Agressor é lobo em pele de cordeiro

Karenine Miracelly

Sábado - 21/10/2006

Valdivo Pereira
PERFIL Para promotor, agressor é uma pessoa de dupla personalidade

Lobos em pele de cordeiro. É assim que se portam os responsáveis por abusos sexuais contra crianças e adolescentes na visão do promotor da Infância e Juventude de Araçatuba, Lindson Gimenes de Almeida.

A comparação é inevitável. "Eles se misturam às ovelhinhas, fingem cuidar delas", diz. Por trás desse comportamento, esconde-se o verdadeiro algoz: em geral, o abuso sexual é praticado por alguém que a criança conhece, confia e ama, e que faz parte de seu convívio.

No papel de cordeiro, a vítima, muitas vezes, torna-se uma abusada passiva porque não encontra em ninguém do convívio familiar o apoio e a acolhida para falar sobre o caso e denunciar. Quando o abuso é descoberto, a Justiça não é austera e o lobo consegue que seu lado cordeiro se imponha para a opinião pública, perpetuando o círculo da impunidade.

"Lidamos com coisas muito pesadas", afirma o promotor, 38 anos, há 15 no Ministério Público. "Aparecem meninas grávidas de seus padrastos. Dá vontade de chorar." Os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes são numerosos, embora a sociedade em geral pouco saiba deles. "Os números nem sempre correspondem à realidade. Até um caso ser descoberto e denunciado, na média se passaram dois anos de abuso contínuo."

Segundo Almeida, o problema decorre de uma série de equívocos: a sociedade não tem preparo para denunciar a violência sexual doméstica; não há orientação de como fazê-lo anonimamente sem correr riscos; o algoz não é punido devido a lapsos da Justiça brasileira; os familiares das vítimas - e, às vezes, até elas mesmas - são ludibriadas pela face de cordeiro dos lobos e não exigem a punição.

Folha da Região - Como a Justiça e a sociedade conseguem desmascarar os lobos em pele de cordeiro?
Lindson Gimenes de Almeida - Da década de 90 para cá, avançamos muito em relação a conhecer o perfil do agressor e conseguir reconhecer características das vítimas. Tem agressor que cativa a criança. Ele é o pai perfeito. Entrega a criança na creche, busca-a depois, mas ao mesmo tempo tenta evitar ao máximo o contato com outras pessoas para não correr o risco de ser denunciado. Por isso, é comum as famílias questionarem depois que o abuso é revelado: "Nossa! Como? Ele era uma pessoa tão normal, tão amável."

O perfil do agressor inclui um desvio de sexualidade de caráter compulsivo e obsessivo?
O agressor é uma pessoa com dupla personalidade. Ele consegue manter a clandestinidade pelo perfil que adota de pessoa íntegra. Uma pessoa normal não tem nenhum tipo de desejo em ver outra pessoa implorando para não manter uma relação sexual com ela. O agressor só consegue sentir prazer a partir do momento em que ele percebe que está forçando a barra. Uma pessoa normal que entra em uma página de pedofilia na internet tem ânsia de vômito. Mas há pessoas que conseguem ter prazer, desejo. É um distúrbio pesado da personalidade. O agressor age de forma cínica quando é delatado. Todo agressor é cínico, hipócrita e frio. Ele reúne várias características ruins, é uma pessoa que não tem jeito. Não tem nenhum padrão de moral. Ninguém normal vai sentir prazer em manipular uma criança. O desvio sexual não é só a relação sexual efetiva da penetração. Inclui o comportamento de querer tomar banho com a criança. Às vezes, o agressor até nega uma má intenção, dizendo que é hábito da família, algo normal para ele.

Qual seria o perfil dos agressores nos casos registrados em Araçatuba?
O agressor sexual tem persuasão e sedução. É comum dizer para as vítimas: "se você contar, eu vou matar sua mãe, vou matar sua irmã, vou matar você e depois eu me mato". Ele é um terrorista emocional. Você é capaz de ter medo de qualquer agressor quando conversa com ele porque é uma pessoa extremamente sedutora. Ele cativa e se comporta como se fosse a melhor pessoa do mundo. Ele observa as pessoas o tempo inteiro. Tem agressor que é tão deturpado da moral e do caráter que é capaz de se envolver com uma mulher de 30 anos de olho na filha dela que tem 5. Daí para ele começar a manipular essa menina é um passo. Ele cria um vínculo de dependência psicológica e afetiva com a vítima até os doze anos para ser o primeiro homem da vida dela.

A Justiça tem feito seu papel para coibir a violência sexual doméstica contra crianças e adolescentes?
A Justiça brasileira, de forma geral, é extremamente machista, preconceituosa e favorecedora dos agressores sexuais, porque sempre coloca em xeque a palavra da criança, do vitimizado. Muitas vezes, a criança fala que até gosta do agressor, mas é preciso levar em conta que o algoz é um sedutor que a persuadiu. A criança gosta porque ele é sedutor. Temos casos de crianças de 12 a 13 anos que foram vitimizadas pelo padrasto e que ficam tristes ao saber que ele foi penalizado. Eles mantêm o comportamento mesmo ao serem punidos e mandam cartas, recados. Muitas vezes, vem familiar de crianças que foram vitimizadas sexualmente perguntar se ele vai passar o resto da vida na cadeia. É por causa disso que eles conseguem a impunidade. Uma das coisas que mais me frustra naquilo que eu faço é ver agressor sair ileso.

O senhor acha que a impunidade impera quando o assunto é violência sexual doméstica?
É mínimo o número de violentadores no sistema prisional. O sistema processual brasileiro é extremamente moroso. É muito difícil conseguir uma prisão preventiva. E quando isso ocorre, a Justiça solta. Sabe lá Deus por quê. A pena para esses crimes é ridícula. Ainda mais com a nova lei dos crimes hediondos, eles saem muito rapidamente da cadeia. É um problema extremamente complexo e a gente está engatinhando em fórmulas. Sou partidário que a pena para quem tem desvio de conduta em relação à sexualidade deva ser prisão perpétua. Uma pessoa dessas nunca vai ter recuperação. Não tem sistema prisional que a recupere. O agressor é uma pessoa que nunca mais deveria voltar ao convívio social.

Há alguma coisa sendo feita para reverter essa situação de impunidade?
Hoje, a gente trabalha numa corrida contra o tempo. Eu tenho muita esperança de que a gente vai conseguir meios seguros para uma conscientização das pessoas que podem delatar os casos de violência sexual, mas não o fazem por medo. O delator precisa ver o resultado da delação. O sistema está em descrédito pela impunidade dos agressores.

Como a sociedade pode combater esse crime?
Isso depende de muita gente: de professores nas escolas, do médico e da atendente do posto de saúde, do vizinho. Mas, antes de tudo, essas pessoas precisam se sentir seguras de que o agressor será punido e que não vai estar na porta da escola ou do posto de saúde dali a dez meses, por exemplo. Os pais devem ficar de olho em professores, donos de lan house, etc. Não estou estigmatizando certas profissões, mas são pessoas que têm mais contato com crianças. Houve um caso de um professor de Educação Física que fazia uns dez exames biométricos por ano. Ele mandava as crianças tirarem a roupa na sala de exame. Toda vez que uma criança contar um caso assim em casa, é preciso denunciar.

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