'Saí do tráfico de drogas para não terminar preso ou morto'

Roberto Alexandre (textos) - Valdivo Pereira (fotos) - Enviados especiais


Na parede, a sombra projetada de Ramon, que abandonou o tráfico: 'Tinha dinheiro, mas não tinha felicidade'
Depois de 12 anos a serviço do tráfico de drogas na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, Ramon (nome fictício) hoje se diz "curado" da prática que arrebata milhares de pessoas em todo o país. Durante o tempo em que militou na compra e distribuição de drogas, inclusive para a região de Araçatuba, Ramon, há dois anos fora da atividade ilícita, afirma que já traficou mais de uma tonelada de cocaína da Bolívia para vários estados do Brasil. O rapaz, de 30 anos, alega que deixou o tráfico para não morrer. Conforme ele, a grande maioria dos traficantes encontra dois caminhos: a prisão ou a morte. "Constituí família e com isso fica difícil de lidar com os perigos da atividade", afirmou ele.

Ramon, que já chegou a ganhar R$ 20 mil em uma única semana, hoje ganha a vida como moto-taxista e vive com a mulher e quatro filhos em uma casa simples, de dois quartos, sala e cozinha, na periferia de Corumbá (Mato Grosso do Sul). O salário mensal gira em torno de R$ 500, o suficiente para adquirir o básico para a família. "Hoje sou feliz. Dinheiro realmente não traz felicidade." A seguir, trechos da entrevista com o ex-traficante.

Folha da Região - Como e por que você decidiu entrar no tráfico?
Ramon - Comecei aos 18 anos de idade como laranja, mula, levando droga para os outros. Dentro da situação, a gente procura crescer profissionalmente. Então decidi tomar conta do meu próprio negócio. Aí, aos 20 anos, passei a comprar cocaína na Bolívia, e revender no Brasil.

Folha da Região - Quanta droga você já traficou?
Uma vez fiz um cálculo de 30 dias e deu 31 quilos e 800 gramas, quase um quilo por dia, na média. Não sei a quantidade exata, mas com certeza foi mais um uma tonelada de cocaína nos 12 anos em que permaneci na atividade.

Folha da Região - Então, você ganhou muito dinheiro com isso?
Você não pode imaginar a quantidade de dinheiro. Muito dinheiro mesmo. É uma coisa que dói lá no fundo do coração. Ganhei muito dinheiro, mas não consegui fazer nada com isso. Aquele velho ditado tem tudo a ver mesmo: dinheiro que entra fácil, também sai fácil. A gente nunca tem uma idéia exata do que ganha, até porque é difícil manter uma contabilidade afiada. Mas teve semana que ganhei R$ 20 mil em dinheiro vivo, mas não sei onde foi parar.

Folha da Região - E hoje como é sua vida?
Hoje, tudo o que eu tenho é uma casa financiada e uma moto, que uso para trabalhar. Consegui isso com o suor do meu trabalho como moto-taxista. Não tenho mais nada da época em que era traficante. Só lembranças tristes.

Folha da Região - Que lembranças?
Lembranças do tempo em que vivia encanado (preocupado) com tudo. Tinha medo de levar um tiro, de ter que dar um tiro em alguém para conseguir sobreviver. Tinha dinheiro, roupas, carro, mulheres, mas não tinha felicidade no coração e nem tranqüilidade para deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz, sem pensar na polícia ou em grupos rivais.

Folha da Região - E como saiu do tráfico?
Deixei a atividade há pouco mais de dois anos. Minha família foi decisiva. Não imaginava o que poderia acontecer com eles, se eu fosse preso ou morto. Uma outra coisa que me fez refletir foi a prisão de um amigo que estava trabalhando para mim. Naquela semana senti um presságio. Mandei uma mula para a região de Penápolis que foi presa. Outra foi detida na região do balneário de Camboriú, em Santa Catarina. Esse amigo, que trabalhava comigo porque passava por dificuldade financeira, foi escalado para levar pasta-base de cocaína para São Paulo. Ainda no Mato Grosso do Sul, ele foi preso. Foi condenado a três anos de cadeia. Ele realmente era meu amigo, aí eu senti muito pelo que aconteceu. Senti-me culpado. Achei que tava na hora de abandonar tudo e seguir a minha vida, junto com a minha família.

