Yara Pedro Carvalho é presidente da Academia Araçatubense de Letras

Yara Pedro Carvalho: Ai, como dói!

Pela manhã, minha gata se deita ao meu lado e espera meu sono ficar completamente utilizado e, só aí, me diz que ela também quer seu café da manhã e que respeitou meu acordar, livre do tempo contado pelo tic tac do relógio. Já não preciso dele para tarefas obrigatórias, mas não o desprezo. Fica mais fácil ocupar todo tempo que tenho para fazer o que eu quiser e, se olhar para ele, às vezes, posso buscar com a imaginação cada pedacinho de mim espalhado pelo Brasil afora. 

Mundo afora também porque recebi o presente de conhecer além do meu nariz brasileiro, sempre custeando meus sonhos de ver a olho nu as belezas de terras distantes. Meu pensamento segue a rotina bruta do caminho apertado na São Paulo embrutecida, onde comecei este caminho doido e lindo das viagens. 

Sempre entre um trabalho e outro. Sempre começando pelo trabalho e de lá, um passo maior para irmos além. Nesta doidice do ganho andam meus filhos que vão e voltam do trabalho e os netos, que permanecem em São Paulo. Estão na fase de preparo para a concorrência na vida ou realização dos sonhos e ficam mais apertados ainda quando a busca pelo viver melhor já é por conta deles. 

Um deles, netinho, Mateus, é apaixonado por carrinhos e interage com eles, miniaturas lindas, colocando-os em filas intermináveis, fazendo com que se movimentem lentamente! Por que brinca desta maneira?!!! Vem a hora do aperto no meu peito e da pergunta de quem já viveu isto e (em tempos melhores) mas não encontra resposta. Para quê?! São jovens de quarenta anos envelhecendo mais que meus quarenta antigos!! E como são antigos!!! Um dos meus rebentos, o primeiro, é mais envolvido com tudo que vive e mais angustiado muitas vezes com a busca interminável da razão pela razão. 

O outro, que corre junto com o primeiro, buscando estar de bem com o que escolheu para ter uma vida digna e em casa compartilhar na tarefa de criar sua cria da melhor maneira possível. Não busca respostas atropeladas ou filosóficas. Busca praticidade com alegria. Tem tempo para tudo e para todos e para si mesmo também. De repente a minha garota tão eficaz e sonhadora com uma família bem fortalecida, sai porta fora e carrega nossa garotinha para um lugar lindo de viver, não fosse tão longe! 

Como uma ferida recém-aberta e que quer sangrar a qualquer custo abafo a dor com um sorriso tão falso que de bálsamo nada tem. Mas ela tem que ter coragem e força para prosseguir. Não disse à ela que foi sua chegada que me segurou mais viva, ativa, lutadora e que se o ninho não foi desmanchado pelo furacão que nos ameaçava foi porque ela estava ali, ainda pequena para voar sem penas. E eu não confessei todos meus medos! Só abri as asas e soltei as amarras confiando no melhor para elas. 

Agora, mesmo mais frágil, vou mantendo a aparência das asas de águia prontas para abrigá-los sempre. Posso afirmar que abrigarei filhos, netos e agregados, sempre. De perto ou de longe, alçarei voo para protegê-los, doa a quem doer, se preciso for. Se não for no voo, será no grito, espantando agruras dispensáveis para quem só aprendeu a ser gente do bem. 

Ai, como dói não estar perto!!! Como dói empurrar (bem devagarzinho) para o próximo voo, quase sem rumo ou certeza dele. Só um propósito permite este momento: não somos eternos, nossos bicos em breve não triturarão a caça para alimentá-los, então, caçarão sozinhos, como nós o fizemos também. Só ELE na causa!!!

LINK CURTO: http://tinyurl.com/ycruw94d