Na fronteira Bolívia-Brasil, a miséria que leva ao tráfico

Roberto Alexandre (textos) - Valdivo Pereira (fotos) - Enviados especiais


Vista de rua comercial sem asfalto em Puerto Quijarro, cidade boliviana na fronteira com o Brasil: em alguns pontos, há mau cheiro e esgoto a céu aberto
A miséria faz com que quase todas as pessoas que vivem nas cidades fronteiras da Bolívia sejam coniventes com o narcotráfico. Muitos trabalham diretamente no esquema, outros ganham a vida simplesmente auxiliando quem está atrás de cocaína. Para se comprar droga em Puerto Suarez ou Puerto Quijarro, cidades bolivianas na fronteira com o Brasil, basta ficar por algum tempo nas estações de trem. Logo surgem pessoas interessadas em ajudar e, é claro, faturar por indicar algum ponto de venda de entorpecente.

Há taxistas que ganham o dobro da corrida por conhecer o caminho das pedras. De acordo com os próprios traficantes, até membros da polícia local se rendem ao dinheiro proporcionado pelo tráfico de drogas. Na Bolívia, a miséria é tão impressionante quanto as trágicas histórias vividas por pessoas que se propõem a engolir cápsulas de cocaína. No país vizinho, as ocorrências policiais revelam cenas da vida real que seriam difíceis de imaginar se não estivessem devidamente registradas.

Há cerca de três anos, a polícia boliviana prendeu um casal e três filhos com cápsulas de cocaína no estômago. Seria uma ocorrência normal, não fosse o fato de dois dos filhos terem 7 e 11 anos de idade. O mais novo transportava quase meio quilo da droga na barriga. Em outro caso policial, uma criança que nem tinha nascido ainda foi parar na prisão por causa do tráfico de drogas. Para conseguir dinheiro para um tratamento de saúde, uma mulher com oito meses de gravidez se propôs a engolir pasta base. Ela foi presa. A criança nasceu e passou os primeiros meses de vida atrás das grades.

Numa outra ocorrência, os pais aproveitaram a morte de uma criança que não havia completado quatro anos para abrir e rechear o cadáver com cocaína. Durante a viagem para a entrega da droga, a mãe da criança foi presa. Histórias como essas são comuns na Bolívia. A busca por métodos pouco convencionais para o transporte de cocaína não é uma exclusividade da Bolívia. No início deste ano, a polícia colombiana desmantelou um grupo conhecido como os Cirurgiões, que implantava drogas cirurgicamente nas coxas de "mulas" (as pessoas que transportam drogas), também conhecidos no país por correios humanos. Os traficantes enviavam essas pessoas ao Brasil, Estados Unidos e países europeus.

Foram presas cinco pessoas, entre elas o médico cirurgião Rogelio Alonso Campuzano, de 35 anos. Segundo a polícia da Colômbia, o médico era encarregado de operar as "mulas" contratadas para sair do país com implantes de cocaína. As cirurgias contavam com a ajuda de um enfermeiro, que também foi preso. Além disso foram detidos outros três homens encarregados de aliciar as "mulas" em Bogotá. Conforme investigação da polícia colombiana, as mulas viajavam para Tabatinga, no Brasil, e de lá para outros países para chegar finalmente aos EUA e à Europa, onde extraíam a droga do corpo. A polícia não calculou o número de pessoas nem o volume de drogas que os Cirurgiões conseguiram levar a outros países. As investigações ainda continuam.

PARA A DELEGACIA - Uma placa torta que indicava a contra-mão de direção de um pedaço de rua, em Puerto Soarez, foi responsável por mandar a equipe de reportagem da Folha da Região para a delegacia, na Bolívia. No sábado, 27 de agosto, durante uma sessão de fotos em uma feira livre, no centro da cidade, de 12 mil habitantes, um rapaz franzino vestido de verde - como era o uniforme do exército brasileiro antes da década de 90 - abordou e equipe e disse que todos teriam que ir para a delegacia. O policial, que pilotava uma moto Yamaha antiga, sem placas, retrovisores ou qualquer outro dispositivo desse tipo de veículo, disse que o carro que a reportagem usava, um Fiat Uno, havia cometido uma infração de trânsito.

Sob os protestos de uma feirante, que não gostou da idéia de perder possíveis clientes, a equipe foi obrigada a seguir o policial até o posto da Polícia Nacional da Bolívia. Três quarteirões depois, a equipe foi recebida pelo chefe da polícia local, um homem gordo, com aparência de índio, que trajava calça jeans e uma camisa branca, aberta até a metade do peito. No carro, o guia já havia alertado para a possibilidade do pagamento de propina. O chefe da polícia falou que a irregularidade de trânsito havia sido cometida na frente da delegacia e, percebendo que todos no carro eram brasileiros, foi logo dizendo, em um rápido castelhano, que as regras de trânsito era basicamente as mesmas em todo o mundo. "Todos tem que respeitar para não sofrer as conseqüências," afirmou atrás de uma mesa, com ares de poucos amigos.

A equipe da Folha passou cerca de uma hora e meia na delegacia, um prédio bastante antigo e precário, como a grande maioria dos imóveis de Puerto Suarez. A areia branca das ruas sem pavimentação tomava conta no chão da sala, que era de vermelhão e chamava a atenção pelas rachaduras. Os buracos em vidros das janelas anunciavam que o local, possivelmente, já havia sido apedrejado.

O chefe da polícia pediu a identificação dos jornalistas e quis saber que tipo de reportagem era feita ali. Com receio de problemas durante a estada na Bolívia, os repórteres disseram que era uma série sobre turismo no pantanal sul-mato-grossense e boliviano. Depois de uma longa espera e sem falar em dinheiro, o policial alertou ao guia da viagem e motorista do carro que só iria liberar o veículo sem pagamento de multa pelo fato dele estar levando jornalistas.

O passeio pelas ruas da cidade revelou porque os bolivianos daquela região são facilmente aliciados pelo narcotráfico. A falta de estabelecimentos comerciais estruturados e equipados faz, por exemplo, com que a venda de carne ocorra sem qualquer tipo de refrigeração, em barracas espalhadas pelas malcheirosas ruas das cidades. Em muitos lugares, o esgoto corre a céu aberto. A média de salário em trabalho honesto na Bolívia é muito baixa.Cada trabalhador registrado ganha o equivalente a R$ 4 por dia. Cada cápsula engolida significa, muitas vezes, de 3 a 5 vezes esse valor.





« Voltar

© Copyright Editora Folha da Região de Araçatuba Ltda.