Anizio Canola é membro da ALL (Academia Araçatubense de Letras)

Anizio Canola: Voar alto demais

Revejo o post card que recebi dela, dos Estados Unidos. Cartão-postal que me deixou todo orgulhoso. E feliz... Aline gostava de usar esse tipo de correspondência. Estampa belíssima. Vista de Malden (ou Denver? Nunca fui lá...) banhada pelo oceano. A precisão geográfica não é o meu forte. Significado, sim. Entendi logo. O pôr-do-sol romântico, a enseada coalhada de pequenas embarcações. Um cenário distante para mim, porém tudo aquilo falava por Aline. Que temporariamente ali vivia. E com certeza, pensava em mim.

A comprida ponte que ligava a orla marítima ao seu bairro, parecia-me tão conhecida, bem real mesmo. Por sinal, eu me sentia caminhando ao lado dela, pelas ruas cheias de histórias, que restrito espaço da gravura permitia ver. Devaneava, a ponto de poder testemunhar seu contentamento, ao posar na monumental entrada da Universidade de Harvard. Seu antigo sonho. Seria no mesmo lugar? Importante mesmo que coisas assim aconteceram. Como a neve, que impedia o livre acesso à sua moradia. Ela, depois, me falaria detalhadamente de tudo isso. 

No postal, não há sinal de neve. Mas certamente, Aline, remeteu-me uma cena de Malden (ou seria Denver?...), sabendo que eu gostaria de estar ali, com ela. Ainda que fosse só dessa forma... No verso, letras firmes. “Longe é um lugar que não existe”. Desde que lhe dei o livro de Richard Bach, de igual título, nunca mais ela se esqueceu dessa expressão tocante. E a repetia sempre que nos distanciávamos. Aliás, tal obra está eivada de citações inigualáveis de O Pequeno Príncipe. “Se pensamos em alguém que amamos, mesmo distantes um do outro, já não estamos lá? Milhares de quilômetros pouco significam. Não há distância que nos separe...”. Esta última frase, será que eu, enlevado, acrescentei? Ora...

Nas asas da imaginação, voei alto. Estive com ela quando, numa criancice admirável, sentou-se no trono de Papai Noel da loja de departamentos. Envergando pesados agasalhos, fomos retratados em locais nevados. E noutros pontos incríveis, típicos de primeiro mundo... No cartão, ela disse mais. “To: My Love. Espero que tudo esteja bem com você. Comigo, tudo ótimo. From: Aline”. Palavras lindas. Que fizeram aumentar a expectativa pelo retorno de pessoa tão especial...

Estará mesmo, a felicidade, num mero plano de voo? Como lograr a certeza da ventura almejada? Como conduzir as coisas, de maneira a resultar numa eterna alegria? As coisas são como são. E podem mudar. Como o vento...

Em certa primavera, Aline convidou-me a voar. Buscar no espaço, a tranquilidade que inexiste cá embaixo. Interessei-me inclusive por paraquedismo, jamais havia me aventurado dessa maneira. Seu argumento decisivo, “O arco-íris brilhará para nós”. Momentos maravilhosos no ar. Ou nos sonhos, consoante suas próprias palavras: “No colorido dos sonhos, surgem os raios dourados do sol...”. Arroubos de sentimentos. Na gostosa escalada da paixão. E: “Nunca esqueça. Você é importante...”.

Aline regressou. Voo internacional. Das terras longínquas, alvo da minha saudade. Diferente, senti logo. Agora, de novo perto de mim. Mas jamais estivemos tão distantes. Disse que estranhou meu entusiasmo. Não ser alegre na sua volta?! Não deu para entender... Uma frase solta no ar. “Estávamos voando muito alto!”.

Não tentei compreender a mensagem cifrada. Na primavera ela não tinha medo de altura. E levou-me acima das nuvens, numa aventura aérea fantástica. Se Aline agora sofre de vertigem por causa da altitude, tudo bem. É sinal que nosso voo já não mais vale a pena. Decolarei para outros campos. Sentindo o vento no rosto, lá em cima. Como nos bons tempos, em que ela e eu éramos nós...