Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Os rios dele e os rios meus

Eis-me diante do Tejo. Sim. Eu próprio me chamo às falas e insisto em reafirmar a mim mesmo que é a mais absoluta verdade: estou diante do Rio Tejo. É lugar de Lisboa destinado aos turistas para ver a fortaleza medieval cravada à margem direita dele. Dali também se vislumbra, a alguns quilômetros, o Tejo virando Atlântico.

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia." É o que diz, naquele célebre poema, Alberto Caeiro, um dos três mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa.

Eu, no meio daquela legião babélica, entrecruzando pontos a fotografar o rio, a fortaleza e um longínquo farol em pleno Atlântico. Depois quedo-me a contemplar o Tejo, o Atlântico, o Tejo... O Tejo que vem da Espanha e atravessa Portugal até Lisboa. Aquele seu estuário escancarando o formidando Atlântico feito de realidade e mito levando para a América: "Pelo Tejo vai-se para o Mundo. / Para além do Tejo há a América / E a fortuna daqueles que a encontram. " 

Não há como escapar. Do Tejo salto para minha pátria. E ponho-me a perpassar os rios da minha vida. O Tejo continua muito belo na medida em que os vou percorrendo. Os rios das minhas aldeias. A da infância tinha o rio do tamanho de seu nome: o Lambari. Um riacho em que não buscávamos o peixe que o denomina. 

Era a nossa piscina natural. Mais nos era impossível. Que nada tínhamos, senão a natureza, única ao alcance dos despossuídos. Mas o rio da aldeia da minha infância tinha a grandeza, para sua e nossa felicidade, de ser inteiramente puro e límpido, da nascente à foz. Nele brincávamos. Sedentos de tanto farrear, dele bebíamos. Em sua paisagem não havia frondosa mata. Mas eram bons arbustos e árvores. Os pastos em que gados pastavam e nele tinham a água boa que os dessedentava. Algumas roças de melancia, melão, abóbora, milho cujas excelências de qualidade muito deviam ao frescor da umidade que o Lambari lhes ofertava.

A aldeia de minha juventude, corta-a o rio Maria Chica, que, já naquele tempo, vinha sofrendo de poluição degradadora. Leito e barrancos cimentados no extenso trecho que trespassa a cidade. Apesar de toda agressão dispensada, tinha-se e se tem por ele grande simpatia. Ele como o Lambari nada têm de belo como tem o Tejo, como tem o Mondego. Mas eles são dois dos rios das minhas aldeias. Eles estão em mim (e eu neles) como em mim não estão o Tejo e o Mondego. Reitero Caieiro, dois rios muito belos. Mas eles não são rios das minhas aldeias. 

Noutra aldeia minha, esta era aldeia mesmo, há dois rios tão belos quanto estes dois portugueses. Mais. Belos tal qual o Douro, o outro português resplendente. O Paranapanema que justamente desemboca, na costa daquela aldeia, no rio Paraná. Este mais majestoso ainda. Maior que os três portugueses que minha alma pelos olhos está a ver nestes breves dias de estada no berço de minha amada língua portuguesa e de um ramo de meus ascendentes.

Por fim, há o outro rio de minha outra aldeia. Esta, tudo indica, deve ser a definitiva, pois nela solidificaram-se em profundidade e extensão minhas raízes. Não me refiro ao Machadinho nem tampouco ao Baguaçu. Refiro-me ao rio Tietê que rola pela costa norte de Araçatuba cujas águas são fundamentais à economia desta minha aldeia última. Tão belo quanto os referidos portugueses.

É certo que estes são fundamentais às regiões a que se servem e por elas são bastante preservados e cuidados. Há milênio contemplam culturas tão edificadoras quanto bárbaras. O Tejo, palco dessas edificações culturais e civilizatórias serviu e serve Lisboa. A Coimbra, serve o Mondego, ao Porto, o Douro. "Ó mar salgado, quanto de teu sal / São lágrimas de Portugal. " Ó Portugal, quantas lágrimas além-Atlântico se fizeram sob o brasão de teu punhal. Dois olhos crítico-emotivos de um brasileiro de alma pequena, extasiados, te contemplam, se perguntando se tudo valeu ou não a pena.

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