Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Sempre é tempo de ver

Embora seja um desejo do presente, o futuro é sempre uma incógnita. O presente não era ontem, quando o planejávamos e o pretendíamos como o futuro. Afinal, o passado, o presente e o futuro estão em nós, não no tempo. O tempo é. Nós fomos, somos, mas acabaremos não sendo.
 
Assim, o pássaro que miro no galho do cajueiro daqui da minha janela. Um colibri que ali está em sossego, para meu espanto, já nem sei mais há quanto tempo. Pasmo, recorro à memória, com a qual insisto em me fazer lembrar de ter visto alguma vez algo semelhante. Categórica, ela firma pé em negar-me o que lhe requeiro.
 
Estes meus olhos, já nada moços, há muito que lidam com esse ato de olhar e ver os feitos de muita ordem de coisas. Uma das que lhes são caras é justamente ver os pássaros. Tanto os que lhes vão ao quintal quanto os que vão em outras localidades em que compõem a paisagem. 
 
Quantos colibris vi e tenho visto. De alguns tamanhos. Três ou quatro tamanhos diferentes. A quase absoluta totalidade dos que guardo e a memória me libera está a voejar fugazmente de flor em flor sugando-lhe o néctar. Ou a lhes consultar o invólucro à caça da imprescindível comida. Voo rasante de uma planta à outra. Trabalho estafante. E não consta que os pássaros foram expulsos do Paraíso, condenados a viverem do suor de seu rosto.
 
Pois então. Havia à vista por um canto da janela, num galho do cajueiro, um colibri, feito pomba, bem te vi, sabiá. Tempo incontável pousado num galho. E como, aqueles também ele se higieniza, não obstante o adelgaçado bico longo. Se higieniza. Para. Fica um pouco a fitar o nada e tudo em seu derredor. Volta a se higienizar. Torna a espiar.... Esqueço-me com os meus afazeres. Torno ao galho. Ele lá, na mesmice de uma rotina que não me era então familiar. Um beija-flor voava de flor em flor. Se assentasse, o fazia em segundos e logo desaparecia, por certo para outros vergéis. Em seu duro trabalho de tirar mel dos mais improváveis escaninhos das quantas flores encontrasse pelo caminho.
 
O sol ainda vai demorar um pouco a se fazer claro, e já um beija-flor, como os outros pássaros, como os outros tantos animais, se pôs a procurar a comida que lhe garantirá aquele seu presente. O qual, ontem não era. Quando muito, talvez, um pressuposto e presumível, mas improvável futuro, o agora hoje. Terá que batalhar duro. Depois dormir a noite com a instintiva esperança de poder novamente acordar o sol. 
 
Me foge o longo sossego deste colibri. Terá sido talvez próspero o seu dia. Talvez já tenha garantido, hoje, um pouco mais cedo, a prontidão para adormecer. O que, como de rotina, terá acontecido, quando a noite se fizer absoluta. Pois, se houver amanhã, ela o terá acordado bem antes de o sol despertar. 
 
Também um outro fato impactou estes meus olhos, já nada moços, que há muito lidam com esse ato de olhar e ver os feitos de muita ordem de coisas. Agora, numa enorme foto de primeira página dos maiores jornais do País. Seis grandes caixas de papelão e nove malas de viagem repletas de notas de R$100 umas e notas de R$50 outras. Totalizavam mais de R$ 50 milhões. Dinheiro desviado por gente de "bem" e de bens dos cofres públicos, por meio de vis falcatruas descobertas pela operação Lava Jato. 
 
Dinheiro recebido sobretudo da grande maioria da gente brasileira sobre a qual recai desgraçadamente a maldição do Paraíso. A qual, hoje, mesmo que queira despender o suor do seu rosto para o pão a si e aos filhos, como para os impostos ao governo que os repassa àquela gente de bem e bens, não consegue. Precisa sempre de muito trabalhar para cumprir estas obrigações. Mas não há trabalho. Emprego não há.
 
São milhões assim. Horda de gente simples, humilhada porque segue fora do bom lugar. Sem saber bem por quê, vive destinada a perambular se havendo com desemprego, dívidas, falta de pão e ainda envergonhada de não merecer estar ao lado daquela gente de bem e de bens, a qual é mantida a gozar do Paraíso.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.361260

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