Garganta profunda engole 45 cápsulas, entre goles de água

Roberto Alexandre (textos) - Valdivo Pereira (fotos) - Enviados especiais


Em jejum, homem engole quase meio quilo de cocaína, com a ajuda de água para facilitar a descida ao estômago; cerca de 90% da cocaína consumida na região é transportada no corpo
Domingo, 28 de agosto, 14h20. Um homem de 33 anos se prepara para mais um ritual que já se tornou rotina em sua vida. Com a barriga vazia, sem ter tomado o café do dia, começa a engolir cápsulas com pasta de cocaína. Uma a uma, as pílulas da droga passam pela garganta e não encontram resistência. Caem no estômago, onde serão recuperadas, mais tarde. O hábito de engolir cápsulas fez com que em pouco mais de 20 minutos o homem ingerisse 45. Quase meio quilo da droga. O entorpecente seria transportado, dessa forma, naquele mesmo dia, para algum lugar do Brasil. E foi.

O ritual faz parte do trabalho dos chamados "mulas", pessoas que transportam droga no corpo. Segundo a polícia, cerca de 90% da cocaína consumida na região de Araçatuba é transportada na barriga dessas pessoas, que se sujeitam a correr o risco de prisão ou até mesmo de morte em troca de pouco dinheiro, geralmente utilizado para a subsistência. Para constatar como o mula engole as cápsulas de pasta-base de cocaína, o guia que serviu à Folha foi imprescindível.

Naquele domingo, logo pela manhã, o guia conseguiu localizar o homem mula na Bolívia e falou sobre o pedido da reportagem. De início, o rapaz se assustou ao saber da intenção dos jornalistas em fotografá-lo ingerindo as cápsulas. Mas, depois, aceitou fazer as imagens, desde que não fosse identificado. O encontro aconteceu em uma residência de um dos bairros de Puerto Suarez. A casa, mantida pelo traficante que havia negociado a droga, é corriqueiramente utilizada por mulas vindas do Brasil. Hoje, poucos mulas bolivianos se arriscam a entrar no Brasil com a barriga cheia de drogas. Eles são muito visados pela polícia brasileira e dificilmente escapam de uma barreira policial.

Quando nossa equipe chegou ao local combinado, a mula e a droga a ser ingerida já estavam lá. O rapaz dava o retoque final em cápsulas que não estavam totalmente adequadas para a ingestão. Com uma vela, ele queimou as pontas das cápsulas para eliminar pedaços de plástico que pudessem arranhar a garganta. Antes de iniciar o ritual, o homem mula contou à reportagem parte de sua história. Como a maioria das pessoas que trilham esse caminho, disse que entrou para o mundo do tráfico por necessidade financeira.

Com a voz trêmula, e olhar distante, desesperançado, contou que sustentava a família havia quase três anos com o dinheiro conseguido com o transporte de drogas no estômago. "Tô sentindo que está no momento de parar com isso tudo, mas não consigo outra fonte de renda", afirmou. "A minha família tem que comer e ainda não tenho como ganhar dinheiro de outra forma". O rapaz deixou explícita a destreza adquirida no negócio ao engolir a primeira cápsula. Sentado em uma cadeira de bar, tomou um gole de água, inclinou a cabeça e o pescoço para cima, colocou a cápsula na boca e deixou que ela deslizasse para dentro. Tudo isso foi feito como se o embrulho não encontrasse nenhum obstáculo em sua garganta.

Em menos de meia hora, o brasileiro ingeriu nada menos que 45 cápsulas com 10 gramas cada uma de pasta-base de coca. Antes que terminasse o serviço, os repórteres tiveram que deixar o local em função de uma movimentação incomum de carros no bairro de Puerto Suarez. Por medida de segurança, o rapaz que engoliu as cápsulas não disse onde morava e nem para onde levaria o carregamento. A única informação que se soube é que ele viajaria de ônibus naquele mesmo dia para algum lugar do Brasil.


homem toma água após ter engolido cápsulas de cocaína
Cada mula tem a própria maneira de engolir as cápsulas. Alguns utilizam água e suco para auxiliar na ingestão, outros preferem iogurte ou mesmo conhaque. Geralmente, as cápsulas são fabricadas de maneira que adquiram forma arredondada e lisa para ferir o mínimo a garganta ou o estômago da mula. Cada cápsula pode variar de tamanho e de peso. As mais utilizadas são as que comportam 10 gramas de droga, mas também existem cápsulas de 8 e 15 gramas. A proporção varia de acordo com a preferência de cada pessoa contratada para fazer o transporte do entorpecente. Segundo o rapaz que engoliu as cápsulas na presença dos jornalistas, o preço de cada viagem depende do número e do tamanho e da quantidade de droga a ser ingerida.

Geralmente, a mula recebe de R$ 12 a R$ 20 por cada cápsula engolida. Com isso, o transporte de meio quilo de pasta-base pode significar de R$ 600 a R$ 1 mil, sem contar despesas de passagem. RISCO - O custo da operação é quase que insignificante se comparado ao risco da atividade e ao valor da pasta base de cocaína. Na Bolívia, o quilo desse tipo de droga varia hoje de US$ 1.800 (cerca de R$ 4,1 mil) a US$ 2.200 (aproximadamente R$ 5,1 mil). A oscilação de preços está relacionada ao grau de pureza da cocaína.

Diariamente, partem mulas de Corumbá para várias partes do país. As regiões mais próximas, com até 1,2 mil quilômetros de distância, são percorridas de ônibus. Para outras localidades, como os estados do sul, norte, centro-oeste e nordeste, as viagens geralmente são feitas em aviões com linhas comerciais. Estima-se que pelo menos 20 pessoas partam diariamente de Corumbá levando cápsulas de pasta-base de cocaína no estômago. Segundo a própria polícia, algumas dessas pessoas acabam sendo presas no percurso, mas a grande maioria consegue chegar. Grande parte desse total tem a região de Araçatuba como destino final. "A região de Araçatuba é muito conhecida aqui por atrair bastante mulas", afirmou o ex-traficante.

Os verdadeiros barões da droga tanto na Bolívia quanto no Brasil são difíceis de serem presos porque não trabalham diretamente com o produto. Existe um lema entre os traficantes da fronteira que diz: "Quem coloca a mão na droga não tem tempo para ganhar dinheiro". Com isso, os riscos ficam com pessoas obrigadas a ter o contato direto com a cocaína, no caso as mulas e os embaladores. Quem mais ganha dinheiro com essa atividade, muitas vezes, nem sequer chega a ver a mercadoria.





« Voltar

© Copyright Editora Folha da Região de Araçatuba Ltda.