Bolívia e região de Araçatuba fazem a ponte com as drogas

Puerto Quijarro, Bolívia- Roberto Alexandre (textos)-Valdivo Pereira (fotos)- Enviados especiais


Puero Quijarro, Bolívia, 27 de agosto: o embalador dá o toque final com o calor de vela para vedar mais uma cápsula de cocaína que acaba de ser fabricada no fundo de sua casa
Sábado, 27 de agosto, amanheceu com céu aberto em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, que demarca o território dos traficantes no lado brasileiro.

Pouco antes das 7h30 estávamos prontos para conhecer os métodos de um embalador de cápsulas de cocaína, na parte boliviana. Bastava fazer a travessia de país e seguir as regras pré-combinadas com a ajuda de um guia.

A fábrica fica encravada em região camuflada no cenário montanhoso de Puerto Quijarro e faz parte de um conjunto articulado que forma uma verdadeira usina que alimenta o comércio de cocaína no Brasil. Puerto Quijarro e Puerto Suarez são conhecidas pela transformação da pasta-base em cápsulas. As duas localidades recebem grande quantidade da cocaína produzida no interior do país.
O rádio sintonizado numa emissora boliviana tocava música de Roberto Carlos, gravada em castelhano, "Cama y mesa" (Quiero ser tu canción desde principio a fin/ Quiero rozarme en tus labios y ser tu carmín...).

Estávamos começando a penetrar na intimidade do tráfico internacional de drogas. À medida em que o carro se aproximava do local, em um bairro pobre, com ruas sem pavimentação, casas sem reboco e muros, aumentava também a tensão do encontro marcado. O tráfico de drogas é uma atividade tão comum nessa região da Bolívia que há centenas de pessoas que sobrevivem apenas de fabricar as cápsulas de cocaína. Fomos em direção a uma delas. Nesse clima, o morador, um boliviano de 42 anos, mostrou, passo a passo, como as cápsulas são produzidas.

Era apenas o início de um roteiro pelo qual foi possível visitar pelo menos seis casas onde a principal atividade dos moradores é empacotar a pasta-base da coca para que ela seja engolida e transportada pelas mulas, homens ou mulheres contratados como veículo para carregar no corpo a droga destinada aos centros de consumo. O contato inicial com o embalador aconteceu na quinta-feira, 25. Autorizou visitar e fotografar a fabriqueta desde que nada e ninguém fossem identificados. Agendou pessoalmente a entrevista para as 48 horas seguintes.

A residência desse empacotador é situada em um ponto estratégico, com ampla visão para as ruas próximas. Na casa, havia apenas quatro pessoas, mas duas delas estavam armadas com revólveres aparentemente de calibre 32. Eram os seguranças do local. Nossa equipe foi recebida junto com o guia pelo proprietário da casa. Com olhares desconfiados, ele passava a sensação de que a qualquer momento poderia mudar de idéia e expulsar todos dali. Um quilo de pasta base já estava disponível para o tratamento. A encomenda havia chegado há pouco, trazido por um atravessador contratado por um outro traficante da cidade. A cocaína seria enviada, naquele final de semana, a algum lugar de Santa Catarina.

O anfitrião nos levou até a uma varanda no fundo da casa cercada por muros altos, onde a droga é embalada. Havia um aparelho de fabricação artesanal, utilizado para compactar a pasta-base. Essa prensa é formada por dois caibros de madeira de um metro de comprimento, unidos por parafusos afixados nas pontas. Entre um pedaço de madeira e outro, são feitos buracos onde a droga é depositada. Durante os 40 minutos de permanência na casa, a equipe foi acompanhada pelos dois seguranças armados e vigilantes. Os revólveres estavam dentro de coldres colocados por dentro da calça. Não pronunciaram uma só palavra o tempo todo, mas, pela aparência física, deu para perceber que eram bolivianos.

