento.

 

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