Alunos de escolas públicas se saem melhor nas federais, aponta Enade

Agência Estado | Quarta-feira - 10/10/2007 - 11h27

- Alunos de universidades federais que vieram de escolas públicas se saem melhor que seus colegas egressos do ensino médio particular na maioria das áreas avaliadas pelo Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). Esse resultado aparece em 53,75% dos cursos na avaliação que substituiu o antigo Provão, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais do Ministério da Educação (Inep/MEC). Entre eles, estão Jornalismo, Engenharia Civil, Química e Arquitetura.

Na maioria das áreas, a diferença entre a nota de alunos de escolas públicas e particulares é de dois pontos. No curso de Engenharia de Produção Elétrica, no entanto, são mais de 18 pontos entre o desempenho de um grupo e outro. O mesmo não acontece em áreas mais tradicionais, como Medicina, Direito e Administração, em que os estudantes das federais vindos de escola particular se saem melhor.

As notas no Enade vão de 0 a 100. A prova é feita tanto por estudantes no início dos cursos quanto pelos formandos. "Os melhores alunos das escolas públicas procuram as universidades de melhor reputação", diz o diretor de avaliação do Inep, Dilvo Ristoff, sobre o melhor desempenho do grupo em universidades federais. Segundo ele, essa prevalência não ocorre se forem consideradas todas as instituições - privadas e públicas - participantes do Enade.

Números do MEC mostram que 87% dos nove milhões de alunos do ensino médio no País estão em escolas públicas. No superior, os índices mudam e eles representam 45% dos estudantes. A maioria está em cursos de formação de professores, Letras, Matemática e Secretariado Executivo. Em Medicina, por exemplo, apenas 8,2% dos alunos não vieram de escolas particulares.

"As pessoas estão acostumadas a sempre pensar em escola pública como ruim e escola privada como boa, mas nem sempre é assim", diz a educadora da Universidade de Brasília, Regina Vinhais. Os colégios federais, por exemplo, são considerados os melhores do País e podem ter formado boa parte dos estudantes que se saíram bem no Enade. O MEC pretende, a partir deste ano, começar a perguntar no questionário socioeconômico preenchido pelos participantes que tipo de escola pública eles freqüentaram.

SENTIMENTO CÍVICO - Para o pró-reitor de graduação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Luiz Eugênio Mello, o aluno de escola pública demonstra também um sentimento cívico maior que o da particular. Isso, segundo ele, faria com que eles dessem importância e se dedicassem a um exame como o Enade, que não garante nenhum ganho pessoal.

Muitos estudantes costumam boicotar a prova e entregá-la em branco porque o desempenho não assegura a formatura - ela apenas ajuda a compor a nota do curso na universidade que eles freqüentaram. "Alguns estudos de ações afirmativas também já têm mostrado que o aluno de escola pública é mais esforçado", completa.

Ele se refere aos resultados da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), por exemplo, que mediu o desempenho acadêmico de alunos carentes e estudantes de escolas públicas ao ingressarem na instituição. O resultado foi que eles acabam se saindo melhor nas aulas e provas que os colegas vindos de escolas particulares. O estudo ajudou a fortalecer a iniciativa atual da Unicamp de dar pontos a mais no vestibular para facilitar o ingresso desse grupo na instituição.

Pesquisas sobre os beneficiados do Programa Universidade para Todos (ProUni), que oferece bolsas pagas pelo MEC para alunos pobres em faculdades privadas, também revelam resultados semelhantes.

Os números gerais do Enade - referentes a universidades privadas, federais, estaduais e municipais - mostram que os estudantes que vieram de escolas públicas se saem melhor do que os de particulares apenas em 15 das 80 áreas avaliadas. Uma delas, no entanto, é o curso de Medicina. Os resultados levaram em conta o desempenho dos alunos nos exames de 2004, 2005 e 2006.

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