Yara Pedro Carvalho é presidente da Academia Araçatubense de Letras

Yara Pedro Carvalho: Amor

Tão desgastada esta palavra, colocada em textos ou mesmo romanceada em telenovelas que nada acrescentam de bom para quem já está viciado neste tipo de distração! Amor é respeito pelos outros e por nós mesmos, pelo mundo que habitamos e tudo mais nele existindo! 

Onde ficou o respeito por Mariana e cidades igualmente arrasadas pela gula de ter mais? Onde está o respeito pela falta de saneamento básico que só cria armas naturais e letais como o Aedes aegypti? Os casais não buscam mais este sentimento para formar um lar que será família um dia! A TV ensina que a entrega imediata de um corpo para o outro é sinônimo de amor. Nunca foi e nunca será. Não escolhem horário para ensinar o errado. Emburrecer tem sido o lema dos programas da TV e agora é moda um batalhão de cozinheiros (e se combate a obesidade!!) e programas de brincadeiras sem quaisquer utilidades, feitos exclusivamente para adultos anencéfalos, onde o ridículo é moda e é bonito. 

Mas, tudo pode, hoje! Como é possível dizer que o amor dispensa o indivíduo de ser respeitado?! Decidi, ou melhor, fui convencida pela minha netinha de que o melhor é ver desenhos na TV e que não é qualquer um que serve também. Escolhe a dedo alguma série onde impera a leveza da graça, onde interagir com imitações é um jeito novo de brincar também. Já nos seus poucos cinco anos nos dá lições claras de que amar é muito mais que se atracar. É muito mais que engolir o “beiço” do outro, é muito mais que dar casa, cama e comida! 

Fico arrepiada quando leio textos de amor!!! E é de raiva. Cuidado, responsabilidade dentro e fora de casa é querer muito o bem dos outros. O amor não pode ser cobrado, tem que ser sentido pelo tanto de respeito que nos é dado e damos também. Doação constante para um mundo onde o horizonte pode ser visto lá longe!!! 

Emporcalhar o lugar onde se mora ou mesmo a cidade toda, é mau sinal de querer bem. É o desamor em doses imensuráveis, pois espalha o verme, o germe, a bactéria, o vírus materializado na sujeira do lixo não cuidado e hoje temos muitos meios de espalhar menos o mal com tanta propaganda no pouco de bom que a TV leva para casa. Quem não tem um aparelho de televisão? Difícil achar uma família que ainda não tenha! Na verdade tudo é mais fundo, é a falta da educação desde o berço. 

O amor é o cuidado consigo e com os que estão neste mundão de Deus. Qualquer um não serve para ser o escolhido para uma união que tem a pretensão de ser “por amor”. Qualquer um não saberá colocar a roupa suja no lugar certo para ser lavada, nem trará sujeira de alma para espalhar desgosto pelo espaço que deveria ser lar. Nem um qualquer conseguirá levar, para sempre, sua sujeira para debaixo de um tapete persa, por mais que possa ter um. 

Na faxina da vida, alguém levantará a ponta dele e o cheiro podre da alma esfarrapada deixará escancarado o mal que ali habita. Mas... fala de amor e em nome dele mente, fedendo mais; trai, se mostrando pior; mata, e nem percebe que a arma usada foi o amor que só foi dito mas nunca sentido. 

Amor é respeito, cuidado e nada mais. É olhar nos olhos do outro e com tanto brilho que a palavra se torna dispensável. As pupilas se entendem, se buscam e o sorriso vem fácil como vem o canto dos passarinhos. Prefiro hoje que me seja dito que me querem bem e não que me amam, porque isto é sério demais e ficou banal da mesma forma. Querer bem é leve como espuma de banho cheirosa, é cuidado com delicadeza de alma infantil, é como água fresquinha da fonte com sabor e temperatura no ponto. Querer bem, que mal tem?

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