Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Os custos das ajudas de custo

Não custa (isto, sim) repetir que os mecanismos de injustiças e de aprofundamento das absurdas desigualdades sociais vão além, muito além, de "mensalões", "lava jatos" e seus derivados. 

Caso as leis fossem rigorosamente para todos, se todos, como estabelece a Lei, fossem iguais perante a lei, privilégio seria, como é, um verbete inscrito nos dicionários de língua portuguesa, mas uma palavra obsoleta, porque absolutamente posta em desuso na vida da sociedade brasileira. Mais ainda, deveria ser expresso em lei (e cumprido; eis um dos grandes males deste País, o não cumprimento das leis indistintamente) que sua prática seria considerada crime inafiançável. 

Certamente não é exagero afirmar que os privilégios obstaculizam o pleno desenvolvimento do País, implicam geração de pobreza, de miséria, alimentando sua preservação; implicam a profunda e crônica desqualificação do sistema educacional e da saúde pública (saneamento básico: muito mais de 50% da população brasileira não dispõe de água tratada e esgoto). 

Não seria mesmo exagero dizer que tanto quanto, ou mais do que os sistemas de corrupção acima designados, os privilégios são verdadeiros males sociais que impossibilitam nos tornarmos uma nação desenvolvida. A metáfora expressa na fala de nosso "herói sem nenhum caráter", Macunaíma, já insistia nisso: "Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são".

São tantas as formas de privilégio que mapeá-las exaustivamente seria um trabalho moroso e dificílimo. O privilégio prolifera em cada canto e de muitos jeitos. Muitas são as motivações que conduzem uma pessoa física e uma pessoa jurídica a estabelecerem o privilégio. Todas são, evidentemente, prejudiciais, pois sempre um favorecimento acarreta alguma forma de prejuízo individual ou coletivo. 

O pior de tudo, entretanto, se é que isso seja possível, são os incontáveis privilégios legalizados. Passam quase sempre despercebidos. A grande maioria da população, envolvida com seus muitos afazeres e obrigações a cumprir, normalmente privada de vários direitos, acaba não se dando conta deles. Indigna-se, revolta-se e extravasa por meio de impropérios e xingamentos de forma evasiva, quase sempre sem saber exatamente origem e motivo da instituição daquele privilégio, quando deles é informada. 

Logo, vem-lhe à tona a comparação com as suas condições de ser. E, então, não é difícil se perceber como um dos milhões de cidadãos usurpados para sustentar a legião de uma casta de privilegiados pelos órgãos de poder cujos ocupantes foram por ele sufragados nas eleições instituídas. Elegeu os homens para os parlamentos, para as instâncias governamentais, a fim de que os mesmos fizessem prevalecer a justiça em todos os setores públicos, servindo de forma indistinta a todos os cidadãos.

Não é difícil perceber que a grande maioria de seus compatriotas vive sob o jugo de um salário mínimo, cujo poder de compra é aviltante, mas que, com o mesmo, sem nenhum outro complemento, sem nenhuma "ajuda de custo", deverá pagar aluguel, pois nem pensar em comprar uma casa, ainda que seja do "Minha casa, minha vida"; deverá fazer a compra do mês, pagar água, energia; sem contar as prestações minimamente necessárias para a aquisição de utensílios domésticos, roupa, calçado, tornando-se, assim, eterno pagador de prestações de Casas Bahias. 

Isso quando não tem de tomar duas ou três conduções para ir trabalhar. Se doente, tem de se sujeitar ao famigerado caótico sistema de saúde universalmente conhecido. Se tem filho, destina-o a uma escola pública oficial cujo arraso é universalmente conhecido. Sistema de saúde e de educação cujos médicos e cujos professores, normalmente, devem se descolar para mais de um posto de trabalho, sem nenhuma "ajuda de custo" para transporte, guarda-pó, compra de livros, cursos de atualização. Aliás, diga-se de passagem, o valor da "ajuda de custo" moradia concedida a um pobre e denodado ocupante destas castas de privilegiados é superior ao salário da quase absoluta maioria desses professores.

Eis o Brasil real, cujo custo, afirmam os homens dos poderes, está em situação falimentar. E acusam, como responsável-mor, o sistema previdenciário que aqueles trabalhadores escorchados por incontáveis impostos e salário aviltantes passam décadas regiamente pagando.

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