Folha da Região - O que você sentia?
Sentia que a qualquer momento a polícia podia entrar na minha casa e me levar. E o que seria dos meus filhos, da minha família? Teve dia de eu estar com droga dentro de casa e a Policia Federal estacionar em frente. O desespero era tamanho que eu só pensava em jogar tudo fora, no vaso sanitário. Talvez não era nada comigo, mas é como se fosse. Quando eu era traficante, tinha uma coisa comigo: fazer o certo, andar corretamente, mesmo dentro da criminalidade. Acho que, de certa forma, isso me ajudou. No fundo eu sempre sabia que um dia conseguiria reunir forças para sair desse mundo. Parece que Deus coloca a mão em certas coisas. Parece que Ele pensa duas vezes antes de fazer alguma coisa com a gente. Então, os tempos foram passando e fui amadurecendo. Não estava mais agüentando. Quanto mais dinheiro eu ganhava, menos eu vivia.

Folha da Região - Você se arrepende?
Na verdade, não me arrependo. Foi um meio de sobrevivência. Eu era uma pessoa que não tinha opção. Se eu entrei, se eu comecei, foi porque eu tentei arrumar um serviço, tentei trabalhar, mas não tive oportunidade. Eu tenho estudo, e não tive resposta dos empregos que eu procurei. Eu não me arrependo porque não tive opção de serviço, de nada. Essa região aqui não oferece muitas condições para um jovem começar a trabalhar. Para muitos, não há escolha. Ou você vira ladrão, ou vira traficante. No meu tempo era mais difícil ainda. A sociedade me empurrou para aquilo, porque ninguém confiou em mim. O contato que eu tive com a droga durante os 12 anos em que participei do tráfico foi o de olhar. Nunca usei, nunca fumei, nunca cheirei e até hoje não bebo nada de álcool.

Folha da Região - O que mais te impressionou?
Vi muitas coisas ruins. Vi gente morrer por causa da droga. Tomar um tiro por causa de uma migalha de cocaína. Vi muita menina nova, de 12, 13 anos, se prostituir para sustentar o vício. Uma coisa que me impressionou aconteceu certa vez em Campo Grande (MS), em uma avenida central, onde as pessoas costumam comprar drogas. Um cara sentado falou pra mim: "Oh, Corumbá, você está vendo aqueles dois prédios ali? Era meu". Todo mundo deu risada dele. Eu parei para escutar e ele falou que eu podia ter certeza. Ele era um lixo ambulante. Contou-me que quando começou nas drogas, tinha bastante dinheiro. Era engenheiro, um homem estudado. Naquela noite, ele comprou duas paradas e afirmou que seriam as duas últimas de sua vida. Lógico, ninguém acreditou naquilo.

Passei uns dois anos sem ver aquele cara novamente. Um ano e oito meses depois, parei em um posto de combustíveis de Aquidauana para abastecer, quando percebi que um rapaz desceu de uma caminhonete bonita e veio em minha direção. Não o reconhecia até ele me cumprimentar, dizendo, "e aí, Corumbá, tudo bem?". Na hora lembrei-me do engenheiro maltrapilho de Campo Grande. Perguntou-me se eu lembrava do que ele havia dito naquela noite. Referia-se às duas últimas porções que droga que estava comprando. Ele disse que havia montado um comércio na cidade e que estava conseguindo recuperar parte do dinheiro perdido com o vício. Fiquei impressionado com aquela atitude. É muito difícil isso acontecer.

Folha da Região - Qual a mensagem que você deixa depois de ter vivido tudo isso?
Acho que não vale a pena. Depois que você entra, o maior sonho passa a ser a vida comum, livre das pressões e do medo. Olha, pelo conhecimento que tive, posso afirmar que de cada cem traficantes, 99 acabam presos ou mortos. E apenas um consegue deixar tudo, sem conseqüências. Posso dizer que hoje eu me sinto muito feliz por ter sido um desses raríssimos exemplos.

Mula ficou 45 dias com cápsulas na barriga
Aliciadas pelo tráfico de drogas, as mulas (pessoas que transportam drogas no corpo) não têm muitos motivos para comemorar. Geralmente são pessoas pobres que encontram na criminalidade a única oportunidade de sobrevivência. Foi o que aconteceu com Antônio, hoje com 46 anos. Com dificuldade para pagar uma pensão alimentícia, ele resolveu arriscar o transporte de cápsulas de cocaína no estômago. Na quarta viagem foi flagrado e passou três anos que lhe pareceram, longos e tenebrosos, na cadeia, em Campo Grande (MS).

