Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Ser e não ser, eis a questão

Por certo, no geral, depois que se recolheram na caserna, controlando os "surtos revolucionários" anticomunistas, os militares devem estar se divertindo saborosamente perante o que vimos vivendo no pós-ditadura militar de 64.

Convencidos (ou convictos) de que a pátria estava à beira de se tornar uma imensa Cuba ou coisa semelhante, golpearam e fizeram o que fizeram. Décadas depois, outra vez convencidos (ou convictos) de que os estragos gerais foram muito maiores do que os presumíveis acertos, compreenderam que passava da hora de enfiar a espada na bainha e reassumir o lugar de instituição de defesa nacional. Ou, versão militar edulcorada, o País estava reabilitado. O grande perigo dissipado. Não havia mais necessidade de regime de exceção, logo, os civis, lição aprendida, poderiam retomar o exercício de governar a nação.

O sistema democrático representativo, por fim, se restabelecera. Claro, não seria assim, de mão beijada. A pátria amada precisaria se orgulhar de alguns feitos. Daí a euforia e disforia das "Diretas já", os dramas vividos com a eleição indireta de Tancredo Neves e, finalmente, o recomeço de uma governabilidade civil, democrática, legalizadamente representativa, ainda que tendo como presidente da República aquele sabido e sobejamente conhecido político maranhense José Sarney.     

E o governo Sarney se fez como se viu. Achando que dispunha de pouco tempo para "reabilitar" a casa, esticou-se para um mandato de cinco anos. Se por um lado, aos trancos e barrancos, como sói acontecer com um país vinte e tantos anos depois de um regime ditatorial militar, as instituições democráticas foram se recompondo, por outro, a maldita cuja inflação atingiu a casa do milésimo por cento. A tal escassez de alimento e outros bens vivida agora pela Venezuela, nos remete àquele período.

Purgado Sarney, veio Collor. É exatamente aqui onde começamos a ser iludidos de que a corrupção, e não o fantasma do comunismo, era a devastação do País. Ela, a grande causa da endêmica pobreza e miséria, das doenças crônicas, do enraizado analfabetismo e baixíssima escolaridade, das vultosas disparidades de ganhos e salários, das vergonhosas moradias de barracos e palacetes.

O candidato Collor ousara denunciá-la. A corrupção tinha identificação concreta. Chamava-se marajás. O paladino Collor na presidência iria acabar com eles, restabelecendo a justiça e minimizando a desigualdade. Pois bem. Os marajás continuaram marajando e o governo do marajá Collor sequestrou a poupança de toda a população, dentre outras, para ficar com um célebre caso.

O Real, domador da inflação, do transitório Itamar Franco, elegeu FHC, que, durante oito anos, foi remediando as coisas entre ser menos Estado e ser mais mercado. Isto o estigmatizou de neoliberal. E o seu segundo mandato viu voltar fortemente o bicho inflação, cujo desaparecimento o havia eleito e reeleito.

Isso tudo fez com que Lula, finalmente, fosse a bola da vez. O seu bem-sucedido primeiro mandato fê-lo ser bem-visto pelo mundo, recebendo do presidente do EUA a alcunha de "o cara". Inflação novamente na rédea, bolsa-família e salário mínimo real transformando a chamada classe C. Diminuição da fome; condições para que os mais pobres pudessem ter mais fácil acesso às universidades.

Mas aí veio o "Mensalão". Os variados mecanismos de corrupção, com a participação direta da classe política, foram desmascarados. De então em diante, a revelação de seus desdobramentos varou o segundo mandato Lula, alastrando-nos nos mandatos de Dilma, agora na forma denominada "Lava-Jato", e resultando no impedimento do governo desta e na atual situação crítica que todos sabemos bem.

O curioso nisso tudo é que antes, lá em 1964, intervieram os militares com a alegação de que "salvavam" a pátria do bicho papão, o comunismo/socialismo. Democracia restaurada e em vigor, eis que surge novamente a "polícia", desta vez, a Federal, também com intenção salvacionista e aclamada pelo povo. Novamente os políticos, o sistema político como os grandes responsáveis. Por certo os militares, à socapa, estão rindo muito.