Vladimir Vitoriano da Silva é gerente de contratos e dirigente no Centro Espírita Benedita Fernandes, em Araçatuba

Vladimir Vitoriano da Silva: Caídos – e levantados – na estrada

Antônio, natural de São Paulo (SP), 57 anos, é um dos novos filhos de Benedita Fernandes. Chegou a Araçatuba em 18 de abril de 2017 – data dos 160 anos da Doutrina Espírita – pela Reforma Psiquiátrica, após 37 anos de internação, família desconhecida, somente com as roupas do corpo, em condições precárias de saúde e higiene.

Tinha uma infecção intestinal gravíssima. Usava fraldas geriátricas. Se locomovia em cadeira de rodas na maior parte do tempo ou amparado por alguém. No dia 6 de maio, em Araçatuba, no lançamento do livro “Benedita Fernandes. A Dama da Caridade”, o biógrafo Antonio Cesar Perri de Carvalho relatou que colhe diversos testemunhos do trabalho atual realizado por ela – Espírito. E que, nos 70 anos da desencarnação (próximo dia 9 de outubro), continua agregando filhos e filhas a sua já incontável prole. O nome dela liga-se diretamente à assistência social e psiquiátrica: o último dia 6 de março marcou os 85 anos da Associação das Senhoras Cristãs, fundada por ela e que a tornou pioneira na área.

Antônio é um dos moradores da Casa das Violetas, uma das duas unidades de Residência Terapêutica (RT), abertas recentemente em parceria com o Poder Público Municipal. Trabalho técnico intensivo está sendo feito com amor por equipes do Caps III (Centro de Atenção Psicossocial) e das RTs, articulado à Rede de Atenção Psicossocial, aonde passou por exames clínicos e foi inserido em atividades de inclusão social.

Hoje, ele não precisa de cadeira de rodas e se locomove sozinho. Não usa mais fraldas. Faz caminhadas. É prestativo e colaborador. Na Casa das Violetas, ajuda na limpeza, lava louças. Gosta de passear. Está desenvolvendo a autonomia e o sentimento de pertença ao seu novo lar. Ama dançar. Tem um sorriso fácil e alegre. Reviveu.

Quem o vê agora não imagina que chegou cabisbaixo, sem perspectivas, praticamente sem vida. Contudo, argumentarão alguns que os profissionais não fazem mais do que a obrigação, pois são remunerados para isto. Porém, não esqueçamos de que, de onde ele veio, também há profissionais remunerados. Amor – pelo trabalho, vida e próximo – é o que temos a mais.

Na parábola do “Bom Samaritano”, os considerados incluídos na sociedade desviaram – o Levita e o Sacerdote – para não socorrer o caído na estrada. Mas, o excluído Samaritano o fez. E Jesus termina a parábola: “Vai, e faze da mesma maneira”. Benedita fez – oficialmente entre 1932 e 1947 – e continua a fazer, acolhendo os caídos. Na parábola, a estrada é a de Jerusalém para Jericó; aqui, é a estrada social. Antônio é um entre tantos outros que estavam caídos nesta estrada, que foram e continuam sendo levantados.

Benedita – no dia 27 de junho “completaria” 134 anos de nascimento – é “alguém” que se reinventou e continua atuando, mesmo sem braços físicos, mas com nossos braços de encarnados, cedidos em favor da sementeira do bem, iniciada em condições de exclusão social. Ela praticou e nos deixou como legado esta filosofia evangélica, que norteia nossas ações. E, claro, motivações para viver e a levantar nas estradas...

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