
Araçatuba - O catador José Carlos Domingos Júnior encontrou, há alguns dias, um ventilador de chão enquanto trabalhava na rua recolhendo materiais para serem reciclados na Acrepom (Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Outros Materiais Recicláveis de Araçatuba). Ele testou o aparelho e verificou que ainda funcionava.
O objeto descartado no lixo, e que supostamente não teria mais utilidade, hoje serve para refrescar os dias quentes na casa do catador. O ventilador se juntará aos outros móveis e eletrodomésticos de sua residência, sendo que parte deles também foi encontrada ou doada.
Domingo Júnior não é o único colaborador da associação a utilizar objetos encontrados na rua para mobiliar a casa. Os outros dez catadores da Acrepom conseguem diariamente um pouco mais de conforto em seus lares com móveis, eletrodomésticos e materiais eletrônicos que encontram nas ruas de Araçatuba ou que são doados pelos próprios moradores, após substituírem os antigos por outros mais modernos.
Com medo do preconceito por seu trabalho, os catadores preferem ficar no anonimato, mas afirmam que encontram televisores, sofás, geladeiras, liquidificadores, aparelhos celulares, discmans, MP3, armários, entre outros.
REPAROS
Conforme relata a recepcionista da associação, Crislaine Aparecida Marques, alguns aparelhos precisam de reparos, mas a maioria está em bom estado de conservação, sendo desnecessário o conserto.
A própria sede da Acrepom foi beneficiada com móveis e aparelhos eletrônicos usados. A sala de espera possui sofás, televisor, aparelho de som e ventilador que foram encontrados no lixo ou doados diretamente por famílias araçatubenses.
"Existe uma tendência de consumo muito acelerada. A pessoa tem um televisor de 29 polegadas em perfeito estado, mas porque saiu um de plasma, ela sente-se na obrigação de substituir o antigo pelo moderno. O indivíduo deve se questionar se realmente precisa deste produto, se ele é fundamental. O efeito de qualidade visual prometida pelo novo é tão importante ao ponto de gerar 20 quilos de lixo?", questiona o engenheiro ambiental Carlos Arantes. Para ele, este tipo de consumismo é negativo e favorece o aumento do lixo nas áreas urbanas.
DESPERDÍCIO
O problema dos eletrônicos também se repete com alimentos. O Instituto Akatu, que tem o consumo consciente como principal causa, estima, com bases em pesquisas produzidas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), que 1/3 (um terço) de todos os alimentos que são comprados, em especial as frutas, legumes e verduras, terminam no lixo. Dessa forma, uma família que gasta mensalmente R$ 200 com alimentação, perde R$ 66 com produtos que se estragam por terem sido comprados em quantidade superior ao necessário para o consumo real de seus moradores.
Seguindo o cálculo, o valor "jogado no lixo" com alimentação chega a R$ 800 por ano, e atinge R$ 4 mil em um período de cinco anos.
FOME
A gerente de operações do Akatu, Heloísa Torres de Mello, conta que o Brasil tem atualmente 14 milhões de pessoas que passam fome, e que para sanar este problema seria necessário o investimento de R$ 12 bilhões por ano.
Este valor poderia cair se alguns hábitos fossem mudados. "Consumimos um terço a mais do que o planeta consegue produzir; estamos no cheque especial com o planeta. Precisamos repensar nossos costumes de compra", explica Heloísa, dizendo que não é necessário que as pessoas comprem menos, mas que comprem consciente.
QUILO
"O erro no Brasil é que o padrão de compra do brasileiro é baseado no quilo. Um casal que compra uma melancia inteira dificilmente conseguirá consumi-la por completo, e mais da metade do produto irá para o lixo", explica Arantes.
Ele destaca ainda que falta a consciência das pessoas em entender que muitos indivíduos no mundo não têm recursos para comprar um simples tomate, e que ações como essas geram as desigualdades.
Araçatubenses são responsáveis pelo despejo de 144 toneladas
Por meio do lixo, é possível entender os hábitos de vida de uma pessoa, revelar as desigualdades de uma sociedade e, até mesmo, mensurar o impacto de uma crise econômica. Se as perspectivas do cenário econômico estiverem certas, este será um dos primeiros anos a apresentar queda na produção urbana do lixo, efeito contrário ao que aconteceu nos últimos seis anos, quando Araçatuba teve um acumulado de 15 pontos percentuais a mais na produção.
Todos os dias, os araçatubenses são responsáveis pelo despejo de 144 toneladas de resíduos. Um único morador é capaz de produzir até cinco quilos de lixo por semana, nível que está dentro do índice nacional, segundo a associação civil "Ajuda Brasil". Um aumento substancial é percebido principalmente nos período de chuvas, quando o consumo aumenta, seguido por uma queda nos meses quentes, como julho.
A taxa de produção de lixo acompanhou o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de Araçatuba na razão de de um para cinco, de 2003 a 2006, último ano que o cálculo da riqueza acumulada da cidade foi realizado. Isso significa que, para cada cinco pontos percentuais acrescidos positivamente na balança da cidade, um foi somado à produção de lixo.
Fernando Dib Daud, sócio e responsável técnico da empresa Monte Azul Ferraz, que coleta o lixo domiciliar de Araçatuba, prevê que se o cenário econômico deste ano se mantiver desfavorável, e a crise financeira atingir Araçatuba, a produção de lixo deverá cair.
Em 2008, ocorreu uma situação atípica na cidade. Após três anos de crescimento progressivo, a produção de lixo recuou, mantendo-se maior em apenas 1,65% em comparação a 2007. A Monte Azul ainda não fechou o balancete de janeiro, mas acredita na possibilidade de queda devido ao cenário econômico.
Sacolas com detritos revelam infraestrutura do município
O lixo também indica as características da região onde os resíduos foram coletados. Em bairros que ainda não foram asfaltados, as sacolas que chegam ao aterro sanitário de Araçatuba carregam bastante terra vermelha, que remetem à difícil tarefa da dona de casa em manter sua residência limpa em pontos sem a pavimentação.
Nas localidades mais arborizadas, os sacos apresentam maior abundância de folhas. A diferença também pode ser notada nas embalagens de produtos mais caros para as regiões com nível econômico maior, e de pacotes típicos da cesta básica, oriundos da região periférica do município.
RIQUEZA
"A quantidade de lixo produzida por uma pessoa está diretamente ligada ao padrão de riqueza", afirma Daud. Para ele, a reversão deste cenário seria possível se fossem tomadas duas medidas: educação ambiental e cobrança fiscal proporcional à quantidade de lixo por morador.
A educação ocorreria à medida que todos separassem o lixo reciclável do orgânico. Além disso, o pagamento do lixo não se restringiria apenas aos serviços agregados de coleta, transporte e reciclagem, mas também da quantidade de lixo per capita produzida por morador.
DESTINO
Uma ação simples sugerida por Daud se refere ao destino dado às caixas de leite jogadas diariamente no lixo. Ele sugere que o morador que tiver o interesse de utilizá-las para encaminhar correspondências pelo serviço de Sedex, pode fazer isso sem qualquer impedimento.
Em nota, os Correios confirmaram que a caixa de leite pode ser usada como invólucro de encomenda, desde que a embalagem seja feita de modo a evitar que o conteúdo possa sofrer avaria. Cartas não podem ser postadas nesta embalagem. S.T.
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