'Comissão' garante entrega da muamba

Roberto Alexandre
Quarta-feira - 07/02/2007
Roberto Alexandre - 16/12/2006

Aduana e fiscalização da PF
desestimulam travessia pela ponte

Araçatuba - Para entender como funciona a operacionalidade de um site criado especificamente para dar golpes, antes é preciso conhecer os esquemas de venda de mercadoria no Paraguai, o principal fornecedor de muamba para o Brasil. Isso porque praticamente todas as lojas virtuais fraudulentas adquirem produtos contrabandeados daquele país, onde hoje é possível adquirir, por exemplo, um Play Station 2 por R$ 400, enquanto que no Brasil esse mesmo produto não sai por menos de R$ 750.

A isenção de taxas e tributos no Paraguai faz com que muitos produtos, principalmente de informática, sejam vendidos a um preço bem abaixo daqueles praticados no Brasil. Exatamente por isso o país vizinho é o responsável por praticamente 95% do contrabando encontrado em território brasileiro.

Grande parte desse volume chega ao Brasil por Foz do Iguaçu (PR), na divisa com Ciudad del Este, município paraguaio de 200 mil habitantes conhecido como o paraíso da muamba.

Na fronteira, existe uma verdadeira organização criminosa que lucra milhões de dólares a cada ano com o contrabando. O esquema é tão poderoso que mantém muitos policiais, agentes da receita federal, taxistas, moto-taxistas, donos de hotéis e estacionamentos de Foz e Cidade Del Leste na lista de pagamento.

Em Foz do Iguaçu, a travessia de mercadoria via terrestre teria que ser feita pela conhecida ponte da Amizade, sobre o rio Paraná. No entanto, com a recente inauguração na nova aduana, muitos contrabandistas utilizam botes e lanchas para passar a muamba para o lado brasileiro. O esquema virou negócio de grande lucratividade da região da tríplice fronteira.

ENTREGADOR - Nas imediações da ponte da Amizade, no bairro de Vila Portes, em Foz, existem cerca de 50 estacionamentos de carros utilizados por pessoas que visitam o Paraguai para fazer compras. Em um deles, na rua Osvaldo Cruz, conhecemos um homem de pouco mais de 50 anos que afirma estar há 22 na atividade de intermediar a travessia de mercadorias do Paraguai para o Brasil.

A um custo de 4% sobre o valor da mercadoria a ser contrabandeada, seu José, como se identificou, disse que garante a entrega da mercadoria em qualquer hotel de Foz do Iguaçu. A 25% sobre o valor total da compra, ele afirma que tem um esquema de entregar o contrabando em qualquer lugar do estado de São Paulo.

Sem saber que conversava com jornalistas, seu José detalhou como funciona o esquema de travessia de muamba na região da ponte da Amizade. Hoje, a maioria do contrabando que sai do Paraguai ingressa no Brasil pelo rio. Foram estabelecidas verdadeiras rotas pela água. Muitas operações contam com a conivência de policiais e agentes federais, segundo ele. "Todo mundo ganha dinheiro com isso aqui".

A travessia geralmente é feita durante a noite e a madrugada. A máfia estabelecida naquela localidade envolve homens armados com revólveres, pistolas e espingardas calibre 12 para dar cobertura ao esquema, tanto do lado brasileiro, quanto do paraguaio.

Para entender como funciona essa atividade criminosa, naquela região caracterizada pelo medo, interesse econômico e poder dos mais fortes, acompanhamos muambeiros da região de Araçatuba que foram fazer compras em Ciudad del Este.

Muitas mercadorias seriam destinadas a sites virtuais. A cota de US$ 300 (aproximadamente R$ 630) estabelecida para cada consumidor brasileiro é desprezada. Nesse tipo de esquema, praticamente nenhum produto é passado pelas vias normais, por sobre a ponte da Amizade.

VARIEDADE - No tumultuado e milionário comércio de Ciudad del Este, os muambeiros da região de Araçatuba conseguem comprar desde roupas, brinquedos, bebidas, acessórios de moda, até sofisticados equipamentos de informática, a "menina dos olhos" dos sites virtuais fraudulentos.

Foi numa manhã quente de dezembro de 2006 que conhecemos todo o esquema de contrabando, utilizado por grande parte dos muambeiros brasileiros. Encontramos uma mulher de pouco mais de 50 anos que se intitula uma das principais "amigas" dos muambeiros da região de Araçatuba. Ela se encarrega de agenciar a travessia de grande parte da mercadoria contrabandeada vendida da região, inclusive pelos sites.

Naquela manhã, a compra atingiu quase US$ 15 mil (R$ 31,5 mil) em equipamentos de informática, entre notebooks (a febre das lojas virtuais), câmeras digitais, aparelhos de MP3 e DVDs.

Os responsáveis pela aquisição do material nem chegam a pôr a mão nos produtos. Nessa fase é que entra a "amiga" dos muambeiros. As notas de compra são entregues para a mulher, em uma sala pequena localizada na sobreloja de uma galeria estabelecida no centro da cidade paraguaia. Ali, já ficam estabelecidos o horário e o local da entrega dos produtos no lado brasileiro.

As notas de compra são entregues para funcionários da mulher, que se encarregam de retirar os produtos nas lojas onde foram efetuadas as compras. Esses funcionários, geralmente adolescentes que trabalham a um custo de R$ 10 por dia, se encarregam de embalar toda a mercadoria em caixas de papelão revestidas com plástico bolha e várias camadas de fita crepe. É comum ver nos corredores e saguões de galerias de lojas do Paraguai o trabalho feito pelos embaladores de contrabando.

De lá, após conferidas, as mercadorias são levadas para depósitos alugados no Paraguai. A partir daí, é só esperar a oportunidade para a travessia à noite pelo rio Paraná. O transporte é feito por barcos, lanchas e muitas vezes até chatas, sob forte esquema de segurança.

A máfia dos atravessadores mantém os chamados olheiros praticamente 24 horas por dia para vigiar as rotas utilizadas pelo rio e por caminhos às margens dele. O objetivo maior não é se precaver da polícia e sim de grupos rivais que podem tentar a qualquer momento tomar a rota da travessia.

O negócio é tão lucrativo e sério que há seis anos uma quadrilha de criminosos tomou o ponto executando três pessoas de uma mesma família que comandava uma das rotas do rio Paraná. Essas organizações cobram pedágio pela utilização daquela determinada rota dentro do rio.

"PSEUDO-HOTÉIS" - Do lado brasileiro, na maioria das vezes, o contrabando é levado para hotéis e depósitos espalhados perto da ponte da Amizade. A Receita Federal de Foz do Iguaçu estima que existam cerca de 30 hotéis naquela região que servem de fachada para os muambeiros.

Segundo José Carlos de Araújo, delegado da PF em Foz, muitos estabelecimentos nem têm sequer camas nos quartos. "Esses locais, chamados de pseudos-hotéis, são verdadeiros depósitos de mercadorias contrabandeadas", afirmou.

Em dezembro, a Receita Federal apreendeu US$ 149 mil (R$ 313 mil) em aparelhos de Play Station que estavam armazenados em hotéis de Foz.

Ao entregar os produtos no Brasil, o trabalho dos atravessadores está encerrado ao custo de 4% sobre o valor da compra. A partir daí, começa outra etapa na rota do contrabando. Organizações criminosas oferecem batedores para auxiliar a viagem de contrabandistas pelas estradas do país.

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