O embalador começou então finalmente a manusear as cápsulas e o fazia com a mesma habilidade do padeiro que fabrica diariamente centenas de pãezinhos. De início, cortou sacolas plásticas de supermercado e colocou as tiras nos buracos da prensa. Com o auxílio de uma colher, para fundir a droga, utilizou um martelo e um pedaço de ferro cuja ponta tinha o diâmetro um pouco menor do que a abertura de cada orifício. Após preencher todos os buracos, fechava apressadamente as cápsulas queimando a ponta de plástico que havia sobrado de cada tira. O passo seguinte foi retirar os parafusos que uniam os pedaços de madeira.
As cápsulas de cocaína já estavam então compactadas. A próxima etapa era reforçar a embalagem para prevenir danos à saúde da mula e tentar despistar a polícia. As cápsulas foram amarradas com fio dental. Em seguida, o boliviano envolveu cada uma delas com uma camada de plástico, daquele utilizado para embalar alimentos.

A fase seguinte foi acondicionar as cápsulas em dedos de luvas cirúrgicas. Após serem amarrados de novo com fio dental, os gizes de cocaína foram envoltos por papel carbono. Os traficantes utilizam essa técnica para tentar evitar que a droga seja visualizada em exame de raio-X, em aeroportos por exemplo.

Finalmente, o embalador revestiu as cápsulas em nova camada de plástico PVC e fez a vedação queimando, com uma vela, as pontas do plástico. As cápsulas estavam finalmente prontas para serem ingeridas pelas mulas.

Florestas camuflam refinarias móveis
O cultivo da folha de coca, atividade legalizada no país, se dá em áreas onde o clima e o solo são propícios para a cultura da planta, em florestas ao redor de Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra. Da folha de coca, os bolivianos extraem substâncias utilizadas na fabricação de remédios. O material também serve para o preparo de chás, um estimulante muito consumido pelos habitantes. A pasta-base de cocaína é fabricada em laboratórios clandestinos, escondidos entre as plantações em meio às matas de difícil acesso.

As refinarias são ambulantes. Não têm local fixo, para dificultar o trabalho da polícia. Os locais são muito bem guardados por seguranças que costumam empunhar pistolas e fuzis contrabandeados do Oriente Médio. A fabricação da pasta-base fica sob responsabilidade de índios e descendentes que sobrevivem do dinheiro do narcotráfico.

O processo de fabricação da pasta-base é sempre artesanal. De cada 250 quilos de folhas extrai-se material suficiente para a produção de um quilo de pasta base. O resto é bagaço, descartável. Após a colheita, os índios passam a pisotear as folhas para a extração do sumo da planta. O processo é semelhante ao da fabricação de alguns tipos de vinho. Em barris, o sumo é misturado ao óleo diesel. Para se chegar à pasta-base, o fabricante acrescenta bicarbonato, material cuja venda é proibida em grandes quantidades na Bolívia, mas é liberada no Brasil.

Na etapa final de fabricação, adiciona-se água que serve para lavar o óleo diesel. O que sobra é a pasta base de cocaína com 100% de pureza. O tempo médio para embalar um quilo de pasta-base é de 2 horas. O custo do serviço é de cem dólares, quase R$ 300. Após ser embalada, grande parte da pasta-base fabricada no interior da Bolívia é transportada de trem para as cidades que fazem fronteira com países da América do Sul. As autoridades estimam que cerca de 60% da produção de cocaína da Bolívia seja destinada ao Brasil. Mais da metade desse total entra no país por Corumbá.

A cocaína com 100% de pureza é considerada de classe "A" e atinge o valor mais alto. Na seqüência se encaixam os produtos com 80% de pureza, classificada de classe "B", e com 50% de fidelidade, apontada como sendo cocaína de classe "C". Esse tipo de droga quase não existe. O grau de pureza é alterado em função da mistura de outras substâncias à droga. Muitos traficantes gostam de deixar uma espécie de controle de qualidade em seus produtos. Alguns tipos de pasta-base de cocaína de classe "A" aparecem com a embalagem diferenciada. Os tabletes aparecem envoltos a uma bexiga de aniversário, tamanho grande, com uma folha de coca afixada por dentro da última camada de plástico que recobre o material.

Outros preferem marcar seus produtos com a impressão de uma estrela azul na embalagem da cocaína. De vez em quando, a polícia brasileira apreende drogas com essas indicações. Chapare e Chimore, dois vilarejos pobres a cinco horas de Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba, concentram uma das maiores plantações de coca do mundo, com cerca de 38 mil hectares. A região é habitada por campesinos (agricultores), cada vez mais atraídos pelo narcotráfico. Em busca de lucros maiores, cerca de 30 mil famílias deixaram a agricultura tradicional para produzir folhas de coca para os traficantes.

