Wilson Marini é editor-executivo da APJ (Associação Paulista de Jornais)

Sítios geológicos em SP: preservar é preciso

 Um grupo de especialistas de universidades, institutos de pesquisa e empresas criou uma lista de 142 sítios geológicos em 81 municípios paulistas, para incentivar a sua preservação. Os geossítios constituem lugares cientificamente relevantes, segundo publicação da revista Pesquisa, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em texto de Carlos Fioravanti intitulado “Patrimônio de bilhões de anos”. A geóloga Maria da Glória Motta Garcia, professora do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), responsável pelo trabalho, diz que os locais, que foram descritos em artigo publicado em janeiro deste ano pela revista científica Geoheritage, devem ser conservados pelos órgãos responsáveis de modo a preservar a história geológica do Estado. Na Europa, inventários desse tipo fundamentaram a criação ou adequação de leis para a proteção do patrimônio geológico, afirma. 

Preciosidade no Interior
Não é a primeira vez que é feito esse tipo de levantamento no Brasil. Com o mesmo propósito, a Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos apresentou em 2012 um estudo nacional, com 116 sítios de relevância geológica, dos quais 16 em São Paulo. Sete geossítios foram reconhecidos pelo governo do Estado de São Paulo como monumentos geológicos do Estado e estão abertos à visitação. Rochas com sinais de geleiras de 260 milhões de anos, por exemplo, estão conservadas em dois parques nos municípios vizinhos de Salto e Itu, próximos a Sorocaba. 

Icnofósseis
Áreas bastante vulneráveis, como as rochas com pegadas fósseis em Rosana, no Pontal do Paranapanema, correm o risco de ser decompostas em razão da variação do nível da água por causa da operação da Usina de Porto Primavera. Os icnofósseis de Porto Primavera estão em antigos depósitos de areia, no interior de um grande deserto que existiu ali entre 90 milhões e 65 milhões de anos, atesta o geólogo Luiz Fernandes, professor da Universidade Federal do Paraná.

Estruturas sedimentares
Há 260 milhões de anos, no período Permiano médio, boa parte do Estado de São Paulo era coberta pelas águas do mar Irati. Uma das evidências mais fascinantes desse antigo mundo marinho está em Santa Rosa do Viterbo, na região de Ribeirão Preto, segundo conta Peter Moon, também da revista Pesquisa. O trabalho de extração em uma mina de calcário revelou a existência de diversos estromatólitos gigantes, estruturas sedimentares formadas pela atividade de microalgas em águas rasas. Estromatólitos estão presentes em todo o mundo, mas quase sempre são pequenos. Em Santa Rosa do Viterbo, porém, há um excepcional campo de estromatólitos gigantes, com até 3 metros de altura. O local é único no planeta e um dos 142 geossítios selecionados para compor o Patrimônio Geológico do Estado de São Paulo.

Recado aos municípios
O geógrafo Rogério Rodrigues, diretor técnico do Núcleo de Monumentos Geológicos do Instituto Geológico de São Paulo, recomenda às equipes das prefeituras e os proprietários das áreas com sítios geológicos que primeiramente devem adotar medidas de segurança e conservação, instalando cercas, portarias e infraestrutura para visitantes, antes de explorar o potencial turístico dos lugares. 

Falta legislação
No Brasil, falta uma legislação específica para a preservação dos patrimônios geológico e da geodiversidade, afirma o geólogo Gustavo Beuttenmuller, da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente da capital. Mesmo assim, há avanços. O geólogo Oswaldo Landgraf Júnior, do mesmo órgão, diz que a prefeitura prevê a expansão do parque municipal cratera de Colônia, no bairro de Parelheiros, na capital, criado em 2007, para proteger as encostas e o interior de uma concavidade criada pelo impacto de um corpo celeste há cerca de 35 milhões de anos. 

Turismo
Entre os 142 geossítios selecionados há locais importantes também do ponto de vista turístico. Um deles é a Caverna do Diabo, a maior gruta do Estado de São Paulo, no Parque Estadual de Jacupiranga, município de Eldorado, no sul do Estado. Há também a Caverna Santana, no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), uma das mais significativas do Brasil devido seus estalagmites, estalactites e formações rochosas. Outro geossítio de importância geomorfológica e turística é o Pico do Itapeva, de 2.025 metros de altura, na divisa entre Pindamonhangaba e Campos do Jordão. A montanha, na Serra da Mantiqueira, é formada por granitos muito antigos, pré-cambrianos, com mais de 550 milhões de anos. Do seu cume avista-se o Vale do Paraíba e, ao fundo, a Serra do Mar.

No Vale
No período Oligoceno, todo o Vale do Paraíba era coberto pelo lago Tremembé, que tem este nome por causa dos terrenos que o formam, pertencentes à formação geológica Tremembé. Trata-se do mais importante sítio fossilífero do período Paleógeno, entre 66 e 23 milhões de anos. Foi ali que foram descobertos fósseis de uma ave predadora do paleolago há 22 milhões de anos. 

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