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Araçatuba, terça-feira, 12 de março de 2002


Vida

LINGüíSTICA
Uma praga chamada gerundismo

Natália Andreotti
Ilustração de Gilmar Lourenço sobre a pintura "O Grito" de Edvard Munch

Ao recorrer a qualquer serviço telefônico, é comum ouvir de quem atende frases do tipo "vou estar anotando seu pedido" ou "estaremos providenciando seu cartão". Elas são características de um fenômeno da língua que toma proporções cada vez maiores: o gerundismo.
Do ponto de vista gramatical, construções com excesso de gerúndio não são erradas mas, sob o ângulo da língua culta, são inadequadas. Segundo a professora de lingüística Roseli Imbernom do Nascimento, das Faculdades Integradas Toledo, esse tipo de construção contraria uma das leis da linguagem, a da economia de termos usados, ou seja: apenas um verbo é sempre melhor do que dois. "Imagine se este tipo de construção se disseminar pela língua escrita, será um desastre", adverte.
Segundo Roseli, a discussão em torno do gerundismo é grande, mas ainda é impossível detectar com certeza sua origem. "Percebemos que o fenômeno predomina no estado de São Paulo, como uma tentativa de esclarecer uma idéia mas, na verdade, é uma escolha infeliz de quem fala", diz. A "praga" do gerundismo se espalha tão rápido que virou até mesmo tema de um manifesto bem-humorado, redigido pelo publicitário Ricardo Freire. (confira nesta página).
De acordo com o professor de língua portuguesa Marco Antônio Santana, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), uma das prováveis origens desse tipo de construção são traduções mal-feitas e literais do inglês — idioma em que é comum frases como "I will be sending" (literalmente, eu vou estar enviando) e "I will be doing" (eu vou estar fazendo). "Este tipo de construção também pode ser mais um indício do monópolio norte-americano na língua portuguesa", diz.
Outra constatação dos professores é que o gerundismo é bastante comum entre operadoras de telemarketing, secretárias e telefonistas em geral. "Acredito que isso acontece porque esses profissionais passam por um treinamento padronizado. Eles pensam que o gerúndio dá a impressão de educação, mas na verdade é uma cortesia irritante, pois a fala deixa de ser natural", ressalta Santana.
Roseli destaca que o excesso de gerúndio não soa bem aos ouvidos, além de ser cansativo e passar a impressão de algo programado. Para Santana, quem se utiliza deste "falso eruditismo" é um grupo de pessoas mal-informadas.
Apesar do gerundismo ser constatado, principalmente, nas falas dos profissionais citados acima, Roseli diz que ele já está se espalhando entre outras profissões, inclusive entre professores. "Eles querem imprimir um tom culto à linguagem e, como conseqüência, os alunos acabam utilizando o gerúndio, achando que é adequado".

EVOLUÇÃO — Roseli destaca que a língua portuguesa está em constante evolução. Tanto é que o português falado no Brasil está cada vez mais distante da língua falada em Portugal. "A transformação e evolução da língua é importante e inevitável. A fala muda constantemente a escrita, mas não podemos aceitar esta evolução através de algo pernicioso como o gerundismo", diz.
De acordo com a professora, é impossível falar que este tipo de construção garante a liberdade lingüística porque, na verdade, ela se cristaliza na memória de quem fala, esgotando seu repertório. "O gerundismo massifica e aliena ao invés de libertar", aponta.
Roseli ressalta que o excesso de gerúndio pode ser classificado como uma hipercorreção (preocupação em falar bem, que redunda em erro), assim como outras expressões que empobrecem cada vez mais a língua portuguesa, como "com certeza", "tipo assim" e "a nível de".



Mais informações

Manifesto antigerundismo