Muamba viaja pela 'rota da propina'

Roberto Alexandre
Sexta-feira - 09/02/2007

Os próprios muambeiros responsáveis por buscar produtos vendidos pelos sites fraudulentos apelidaram as rodovias que ligam Foz do Iguaçu (PR) à região de Araçatuba como a "rota da propina". Eles garantem que têm motivos de sobra para isso.

Antes de cada viagem, é comum os viajantes (assim como os muambeiros se autodenominam) já separarem o dinheiro para possíveis assaltos no meio da estrada e para a propina cobrada pela polícia. "Todo mundo ganha com essa história de contrabando, inclusive os policiais de ponta de estrada", afirma um muambeiro da região que pediu para não ser identificado. Antônio (nome fictício) afirma ter feito mais de 200 viagens para o Paraguai nos últimos quatro anos. "Conheço tudo e mais um pouco", garante.

Segundo ele, muitas vezes, os assaltantes não aparecem para roubar os pertences dos muambeiros e nem para aterrorizar as vítimas. Mas, praticamente em toda a viagem, acontece o pagamento de propina a policiais corruptos, que sustentam o luxo com a "colaboração" dada pelos contrabandistas.

'Se acabar a venda no Paraguai, muitos policiais vão morrer de fome', ironiza o muambeiro. Apesar de tudo, ele alega que os contrabandistas sobrevivem exatamente porque existe esse tipo de profissional corrupto em atividade. "O pessoal não gosta é daqueles que rejeitam um 'presentinho' e que querem prender todos e apreender tudo", afirma. "Os do 'acerto' (policiais corruptos) são bem-vindos".

'SEGURANÇAS' - A rota da propina, na verdade, começa ainda em Foz do Iguaçu, nas imediações dos hotéis localizados na região da ponte da Amizade.

Lá, existem grupos de batedores acostumados a fazer a segurança da mercadoria até cidades como Cascavel (PR) e Maringá (PR).

A um custo de até 5% do valor dos produtos, esses batedores se desdobram para evitar que policiais apreendam algum produto. O esquema funciona da seguinte forma: geralmente munido de HT (radiotransmissor), um dos batedores segue na frente com um carro sem mercadoria. Ele vai passando as coordenadas para outro batedor que acompanha o muambeiro no veículo carregado de contrabando.

Quando há bloqueio na pista ou grande volume de policiais, o batedor orienta o carro que vem logo atrás a parar ou a fazer desvio ou retorno. Segundo os muambeiros, o trecho que liga Foz do Iguaçu a Cascavel é considerado o mais crítico em termos de fiscalização sem possibilidade de acordo (pagamento de propina). Além disso, é nesse percurso que agentes da Receita Federal costumam realizar operações em conjunto com a polícia.

Um dos postos mais temidos pelos muambeiros fica logo na saída de Foz do Iguaçu, na BR-277. O local, conhecido no Brasil inteiro como "barração" até foi apelidado de "mosquiteiro" por "pegar quase tudo que passa por ali".

Uma outra opção que agora vem sendo utilizada pelos muambeiros é a rota de Guaíra (PR), cidade às margens do rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul. Muitos contrabandistas preferem pegar as mercadorias nas imediações daquela cidade, que também faz divisa com o Paraguai.

'Quando a situação está muito complicada em Foz, parte da mercadoria comprada no Paraguai é entregue em Guaíra, onde ainda não existe muita fiscalização'.

'PICA-PAU' - O maior receio dos muambeiros é com relação aos policiais estaduais do Paraná. "Esse pessoal ganha muito dinheiro com o contrabando", afirma Antônio. Conhecidos como "pica-paus" (por terem a boina vermelha), os policiais rodoviários são responsáveis por patrulhar as estradas paranaenses.

De acordo com Antônio, a propina geralmente é paga de acordo com o valor da mercadoria contrabandeada. "Teve vez de eu deixar US$ 1 mil (R$ 2,1 mil) com os pica-paus".

Conforme o contrabandista, os policiais sabem que a atividade resulta em lucros quase sempre astronômicos, e se aproveitam disso. Conforme o muambeiro, de cada 20 fiscalizações em estradas do Paraná, no máximo duas não resultam em algum tipo de acordo. "Muitas vezes, os policiais 'confiscam' algum tipo de equipamento de quem não tem dinheiro na mão". Equipamentos como notebooks, câmeras digitais e videogames de primeira geração são os prediletos. Segundo o muambeiro, essa prática existe há vários anos e é exatamente o que ajuda a sustentar a prática do contrabando em território nacional.

Antônio relata que grande parte dos policiais que fica à beira das rodovias paranaenses que compõem a rota da propina é suscetível a acordos. "Tem gente que não aceita dinheiro, mas ainda bem que isso é bem pouco", comemora.

O muambeiro disse que no Estado de São Paulo é mais raro o pagamento de propina. Ele afirma já ter dado dinheiro a policiais na região de Presidente Prudente. "Uma vez, um policial aceitou R$ 5", afirma. "Esse era só para o cafezinho mesmo", ironiza o fato de o policial ter aceitado tão pouco.

Antônio revela que em função da máfia dos sites, os carros com placas de cidades da região de Araçatuba são os mais visados pela polícia, principalmente no Paraná. Para tentar driblar isso, muitos muambeiros que trabalham para os sites fraudulentos estão preferindo viajar com carros alugados por uma empresa que tem sede no Paraná, mas que possui filiais na região. Todos os veículos dessa empresa foram emplacados em Londrina (PR).

'Quando somos parados em uma fiscalização, existe o acordo (pagamento de propina) para salvar a mercadoria. Mas o ideal é que isso não aconteça. Assim o lucro é bem maior', revela o muambeiro.

SINDICÂNCIAS - As corregedorias da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Rodoviária Estadual do Paraná admitem que existem várias denúncias nesse sentido. Uma reclamação desses órgãos, porém, é que quase ninguém tem coragem de colocar as acusações no papel (formalizar a denúncia).

Nos últimos três anos, quase 40 policiais foram presos no Paraná acusados de corrupção, suspeitos de aceitarem propina de muambeiros. A maioria saiu da cadeia dias depois da prisão.

Para deleite dos contrabandistas, muitos desses policiais continuam trabalhando no mesmo local onde teriam cometido os crimes. Algumas sindicâncias ainda não foram concluídas, segundo as corregedorias.

De acordo com o delegado da Receita Federal de Foz, José Carlos Araújo, no ano passado um técnico foi preso acusado de corrupção ao ser flagrado colaborando com contrabandistas e um dos postos de fiscalização do Estado. Leia amanhã: sites fraudulentos faturam até R$ 2 milhões.

©2007 - Copyright Editora Folha da Região de Araçatuba Ltda.