Meninas são as vítimas mais freqüentes de agressão sexual

Karenine Miracelly

Terça-feira - 17/10/2006

As meninas são as vítimas mais freqüentes da violência sexual cometida contra crianças e adolescentes. No primeiro semestre deste ano, o Conselho Tutelar de Araçatuba notificou seis casos de violência sexual contra menores na cidade. Do total de vítimas, cinco são do sexo feminino. No mesmo período do ano passado, o órgão notificou nove casos de violência sexual, sendo que sete foram praticados contra meninas.

A tendência do sexo frágil ser o feminino não é apenas local. Dos casos de violência sexual notificados pelo Lacri (Laboratório de Estudos da Criança), do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), 75,9% foram cometidos contra meninas. Somente no ano passado, o laboratório diagnosticou e acompanhou 2.129 casos de violência sexual contra meninas.

O número cresce a cada ano, mas não é possível utilizar esse dado como comprovação de que a violência sexual contra crianças e adolescentes aumenta gradativamente, visto que é necessário levar em consideração que as maneiras e os órgãos responsáveis pelas notificações e acompanhamento dos casos se especializaram com o decorrer do tempo, sobretudo a partir de 1992, quando o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

A quantidade de casos pode assustar. Mas o que ninguém imagina é que eles são subnotificados, visto que há casos que se repetem durante anos e nunca são denunciados aos órgãos de defesa da criança e do adolescente porque as famílias ou a própria vítima têm medo do algoz.

O conselheiro tutelar Sérgio Rapozo Calixto ressalta que os dados notificados sempre são uma pequena parte do que realmente acontece. "É o que chamamos de 'complô do silêncio', protagonizado por pessoas que praticam a violência ou que sabem desses acontecimentos", analisa. "Embora saibam, não fazem nada de maneira que a violência fica restrita às 'quatro paredes', ou camuflada de várias formas sem que ninguém a denuncie ou tome as providências necessárias."

Embora a violência sexual não seja a única modalidade notificada e acompanhada pelo Conselho Tutelar de Araçatuba e pelo Lacri, ela é a mais preocupante. Dos 95 casos de violência contra crianças e adolescentes notificados em Araçatuba no primeiro semestre deste ano, apenas seis referem-se à modalidade sexual. A violência física lidera o ranking de notificações, com 55 casos (27 contra meninos e 28 contra meninas).

Mesmo assim, a violência sexual ainda chama mais atenção porque é considerada a mais cruel. Calixto explica que essa modalidade de violência reúne alguns fatores que a tornam a mais sádica: não aparece diretamente; as vítimas têm medo de denunciar porque são coagidas psicologicamente; várias mães são negligentes e não denunciam seus próprios companheiros, líderes no ranking dos algozes.

"A sociedade tem que entender que uma criança é como uma folha em branco que a cada momento imprime as marcas da vida que jamais serão apagadas", compara. "Portanto, quando uma criança é vítima de violência, estamos ensinando a ela que esse comportamento é o correto e o que deve prevalecer. Aí está a resposta para a pergunta que muita gente faz: por que a violência aumenta a cada dia?"


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Info gráfico

Depois do abuso

Os pais, familiares ou professores que verificarem sinais de abuso em crianças precisam tomar cuidado com suas atitudes para não traumatizar ainda mais a vítima. Confira algumas orientações:

Incentive a criança a falar livremente sobre o abuso, sem externar comentários de juízo.

Demonstre compreensão e seriedade acerca da angústia da vítima. As crianças e adolescentes que encontram quem os escuta com atenção e compreensão reagem melhor do que aquelas que não encontram esse tipo de apoio.

Assegure à criança que fez muito bem em contar o ocorrido pois, se ela tiver uma relação muito próxima com quem a abusa, normalmente se sentirá culpada por revelar o segredo ou com muito medo de que sua família a castigue por divulgar o fato.

Enfatize que a criança não tem culpa pelo abuso sexual.

Informe as autoridades qualquer suspeita séria de abuso sexual.

Consulte imediatamente um pediatra ou médico de família para atestar a veracidade da agressão. Se o abuso for real, o exame médico poderá avaliar as condições físicas e emocionais da criança e indicar um tratamento adequado. Também é importante submeter a criança a uma avaliação psicológica para averiguar os efeitos emocionais da agressão e a necessidade de ajuda profissional para superação do trauma.

Fique atento aos sinais concretos de abuso. Ainda que a maior parte das acusações de abuso sejam verdadeiras, pode haver falsas acusações em casos de disputas sobre a custódia infantil ou em outras situações familiares complicadas.

Os pais devem deixar claro que a raiva que sentem quando ficam sabendo do abuso é em relação ao abusador e não à vítima. Isso é fundamental para ajudar a criança ou adolescente a superar o trauma.

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