A história de Antônio no tráfico de drogas começou há quatro anos. Na época, com 42 anos vividos em Corumbá, ele possuía um carrinho de lanche de onde tirava o sustento da família. Antônio chegou a ser preso três vezes por não ter dinheiro para pagar pensão alimentícia à ex-mulher. Com as sucessivas prisões, ele contraiu dívidas com bancos e amigos. Durante uma tarde quente de fevereiro, Antônio achou que tivesse encontrado a solução para seus problemas. Conheceu um amigo que lhe ofereceu um ganho extra. Teria que transportar, na barriga, cerca de 50 cápsulas de pasta-base de cocaína para Florianópolis (SC).

Mesmo sem nunca ter engolido uma cápsula sequer, ele aceitou a proposta por precisar de dinheiro. "A primeira vez que engoli foi horrível. Fiquei com a garganta irritada, mas a necessidade era maior do que a dor". A primeira viagem foi tranqüila, segundo ele. Em Santa Catarina, o maior transtorno foi para expelir as cápsulas após tomar doses de laxante. "Na primeira vez, tudo é muito estranho. É um misto de sensações, como medo, preocupação, e necessidade de se ganhar dinheiro. Olha, depois da minha experiência, constatei que a gente faz muita coisa que nem imaginaria por precisar de dinheiro", contou Antônio.

Na segunda viagem, feita para a região de Araçatuba, nada de grave aconteceu. Mas seu destino começaria a mudar a partir da próxima investida. Com 42 cápsulas no estômago, Antônio embarcou na rodoviária de Corumbá com destino ao balneário de Camboriú, em Santa Catarina. Ao chegar ao local marcado, tomou o laxante, como parte do ritual do transporte da droga, e aguardou que as cápsulas saíssem com as fezes. Aguardou por 45 dias. Fraco, cinco quilos mais magro, ele não poderia pedir ajuda em nenhum hospital porque seria preso em flagrante por tráfico. Depois de três semanas sem se alimentar direito, Antônio resolveu comer bananas nanicas, aproveitando a recomendação de um catarinense. Para alívio do transportador e dos traficantes que aguardavam o carregamento, a droga saiu.

Essa experiência marcou a vida de Antônio. Em razão da demora na entrega, ele ficou sem trabalhar em Corumbá e as dívidas aumentaram. A única alternativa foi fazer outra viagem levando droga no estômago. No momento de engolir as cápsulas, traumatizado com o episódio anterior, Antônio, resolver simular que havia ingerido o carregamento. Na verdade, ele aproveitou o tempo disponível para esconder as cápsulas na cueca.

Até o embarque para Penápolis, onde a droga deveria ser entregue, tudo havia corrido bem. Numa fiscalização em Terenos, ao lado de Campo Grande, os policiais rodoviários federais desconfiaram do volume que Antônio levava na cueca. Ele foi chamado a descer no ônibus e preso em flagrante com quase meio quilo de pasta-base de cocaína dentro da calça. O ambulante passou os três anos seguintes na cadeia, junto com centenas de detentos. Deixou a prisão em março. "Foram os piores anos da minha vida", contou ele. "Não desejo essa experiência para ninguém".

Geralmente as mulas que transportam drogas para a região de Araçatuba são aliciadas na periferia de Corumbá. Alguns traficantes em operação na cidade sul-mato-grossense estimam que hoje haja cerca de 200 mulas em atividade naquela região. De acordo com a polícia, essas mulas utilizam ônibus e avião como meio de transporte. Quase toda a semana há algum tipo de apreensão de drogas no aeroporto ou na rodoviária de Corumbá. Estima-se que pelo menos 20 pessoas deixem a cidade de ônibus com droga no estômago. Os aviões são utilizados para viagens de longas distâncias.

Traficante pagou propina de R$ 6 mil
Um traficante de Corumbá alega que há uns cinco anos teve de pagar propina para não ficar preso. O traficante contou que certa vez engoliu 80 cápsulas de cocaína e partiu em direção ao estado de São Paulo. "Já tinha feito várias viagens e estava despreocupado". Em Guaicurus, num dos pontos policiais mais rigorosos da BR-262, o ônibus em que ele viajava foi parado.

Os policiais alegaram que tinham recebido denúncia de que ele estava com droga no estômago. Do posto da Polícia Rodoviária Federal, o traficante foi encaminhado para a delegacia de uma cidade da região. Lá, o rapaz teve contato com um advogado que pediu, na época, R$ 6 mil mais o carregamento que ele levava no estômago para livrá-lo da cadeia imediatamente. "Eu não tive escolha". A mulher dele arrumou no mesmo dia R$ 5 mil. O traficante foi liberado com a promessa de pagar R$ 1 mil em breve. Não pagou. Até foi procurado por policiais e pelo advogado posteriormente, mas mudou de endereço e nunca mais os viu.





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