Gabriela (nome fictício), 7 anos, ainda brinca com bonecas, como qualquer outra criança de sua idade. O comportamento e o jeito de falar comprovam a infantilidade da menina e ajudam a esconder um segredo que apenas os órgãos ligados à proteção dos direitos da criança e do adolescente em Araçatuba sabem: ela já foi vítima de abuso sexual.
A situação, adversa para pessoas de qualquer idade, desperta mais sentimentos de repulsa quando se leva em conta o fato de que Gabriela foi violentada várias vezes antes dos 6 anos. E pior: o crime ocorreu dentro de sua casa e foi cometido pelo padrasto, Sílvio (nome fictício).
A menina morava com a mãe, o padrasto e um irmão mais novo em uma casa de dois cômodos em Engenheiro Coelho, na região de Campinas. Sob efeito de bebidas alcoólicas, o padrasto abusou sexualmente da menina. Segundo os relatos de Gabriela aos órgãos de defesa da criança, o abuso foi por meio de sexo oral, masturbação e contato físico com os genitais, sem, no entanto, haver penetração vaginal.
O crime, caracterizado como atentado violento ao pudor, ocorreu várias vezes, segundo depoimento de Gabriela prestado à DDM (Delegacia de Defesa da Mulher). Tudo era feito em casa, na ausência da mãe. A menina nunca soube precisar quando o assédio começou e quantas vezes o crime foi repetido.
Gabriela disse que, em determinada ocasião, sua mãe "viu um pouquinho, ficou brava e bateu no Sílvio de pau, na cabeça." Ao ser atendida pelo Programa Sentinela, a menina fez uma revelação transcrita no relatório do atendimento: "a mãe falou para eu não contar para ninguém. Ou ela me levaria para bem longe, mas antes me daria uma surra."
O documento informa que a mãe de Gabriela qualificou-a como "sem-vergonha" e acusou a menina de "ter provocado" sexualmente Sílvio.
A CAMA - Inicialmente, o atentado foi revelado por Gabriela a uma psicóloga de Araçatuba. Ela começou a freqüentar o consultório em setembro do ano passado, por indicação escolar e médica, visto que apresentava medo ao dormir à noite, ansiedade excessiva, comportamento inadequado na escola e dificuldade em se relacionar com outras crianças. Todos os sintomas eram ligados ao trauma vivido pela garota na casa de dois cômodos em Engenheiro Coelho.
A psicóloga assustou-se com os desenhos feitos pela garota, que insistia em retratar uma cama. Quando era solicitada a contar o que o móvel representava, ela repetia insistentemente: "ele vem vindo".
Mas não dizia quem era a pessoa que iria aparecer na cama e que a aterrorizava tanto. A psicóloga também descobriu que Gabriela não gostava do padrasto.
O motivo era, segundo ele, as "brincadeiras" que ele fazia e que a desagradava. Brincadeiras porque era assim que Sílvio denominava o atentado para conseguir a conivência da vítima. Mas, na verdade, Gabriela era vítima de um crime.
A psicóloga chamou a madrasta da menina e a orientou a procurar a DDM para fazer um boletim de ocorrência. Na delegacia, Gabriela prestou depoimento e confirmou o que seus desenhos nos atendimentos com a psicóloga denotavam: o abuso sexual.
Um relatório do programa Sentinela também confirmou o crime: "Quanto à vitimização, podemos confirmar sua ocorrência em forma de atentado violento ao pudor. Para tal afirmação, foram levados em conta que os relatos referentes a esta vitimização foram fiéis desde o início dos atendimentos, garantindo, assim a veracidade dos fatos, principalmente os apresentados pela criança. Soma-se a isso o fato da mesma estar apresentando algumas características típicas de criança vitimizada, como ansiedade, regressão afetiva, medo e desejo de afastamento do ambiente familiar, local da ocorrência da vitimização."
À equipe multidisciplinar do Sentinela, Gabriela demonstrou como ocorria o abuso. Para facilitar o relato sem, no entanto, expor à criança à lembrança de uma situação traumatizante, o Sentinela usa bonecos sexualizados. Foi com a ajuda deles que Gabriela revelou como era o crime, tratado com o eufemismo brincadeira por Sílvio.
REPULSA - "Minha reação e a do meu marido foi de muita revolta e raiva", afirma Zélia (nome fictício), madrasta de Gabriela. "Naquele dia, se eu encontrasse o Sílvio, eu tenho certeza que teria acontecido o pior."
Zélia se emociona ao lembrar a história e mostrar à equipe da Folha da Região documentos dos órgãos de defesa da infância que atenderam Gabriela. Enquanto a madrasta chorava no sofá da sala de sua casa onde atendeu a reportagem, Gabriela corria pela casa mostrando bonecas e cadernos da escola, como uma criança normal.
Hoje, Gabriela mora com o pai e a madrasta em Araçatuba. Para tentar se livrar dos fantasmas criados pelo abuso sexual ao qual foi submetida, a menina faz terapia em grupo com o Projeto Sentinela, programa mantido pelo governo federal em parceria com a Prefeitura para atender crianças e adolescentes vítimas de violência.
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