'Enquanto houver a miséria, o tráfico contará com as mulas'

Roberto Alexandre (textos) - Valdivo Pereira (fotos) - Enviados especiais


O juiz de Direito José Berlange Andrade em meio a processos de apreensão de drogas e prisão em flagrante das chamadas mulas do tráfico, que transportam cocaína no estômago
O juiz de Direito José Berlange Andrade, 52 anos, acredita que o narcotráfico está diretamente relacionado com a miséria da população. Ele atua há quatro anos na comarca de Terenos, cidade sul-mato-grossense onde tramita o maior volume proporcional de processos de apreensão de drogas e prisão em flagrante das chamadas "mulas do tráfico" (homens que transportam drogas no corpo), em virtude da ação do posto da Polícia Rodoviária Federal localizado na BR-262, rodovia que liga Corumbá a Campo Grande.

De acordo com o juiz, a partir de dezembro de 2004 houve aumento no número de prisões de pessoas com drogas no corpo. Ele acredita que isso ocorreu com a entrada em vigor da Lei do Abate, aquela que autoriza a Aeronáutica brasileira a abater aviões clandestinos, geralmente utilizados por traficantes para o transporte de grandes quantidades de drogas para dentro do país. Segundo Berlange, a saída encontrada pelos traficantes foi fomentar o transporte de drogas via terrestre. Para isso, houve, conforme o magistrado, aumento na atividade desenvolvida por mulas. "Se não tem jeito de ir pelo ar, o tráfico é feito pelo chão", afirma.

Conforme análise do juiz, geralmente as pessoas que atuam como mulas têm o mesmo perfil social. "São pessoas desempregadas e desesperadas, com dívidas acumuladas e problemas de doença na família, que por razão das mazelas vividas no dia-a-dia, são facilmente aliciadas pelos traficantes". Confira trecho da entrevista.

Folha da Região - Porque aumentou o número de prisões das mulas na região?
José Berlange Andrade - Nós tínhamos um comportamento mais ou menos estável de prisões de mulas e apreensões de drogas no posto rodoviário de Terenos, que é um posto estratégico porque representa a entrada para Campo Grande, e o transporte da droga na rota que pega Santa Cruz de la Sierra a São Paulo via terrestre. Os processos (depoimentos de testemunhas, interrogatório dos réus) revelam que antigamente a maior parte da droga que era apreendida dentro dos ônibus, tinha o comércio interno nos presídios. Hoje, isso é diferente. A droga é transportada e chega à mão dos traficantes para revenda em várias cidades paulistas. Em janeiro, quando a lei do abate entrou em vigor, houve um aumento vertical e bruto de pessoas presas e de quantidade de droga apreendida. Os traficantes trocaram o ar pela terra e estão usando as mulas para o transporte.

Qual o perfil dessas mulas?
São pessoas desempregadas, passando por dificuldades financeiras, com um membro da família doente. A gente detectou também nesses interrogatórios que o narcotráfico avançou, ao usar técnicas de mercado, se adaptando, pois esse transporte é um fenômeno mercadológico. Trata-se de produção, transporte, armazenamento, distribuição e consumo. Eles usam de todos os recursos que o mercado usa para colocar seu produto na rua. Fazem até pesquisa. Apuramos que os traficantes chegam ao ponto de contratar pessoas para percorrer os bairros da periferia de Corumbá, de Campo Grande, e entrevistar moradores para detectar as mulheres descasadas que têm filhos e estão passando por dificuldade. Esse é o perfil ideal para que eles façam o aliciamento da mula.

Então, as mulheres são aliciadas mais facilmente?
Nós temos três tipos de mulas. Primeiro são as mulheres (descasadas, mães, desempregadas), em dificuldades financeiras, muitas vezes com ficha limpa na polícia. Essas pessoas são enganadas porque estão desesperadas e acham que nunca vai acontecer nada de errado. O segundo tipo de mula são os homens, subdivididos em dois tipos: o brasileiro (minoria), pessoa que usa droga e transporta pelo vício ou por ter dívida com o crime organizado. E os adolescentes, aliciados por não sofrerem as penas previstas no Código Penal. Até o advento da Lei do Abate, não tinha muito adolescente no ramo.

