Araçatuba - Com base em estudos da Polícia Federal em Araçatuba, um site fraudulento tem uma sobrevida de aproximadamente sete meses. Nesse período, é possível movimentar em média R$ 300 mil a cada 30 dias. Nos três ou quatro primeiros meses, grande parte dos pedidos é atendida, ou seja, as mercadorias são entregues aos clientes que optaram por comprar naquele site.
"Isso é uma armadilha para atrair cada vez mais compradores", observa o delegado seccional de Araçatuba, Ely Vieira de Faria, responsável pela investigação de quase uma dezena de lojas virtuais.
Como no começo do funcionamento os sites entregam as mercadorias corretamente, a loja virtual fica bem falada entre os clientes e bem cotada em sites direcionados a consumidores virtuais. "É uma propaganda e tanto ter um site recomendado pela própria pessoa que comprou e recebeu os produtos sem nenhum problema", afirma o delegado. Com isso, a cada mês, as empresas elevam astronomicamente seus pedidos e conseqüentemente seu faturamento.
Um site em início de atividade, quando ainda não é conhecido, fatura em média R$ 80 mil mensais. Depois de cinco ou seis meses, esse faturamento sobe para R$ 500 mil ou R$ 600 mil, dependendo da tática utilizada pelos proprietários. E tamanho não é documento. A maioria dos sites fraudulentos funciona em pequenas salas, suficientes para acomodar dois ou três computadores. "Essas lojas virtuais têm um faturamento gigante, muitas vezes igual ou até superior a firmas que empregam centenas de pessoas e geram muitos impostos para o País", comenta o delegado federal Sergio Henrique dos Santos Matheus, de Araçatuba.
Assim como no mercado comum, onde existem meios destinados a publicidade, a internet conta com vários sites de anúncios. No meio das lojas virtuais o Busca Pé (www.buscape.com.br) é o mais conhecido e o mais rentável deles. O anúncio de um site virtual no Busca Pé, que custa em média R$ 600 por dia, significa lucro na certa. As lojas virtuais cravadas na região Noroeste do Estado de São Paulo são tão conhecidas negativamente em todo o Brasil que o site Busca Pé chegou a suspender por um período o anúncio de empresas com o DDD 018, utilizado em cidades de toda a região.
Em nenhuma outra localidade do País aconteceu algo semelhante. Segundo a polícia, isso prova que a região de Araçatuba é realmente o paraíso dos sites fraudulentos. Conforme a PF, algo em torno de 80% das lojas virtuais criadas no País para dar golpes foram estabelecidas na região de Araçatuba.
JOGADA - Como nos quatro primeiros meses os sites operam sem nenhum problema, os 90 últimos dias são reservados para o golpe. É nesse período, quando as contas bancárias estão bem gordas que os estelionatários decidem receber o dinheiro e não entregar mais nada. As compras no Paraguai são feitas apenas no início de funcionamento das lojas virtuais.
Para diminuir custos, proprietários de sites fraudulentos estabelecidos na região fazem uma espécie de consórcio de compras. Geralmente, são enviados ao Paraguai um ou dois carros alugados. Os "viajantes", como são conhecidas as pessoas responsáveis pelas compras no país vizinho, se encarregam da encomenda de vários sites ao mesmo tempo. No Paraguai, o acordo com a máfia chinesa - que domina o comércio em Ciudad del Este -, o pagamento feito aos atravessadores (pessoas responsáveis por ingressar o contrabando em território brasileiro sem passar pela Aduana) e a propina paga a policiais em cidades e nas rodovias, garantem a chegada da muamba até a região.
Em dezembro, a Polícia Federal realizou uma operação para combater esse tipo de atividade em Araçatuba. Foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão na cidade, mas o resultado não foi muito animador: os responsáveis pelas lojas estavam em férias, muitos deles no litoral. A PF acabou apreendendo o equivalente a R$ 20 mil em mercadorias sem nota fiscal, uma ninharia em comparação ao faturamento dessas lojas.
Página inicial do Cyberfast, um dos sites
da região de Araçatuba acusados de
aplicar golpes em clientes
As milhares de vítimas das lojas virtuais fraudulentas espalhadas por todo o Brasil compartilham um sentimento em comum: a sensação de impotência. A maioria reclama da impossibilidade de receber o bem pelo qual pagou ou ter o dinheiro ressarcido. O pior, eles não têm para quem recorrer. As reclamações encaminhadas aos Procons de todo o País, na maioria das vezes, acabam arquivadas pela dificuldade de se localizar o responsável pela empresa. Como a empresa é virtual, os proprietários podem simplesmente desaparecer da noite para o dia.
O mesmo acontece com a polícia. Em Araçatuba, existem dezenas de inquéritos em andamento nas polícias civil e federal. Em um dos procedimentos, de uma empresa chamada Nikishop, foram catalogados até o momento algo em torno de 200 vítimas de todo o País. Outras lojas virtuais que ficaram muito conhecidas foram Futura, Audy, Cyberfast e a PCIShop. Juntas, reúnem cerca de 800 vítimas de praticamente todos os Estados brasileiros.
Teoricamente, a polícia teria que ouvir todas essas pessoas. As delegacias tentam tocar os inquéritos enviando cartas precatórias (interrogatórios via Correios) às cidades das vítimas. Mas isso, muitas vezes, demora meses até se obter uma resposta. Quando há resposta.
A falta de uma legislação específica para crimes de internet também dificulta bastante o trabalho da polícia. Atualmente, os responsáveis por essas lojas virtuais podem responder por crime de estelionato, o que no Brasil quase nunca resulta em prisão.
O jornalista Nelson Coelho, de João Pessoa, na Paraíba, luta desde outubro do ano passado para receber pelo notebook que comprou via internet de uma loja virtual estabelecida em Araçatuba. O prejuízo foi de R$ 1,3 mil. "É difícil saber que esses estelionatários estão aplicando golpes por aí e que não há mecanismos para detê-los". O jornalista alega que não consegue mais fazer contato com os responsáveis pela loja.
Situação semelhante é de um advogado de Brasília. No ano passado, ele comprou 15 impressoras de um site virtual de Araçatuba. Até a sexta-feira, dia 9, não havia recebido nenhuma peça.
Em dezembro, o advogado veio pessoalmente a Araçatuba, mas encontrou o imóvel (onde consta o endereço do site) fechado. A única providência que conseguiu foi registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil de Araçatuba. Voltou sem nada para o Distrito Federal.
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