A máfia que lucra milhões na internet

Roberto Alexandre
Terça-feira - 06/02/2007 - 01h26
Roberto Alexandre - 16/12/2006

Lojas de Ciudad del Este, no Paraguai,
local onde são compradas mercadorias
vendidas on-line

Araçatuba - Tudo funciona como num passe de mágica. Um simples toque no mouse do computador pode significar prejuízo no bolso e muita dor de cabeça a milhares de pessoas que utilizam a internet para comprar produtos, sobretudo de informática.

Muitas vezes, do outro lado, estão quadrilhas especializadas em crimes virtuais. São golpistas especializados em lucrar em cima da ingenuidade ou até mesmo do descuido do internauta que busca na rede mundial de computadores melhores oportunidades de compra. O problema é que, na prática, os consumidores dificilmente conseguem recuperar o que já pagaram.

O negócio é muito lucrativo, atrai cada vez mais criminosos ao mesmo tempo em que engana um número crescente de pessoas pelo País. De acordo com levantamento feito pela Polícia Federal, só na região de Araçatuba, território atualmente conhecido como o paraíso das empresas virtuais fraudulentas, lojas que vendem produtos pela internet lucraram nada menos que R$ 15 milhões apenas nos últimos quatro anos.

O número de vítimas espalhadas pelo País também é espantoso. A PF estima que ao menos duas mil pessoas tenham sido enganadas pela máfia dos sites estabelecidos na região de Araçatuba nesse mesmo período. Só para se ter uma idéia, nos inquéritos instaurados pelas polícias civil e federal, há vítimas de todos os Estados brasileiros. São pessoas que, atraídas pela oferta de equipamentos a preços bem aquém dos oferecidos pelo mercado, pagaram, mas não receberam os produtos.

O esquema milionário envolve uma rede criminosa que inclui empresários, comerciantes, contrabandistas, doleiros, laranjas, policiais corruptos e até integrantes da máfia chinesa.

Para desvendar esse mistério e mostrar como funciona a máfia das lojas virtuais fraudulentas, jornalistas da Folha da Região investigaram o esquema durante quase sete meses. O levantamento inclui desde a montagem de sites e a captação de laranjas em bocas-de-fumo até viagens na chamada rota do contrabando - desde Cidade Del Leste, no Paraguai, até Araçatuba, onde ficam os maiores depósitos de muamba da região.

Segundo o delegado federal Sérgio Henrique dos Santos Matheus, a máfia dos sites é uma das organizações criminosas que mais cresceu nos últimos anos no Estado de São Paulo e principalmente na região de Araçatuba. De acordo com ele, os golpistas até chegaram a bancar ou contribuir com campanhas de políticos conhecidos no Estado e no País. "É uma organização que cresce a cada dia, às custas de muitas pessoas de bem".

Conforme Matheus, esses golpistas vêm sendo acompanhados há três anos pela PF. Nesse período, dezenas de sites foram fechados. No entanto, ninguém ficou preso por muito tempo.

Mas o que fazer para deter a proliferação dos ratos da rede? Na opinião do delegado Matheus, a falta de uma legislação específica em crimes virtuais e a fragilidade de monitoramento de sites pela internet são o que, ao mesmo tempo, dificultam o trabalho da polícia e facilitam a ação de ladrões virtuais. A verdade, segundo ele, é que não há, pelo menos por enquanto, muitos mecanismos disponíveis para controlar a ação desses golpistas. Na opinião do delegado, a informação, por meio da divulgação de fatos desse tipo, e a precaução do usuário de internet são fatores que podem contribuir para minimizar o problema.

Vendas e crimes aumentam

Um fator que pode ser considerado negativo para a investigação da polícia e para os próprios consumidores do e-commerce e extremamente positivo para os mafiosos que atuam na rede é o aumento das vendas pela internet. No mundo inteiro, o setor somou R$ 1,75 bilhão só nos primeiros seis meses deste ano.

A estimativa da empresa E-Bit, especializada em pesquisas sobre o comércio virtual, é de que o faturamento total chegue aos R$ 4,3 bilhões até o fim de 2007.

Só nas vendas referentes ao Natal de 2006, o comércio via internet movimentou cerca de R$ 755 milhões em todo o Brasil. Esse número representa um aumento de 64% em relação ao ano passado, quando os brasileiros gastaram R$ 458 milhões em compras pela rede. "Essa expansão não deixa de colaborar com a atuação dos estelionatários que montam empresas virtuais e atraem consumidores com a intenção de dar golpes", observa o delegado federal Sérgio Henrique dos Santos Matheus.

Atualmente, 16 sites estabelecidos na região de Araçatuba estão na mira da PF. Os sites, que na maioria das vezes foram montados para tirar dinheiro do comprador virtual, tornaram Araçatuba e a vizinha Birigüi conhecidas em todo o País.

Há três anos, a região libera o ranking de reclamações de sites como o Reclame Aqui, no endereço www.reclameaqui.com.br, mantido por entidades de defesa do consumidor. Centenas de protestos de lojas situadas na região Noroeste do Estado de São Paulo foram protocolados no site somente em 2006. De acordo com a PF, a primeira loja virtual a se estabelecer em Araçatuba foi a Nikishop. A loja foi uma das campeãs de reclamações de consumidores de todo o Brasil em 2004, um ano depois de aberta.

Outras lojas, como Futura Computadores, Audy, Cyber e PCI Shop, também figuram entre as que mais causaram prejuízo e transtorno a clientes espalhados pelo País. "Essas empresas são conhecidíssimas em todo o território nacional", afirma o delegado. Em um único inquérito, que possui quase 800 páginas distribuídas em cinco volumes, consta o depoimento de mais de cem pessoas que foram lesadas só na região Nordeste.

Praticamente 100% das vítimas reclamam que não tiveram o produto pelo qual pagaram. Uma parcela mínima alega que recebeu produtos com defeitos ou trocados, com valor bem abaixo do que foi pago.

A operacionalidade dos sites fraudulentos é praticamente a mesma. Eles, geralmente, anunciam produtos de informática como notebooks, câmeras digitais, DVDs, aparelhos de MP3 com preços bem inferiores aos praticados pelas lojas físicas.

O internauta escolhe a mercadoria e é orientado a pagar com cartão de crédito ou a gerar um boleto bancário a partir do próprio computador. Depois de paga a mercadoria, os sites oferecem de 7 a 15 dias para a entrega do produto, via correio. Mas cuidado: em muitos casos, o prazo pode significar a eternidade.

Compras on-line

VANTAGENS

Não é preciso sair de casa para fechar o negócio.
Custo mais baixo para o lojista e preço menor para o cliente.
Lojas abertas 24 horas ao dia e 365 dias ao ano.
Facilidade para pesquisar preços e produtos.

DESVANTAGENS

Ausência de contato direto com pessoas.
Limitações do uso de alguns sentidos (olfato, tato, sabor) na experiência de compra.
Falhas de segurança de informações e invasão de privacidade.
Falta de familiaridade com computadores e internet para uma parte do mercado consumidor.

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