Existem muitos casos aqui envolvendo pessoas da região de Araçatuba?

Sim. Araçatuba e Presidente Prudente são dois clientes fortes do tráfico nessa rota Corumbá-São Paulo. Muitas pessoas presas aqui em Terenos tinham como destino Araçatuba. Outras pessoas, mas em menor escala, tinham como destino a capital paulista.

O que mais impressionou o senhor até agora?
Quando você lida muito com uma coisa, ocorre a banalização. Você acaba criando uma casca e cada vez mais vai perdendo sensibilidade ao fenômeno. Toda profissão cria um perfil do operador dela, e aqui também a gente sofre influência por lidar todo dia com o tráfico de drogas. Mas fico preocupado, triste quando percebo que a mula é uma pessoa doente, por exemplo. Isso é doloroso. Quando ela vem parar aqui, tem câncer e fez o serviço para conseguir dinheiro para se medicar, é muito triste. É doloroso também quando vemos um jovem de 20 e poucos anos, cursando universidade, traficar droga para pagar dívidas. Dói todas as vezes que a gente sente que a pessoa entra nessa empurrado por uma necessidade que poderia ser suprida se os países sul-americanos não tivessem uma economia tão perversa do ponto de vista da distribuição de renda.

As mulas são presas diariamente. Por que é difícil chegar ao grande traficante?

Primeiro porque a mula é usada como um animal. O que define um ser humano é a capacidade que ele tem de perceber e de decidir. Só percebendo ele pode raciocinar, fazer julgamento pró ou contra, e só fazendo um bom julgamento você pode decidir. Então perceber, raciocinar e decidir é o que diferencia os homens dos outros animais. A mula não é tratada como um ser humano, é tratada como mula mesmo, como um animal, que não percebe, não pensa, não decide, não enxerga. Ela recebe uma instrução: você vai descer em tal lugar e vai ter uma pessoa que vai te reconhecer pela tua roupa, e quando você chegar lá, vai receber o dinheiro. Ela é animalizada. Nós nunca vamos ter um combate efetivo contra o crime organizado enquanto estivermos atirando nesses bonecos. São bonecos porque a fábrica cada vez enriquece mais e cada vez produz mais bonecos.

A prisão das mulas então não muda nada?
Enquanto estivermos nessa estratégia de prender mulas, nós nunca vamos combater o crime organizado, porque ele sempre vai avançar, e sempre haverá mulas, enquanto houver miséria.

O que é necessário?
O crime organizado é difícil de se combater, porque essas organizações são invisíveis, secretas e clandestinas. É difícil identificar quem é que exerce qual papel. E há um código de honra entre eles, no qual a pessoa que é presa não pode dar informações sobre o elo que o conecta com os outros. A revelação para eles é pena de morte. Eu entendo que só vai ser possível desmontar essas organizações quando nós, o Estado, a sociedade, investirmos para equipar os órgãos de prevenção e repressão de uma tecnologia avançada que possibilite enxergar o que está por trás da cortina da clandestinidade.

De dentro das penitenciárias, ordem para transportar droga
As muralhas de sete metros de altura, os bloqueadores de telefone celular e o rigor da disciplina aplicado dentro do sistema penitenciário não são suficientes para impedir o comando do tráfico de drogas de dentro dos presídios de segurança máxima. Escutas telefônicas feitas pela polícia revelam que a ordem para a compra de boa parte da cocaína que chega à região de Araçatuba é dada dos presídios instalados na região Noroeste do estado. As unidades de Valparaíso, Lavínia e Mirandópolis concentram o maior número de presidiários que, do lado de dentro, comandam o tráfico realizado do lado de fora.

Em interceptações telefônicas feitas em fevereiro e março deste ano, a polícia descobriu que um detento negociou a compra de pasta base de cocaína com traficantes de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. As ligações foram feitas de dentro de uma penitenciária da região de Araçatuba. Durante as ligações o preso ordenou a compra de quase dois quilos da droga e determinou que o carregamento fosse transportado no corpo de pessoas em pelo menos quatro viagens. Todas as mulas foram presas. O detento, cujo nome não foi revelado, e que fora condenado por tráfico de drogas, está sob investigação.

