A menina que foi sexualmente abusada pelo pai conta para as psicológicas e assistentes sociais como ocorreu a violência. Para reduzir o trauma de ter que relembrar uma situação extremamente delicada e, ao mesmo tempo, relatar a violência sofrida de forma espontânea - o que é importante inclusive para punir o algoz -, são utilizados bonecos que representam uma família.
É assim o atendimento prestado pelo Programa Sentinela, implantado em Araçatuba desde 2001 graças a uma parceria com o governo federal. Os bonecos são sexualizados: têm genitais, seios, roupas íntimas como calcinhas, sutiãs e cuecas, e são vestidos como se fossem pessoas de verdade.
Parecer verdade é, de fato, a intenção. Mas sem perder o espírito lúdico que os brinquedos trazem. No Sentinela de Araçatuba, há uma brinquedoteca onde os bonecos ficam acomodados para uso nos atendimentos às vítimas de abuso sexual e nas sessões de avaliação psicológica. Com eles, as crianças podem brincar e demonstrar, de forma espontânea, a violência sofrida.
"Os brinquedos são ideais quando as vítimas da violência sexual têm entre 2 e 5 anos, quando a expressão verbal não é muito apurada", explica Lucy Aparecida Magalhães, coordenadora do programa. "Os bonecos reconstituem o ambiente familiar: temos o menino, a menina, a mãe, o pai, a avó. Há outros bonecos, sem a sexualização. Também utilizamos casinhas de boneca que reconstituem o ambiente familiar."
Vinculado à Secretaria de Ação Social, o Sentinela busca resgatar os direitos fundamentais garantidos pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o fortalecimento da auto-estima das vítimas, o restabelecimento do direito à convivência familiar em condições dignas, etc. Além do atendimento no Sentinela, as vítimas recebem encaminhamento para outros órgãos, como Caica (Centro de Atendimento Integral à Criança e Adolescente) e casas de abrigo a menores socialmente desassistidos.
A equipe do Sentinela em Araçatuba é composta por dez profissionais: uma coordenadora, uma advogada, duas psicólogas, duas assistentes sociais, duas auxiliares sociais, uma recepcionista e um motorista. A advogada do Sentinela, por exemplo, acompanha as crianças e adolescentes que são vítimas de violência em audiências com juiz a fim de deixá-los seguros.
A equipe atua em conjunto com os conselheiros tutelares. As vítimas de violência doméstica, incluindo a sexual, são encaminhadas ao órgão pelo Conselho Tutelar, DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) e Poder Judiciário. Juntas, todas essas instâncias formam uma rede de proteção dos direitos da infância.
ATENDIMENTOS - Desde outubro de 2001, quando começou a atuar em Araçatuba, o Sentinela atendeu 308 vítimas de violência sexual, sendo alguns casos não confirmados. Neste ano, entre janeiro e agosto, foram 35 casos atendidos.
A maior incidência de violência está na faixa etária de 7 a 14 anos de idade, sendo que a maioria dos agressores é desconhecida pelas vítimas, seguidos por vínculos mais familiares, como genitores, padrastos e vizinhos. "Na maioria das vezes, o abusador é pessoa que a criança conhece, confia e muitas vezes ama", afirma a secretária de Ação Social de Araçatuba, Therezinha de Faria Maluly. "O abusador, geralmente, não usa de força bruta, mas sim de conversa."
O programa atende vítimas de outros tipos de violência. Ao todo, desde que começou a atuar em Araçatuba, o órgão atendeu 849 casos de violência contra menores em diferentes modalidades (física, psicológica, negligência, etc.).
Pais, familiares e professores podem colaborar com a prevenção do abuso sexual. Trata-se de uma tarefa simples, que pode ser incluída nas conversas do dia-a-dia. O importante é repassar regras de conduta tão naturais quanto as orientações para atravessar a rua e evitar acidentes. Confira:
Eduque a criança ou adolescente a zelar pela sua própria segurança e oriente-as a perceber más intenções mesmo em relação a pessoas conhecidas e íntimas.
Peça para a criança ou adolescente se afastar de qualquer pessoa que tente tocar seu corpo em segredo e contar para algum adulto imediatamente sobre o ocorrido.
Ensine que o respeito aos adultos não representa obediência total à sua autoridade e que as crianças e adolescentes podem rejeitar realizar aquilo que não as fazem se sentir bem. Essa situação abrange, inclusive, familiares ou adultos próximos, que cuidam das crianças e ou adolescentes.
Determine que a criança não deve aceitar favores, dinheiro ou convite para qualquer atividade por parte de pessoas estranhas.
Procure conhecer os amigos, principalmente os que são adultos, das crianças e adolescentes de sua família ou de sua sala de aula.
Se não for possível manter as crianças e adultos sob a supervisão de um adulto por todo o tempo, ensine-as a ficarem juntas explicando as vantagens do companheirismo.
Valorize positivamente as partes íntimas do corpo de uma criança e explique que o contato de outras pessoas com esses órgãos não é comum.
Se a criança for muito pequena para conversas sobre assuntos sexuais, o adulto deve simplesmente explicar que não é correto tocar nos órgãos genitais (é recomendável colocar apelidos carinhosos) de forma a deixá-la incomodada e não permitir que isso seja contado a outras pessoas.
Fonte: Abrapia (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência)
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