De ônibus, as mulas desafiam 12 barreiras
O transporte da cocaína é a epopéia das mulas. Uma viagem de ônibus de Corumbá à região de Araçatuba dura de 14 a 20 horas. Durante o percurso, existem nada menos que 12 postos policiais a serem vencidos. Os mais temidos são os da Polícia Rodoviária Federal, em Guaicurus e Terenos, cidades sul-mato-grossenses entre Corumbá e Campo Grande. Passados esses dois postos, metade da missão está cumprida.

As pessoas que viajam por essa rota são obrigadas a fazer baldeação em Campo Grande. Na rodoviária da cidade, as mulas se dividem e embarcam para diferentes pontos do país. Para viajar de Corumbá até a região de Araçatuba as mulas atravessam o Mato Grosso do Sul pela rodovia Breno de Medeiros Guimarães, a famosa BR-262, estrada onde ocorre o maior número de apreensões de cápsulas de cocaína no Brasil. Logo na saída de Corumbá, na altura do quilômetro 780 da BR-262, existe um posto de fiscalização da Fazenda estadual, conhecido como Lampião Aceso. Freqüentemente policiais rodoviários ficam no local para fiscalizar os ônibus que deixam a cidade. Depois, há o posto de Porto Morrinho, ao lado do Rio Paraguai, no km 713.

O próximo ponto sujeito à fiscalização fica no km 665. A base, chamada Buraco das Piranhas, pertence à Polícia Ambiental do Mato Grosso do Sul. No km 606, aparece o posto da Polícia Rodoviária Federal de Guaicurus. Lá, câmeras de vídeos instaladas em pontos estratégicos sobre a rodovia, filmam todos os veículos que passam pelo local. A próxima parada fica em Miranda, numa base da Polícia Ambiental, no km 565. Em menos de duas horas, o viajante chega ao ponto de Terenos, no km 387, praticamente ao lado da capital Campo Grande. A partir daí, os postos de fiscalização ficam em Água Clara e Três Lagoas, já na divisa com o estado de São Paulo. Aqui, as mulas se sentem em casa.

Do lado paulista, o viajante trafega pela rodovia Marechal Rondon (SP-300). Até Penápolis, na região de Araçatuba, resta driblar cinco postos da Polícia Rodoviária estadual. Muitas morrem na praia, flagradas na reta final. A Rondon é tida como o principal corredor para entrada de drogas via terrestre no estado de São Paulo. Na região de Araçatuba, cerca de 90% das apreensões de cápsulas de cocaína são feitas na SP-300, dentro de ônibus com procedência do Mato Grosso do Sul.

O método de fiscalização é simples ao longo da rodovia. Quando não há denúncias anônimas, pessoas de Corumbá e da Bolívia são levadas para exame de raio-X em hospitais da região. Sempre que isso ocorre, é grande a chance de encontrar cápsulas de cocaína no estômago. Para reabastecer o processo, os traficantes utilizam pequenos aviões, caminhões e trens. Nas estações de Puerto Suarez e Puerto Quijarro desembarcam em torno de 100 quilos de pasta-base de cocaína por dia.

Na fronteira da Bolívia, quase não há apreensão de drogas nos trens. Isso se deve à conivência de funcionários da rede ferroviária e de policiais com o tráfico de drogas. A polícia não tem estrutura física e financeira para combater o narcotráfico, preparado a pagar propinas. Na Bolívia o que gera medo nos traficantes é uma grupamento da polícia conhecido como Leopardo. Os policiais que integram essa força são custeados e treinados pelos EUA, trabalham sempre disfarçados e infiltrados e possuem um sofisticado aparato para investigação.

Na Bolívia, essa polícia é a responsável por grande parte das apreensões de drogas e pela desarticulação de quadrilhas. Carregadores de bagagens, vendedores ambulantes e taxistas, depois de um certo tempo de convivência, acabaram efetuando prisões inesperadas. Muitos leopardos trabalham dessa forma.


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Veja infográfico de como são feitas as cápsulas




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