A própria Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo admite que o bloqueador de telefone celular, dispositivo instalado em penitenciárias para impedir a comunicação telefônica dentro das unidades, ainda não funciona adequadamente. O bloqueador de celular é instalado nas torres dos presídios, de onde emite sinais com a mesma freqüência de celulares, impedindo a ligação. Muitos aparelhos estão passando por revisão porque não conseguem bloquear todas as freqüências de transmissão.

A colocação dos bloqueadores foi decidida há mais de três anos após a descoberta de centrais telefônicas, a maioria da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que permitiam a comunicação simultânea entre detentos de diferentes presídios. A região de Araçatuba tem hoje dez unidades prisionais, entre elas penitenciárias e centros de ressocialização, e ainda assim o número de vagas é insuficiente para os presos instalados na área. De acordo com dados da Secretaria de Administração Penitenciária, os presídios da região têm capacidade para abrigar juntos 6.180 detentos, mas atualmente comportam pouco mais de 8 mil presos.

Polícia apreendeu quase 900 cápsulas de cocaína em 2004
As polícias civil, federal e rodoviária apreenderam quase 900 cápsulas de pasta base de cocaína durante todo o ano passado na região de Araçatuba. Nesse período, cerca de 30 pessoas foram presas por tráfico de drogas. Grande parte das apreensões foi feita em ônibus que chegaram à região pela rodovia Marechal Rondon (SP-300), uma das principais vias terrestres de entrada de droga do Mato Grosso do Sul para as regiões de Andradina, Araçatuba e Bauru.

A maior apreensão de cápsulas de cocaína ingeridas por uma única pessoa aconteceu em novembro de 2004, em Penápolis. Policiais da Dise (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes) de Araçatuba prenderam um homem que havia engolido 125 porções, o que totalizou quase 1,3 quilo da droga. Reiner Martins Fagundes, 32 anos, de Uberlândia (MG) havia trazido o entorpecente da Bolívia e foi surpreendido quando expelia as cápsulas em um hotel no centro de Penápolis.

De acordo com a polícia, atualmente o transporte de cápsulas no estômago é uma das modalidades mais utilizadas por traficantes para trazer cocaína da Bolívia para a região. Muitos criminosos preferem adotar esse tipo de expediente por ter um custo operacional relativamente barato e por oferecer pouco perigo para o verdadeiro dono da droga. De acordo com a polícia, dessa forma o traficante não se expõe e também não tem grande prejuízo de uma só vez quando ocorre a prisão da chamada mula, que consegue transportar em média de 60 a 80 porções de 10 gramas a cada viagem.

Segundo a polícia, cerca de 80% da cocaína consumida em Araçatuba e cidades vizinhas chega à região na barriga de mulas. As primeiras cápsulas de cocaína foram apreendidas na região de Araçatuba há 13 anos. Estima-se que, hoje, a polícia só consiga apreender no máximo 20% do que realmente passa pela região. As maiores dificuldades estão no efetivo policial e na precariedade dos equipamentos (viaturas, computadores, armas) utilizados pelas forças policiais.

DESEMPREGO - O delegado Carlos Henrique Cotait, da Dise de Araçatuba, acredita que existam quadrilhas especializadas em arrebatar pessoas desempregadas e que estão precisando de dinheiro para trabalhar como mulas para o tráfico. "Essas pessoas que estão sem emprego e querem ganhar dinheiro são alvo fácil dos traficantes", afirmou o delegado. Conforme Cotait, essas mulas quase nunca informam o nome do contratante com medo de morrer. "Elas sabem que no mundo das drogas não existe perdão, e que quem denuncia sofre sérios riscos, mesmo estando na cadeia".

Hoje, os traficantes estão preferindo mulheres e adolescentes para fazer o transporte de drogas no corpo. Segundo o delegado, isso ocorre porque essas pessoas chamam menos atenção numa eventual fiscalização do que o homem.

Muitas mulheres entram para o tráfico por ter alguém precisando de ajuda na família. Conforme a polícia, a mulher é mais fácil de ser convencida a atuar assim se está precisando de dinheiro poque tem filho doente, por exemplo. "Muitas também aceitam transportar droga no corpo para conseguir dinheiro para pagar advogado para o marido preso", acrescenta Cotait.





« Voltar

© Copyright Editora Folha da Região de Araçatuba Ltda.