Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Quadrinhos

Como sou ainda persistente leitor de jornais impressos, tenho lido, quase que diariamente, as tiras de quadrinhos dos tradicionais "Minduim Charles", "O melhor de Calvin", "Recruta Zero" e "Turma da Mônica" no "Estadão" e passo os olhos nos da "Folha de S. Paulo", lendo integralmente "Piratas do Tiete", "Daiquiri" e "Níquel Náusea". A isto reduziu-se minha parca leitura de quadrinhos.
 
Conquanto assim seja, minha história de assíduo leitor de ficção, lembro-me bem, se iniciou justamente pelos quadrinhos. Pelos gibis. Num dado momento da infância, ainda aluno de Grupo Escolar, me vi envolvido pelas histórias de Mickey, Pato Donald, Tio Patinhas com sua famosa legião de personagens, como também pelas histórias dos clássicos heróis: Super-Homem, Batman, Capitão América, Capitão Marvel, O Zorro, Fantasma, Mandrake.
 
Penso que definitivamente deles me desgarrei já bem grandinho. Acho que foi quando me chegaram, na Faculdade, a prosa de ficção, os poemas épicos, as peças teatrais e a poesia lírica. Nem mesmo, na adolescência, as fotonovelas, com suas histórias sentimentais, me afastaram das peripécias das inventivas aventuras de meus caros personagens daqueles gibis. 
 
Nisso tudo está, pois, pressuposto que não fui um filho de família detentora de recursos que lhe permitiria dotar-se de livros vários que pudessem ficar à mercê da curiosidade de seus rebentos. Não tinha pais e familiares leitores. Não havia livros em casa. Um rádio, sim. Me lembro de que minha avó e minha mãe, durante o longo tempo em que foram lavadeiras, em certo período da tarde, ouviam, passando roupas, novela. Uma, que parecia nunca se acabar, se denominava "O direito de nascer". 
 
Se não me engano, foi dela que minha mãe tirou o nome de meu irmão Fabrício. Também eu, durante algum tempo, assisti a um seriado que se denominava "Jerônimo, o herói do sertão". Me lembro. Era depois de "A hora da Ave Maria". Pela rádio Nacional do Rio de Janeiro. A mesma em que passava a novela. A mesma pela qual meu pai, meu tio, eu mesmo, de vez em quando, ficava por ali, procurando entender alguma coisa, assistiam ao programa de humor "Balança, mas não cai". 
 
Isto revela que fui um dos casos fora da padronizada verdade educacional sentenciadora de que pais leitores e casa povoada de livros resultam em filhos similares. Certamente sou um dos casos de outra daquelas sentenças, segundo a qual a escola pode ser outro espaço de produção de leitores. Já contei aqui que minha professora do terceiro e quarto anos escolares era uma entusiástica leitora/contadora de histórias. Fazia isso com sua classe sabatinamente. Alguns de nós aprendemos a aguardar as aulas de sábado ansiosamente.
 
Por certo, daí ao gibi, literatura mais fácil e barata, foi um passo. Vivia a catar ossos e ferro velho para apurar o dinheirinho à compra dos meus gibis. Morria de vergonha de ser visto (principalmente por minhas amigas de escola), tanto disso como de vender verdura da horta de minha avó. Mas, pela compra de meus gibis, acabava arriscando me expor carregando saco de estopa com aqueles descartes e a cesta com almeirão alface, couve, rúcula e cebolinha. Logo aprendi uma boa forma de amenizar a situação.
 
Como já conhecia a mais assídua clientela, antes, passava procurando saber se naquele dia iriam querer verdura. Todavia, tive que enfrentar algumas situações constrangedoras, pois em mais de uma freguesia morava uma ou outra amiga. 
 
O pior disto tudo foi o primeiro dia que tive de entregar verduras na casa da garota pela qual era apaixonado (ela bem o sabia). Minha vó brigava contra minha relutância. Um dia, convencido, o coração a mil, lá fui. E, para meu desespero maior, foi ela quem me atendeu. Era impossível que não percebesse minha nervosa atrapalhação. Mas procedeu de forma hábil. Sorridente, elogiou o viço das verduras, levou-as e trouxe o dinheiro. Tropegamente, procurei lhe explicar a causa daquele meu trabalho. Ela prontamente concordou e propôs que trocássemos alguns gibis.
 
Isto nos tempos áureos dos gibis. E vejo, agora, que os mesmos se revigoram remodelados e em alto estilo e sofisticação, inclusive relendo renomadas e complexas obras literárias, dentre as quais grandes clássicos. Dá até vontade de reencontrá-los.
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