Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Quanto a matar

Morrer é um fenômeno estabelecido pela natureza, que também criou o fenômeno oposto. E é este, a vida, que pressupõe a fatal incidência daquele. Não obstante subsista a ideia de que mortes engendram vidas, a evidência é que esta irreversivelmente demanda para aquela. Para falar com a filosófica reflexão de Chicó, o amigo de João Grilo em "O Auto da Compadecida": "Tudo que é vivo morre".

Entretanto, a outra evidência é que a morte não é um agente autônomo e nem um ato exclusivo da natureza. Poderíamos dizer que os recursos de que esta se utiliza para gerar a indesejada das gentes são o topo da velhice, o ciclo da cadeia alimentar dos animais carnívoros. Estes são predadores, digamos, autorizados pela natureza a matar para manter a vida. A despeito disso, porém, à revelia dela, tornou-se o homem um predador inigualável. Sobretudo porque, mesmo não mais precisando matar para alimentar-se, continua matando. Indiscriminadamente. Igualável e inacabado, segue sendo um animal, do qual, portanto, tudo se pode sempre esperar.

São muitos os motivos designados para justificarem as inumeráveis e diversificadas matanças, além das que seriam por necessidade de alimentar-se. Estas, há muito, quiséssemos, já não fariam mais sentido. Todavia, a mantê-las, admitindo que talvez o homem já não consiga viver sem a proteína animal (mentira, dirão os vegetarianos) por que ir além dos animais - peixe, caprino, bovino, suíno e galináceos, historicamente mais suscetíveis à domesticação, (um dos engodos humanos) - fadados ao sacrifício por "essa causa"? 

Diz a Bíblia que Caim matou o próprio irmão, Abel. Talvez tenha sido o primeiro caso (que depois se rotinizou mundo afora) de um homem matar o outro. Matou para saciar sua fome de vingança. Como não podia matar o objeto de sua raiva, Deus, matou, por inveja, o escolhido por este. 

À medida que vimos aprimorando e sofisticando as condições de se viver neste Planeta, mais temos avançado na categoria de predadores incomparáveis e insaciáveis. Há nada que nos basta. Há nada que nos faça, verdadeiramente, reconhecer que somos agraciados para aqui conviver, não para disputar o mando, o poder, a propriedade de um lugar que não é de ninguém e que, eterno, nos contempla, perecíveis, efêmeros, a passar. 

Sabemos, por comprovação científica, que, agindo assim como agimos, avançamos progressivamente extinguindo, deteriorando, exterminando mais e mais as fundamentais condições para a continuidade da vida no Planeta. Indiferentes, seguimos, indiscriminada, aleatória e estupidamente, produzindo toda ordem de lixo que polui, destrói tudo: as águas, a flora, a fauna, o meio-ambiente, as pessoas. 

Isto posto, poderia dizer que, nesse ritmo de vida, cada vez mais, desde séculos, nos depuramos na arte de matadores incondicionais. Direta e indiretamente, vivemos matando. E não matamos para viver. A rigor, nenhuma forma de vida justifica a ação de matar. Mas o homem inventa uma narrativa (para usar a palavra da moda jornalística hoje) com que justificá-la. O poder de mando, o roubo, o adultério, a honra, a vingança, a contravenção, a traição, a propriedade, a religião! são alguns dos inumeráveis casos declarados como motivadores de matanças.

Triste, isso. Não nos contentamos com desfrutar a vida em sua plenitude como um supremo bem que nos é concedido. E pouco a compreendemos, não obstante as exigências que nos faz para mantê-la, como uma preciosidade pela qual deveríamos sempre dar graças. Até que a morte, seu fatal e inevitável contraponto, lhe venha pôr o ponto final. Não. Além da morte natural, achamos de inventar a morte como um fato também resultante de ato nosso. O absurdo paradoxo: certamente, matamos muito mais que a morte natural. 

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