Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: 'Onde vãos de abrir, ele foi amurando'

Uma das minhas manias: andando a esmo, observar os lugares da cidade. Como são, como estão, como eram, como ficaram. Tanto da cidade em que há décadas resido, quanto outras a que de vez em quando retorno.

As transformações são mais evidentes onde a dinâmica centro comércio-industrial e, consequentemente, sociocultural é muito forte. A acorrida populacional vai impondo necessidades, com suas formas, situações devidas ou indevidas, de se instalar, de residir. 

Tome-se o exemplo-mor: São Paulo. Sua transformação é vertiginosa, infinda e não definitiva. Ali, quase tudo é indefinitivo. Mesmo onde mais nada parece ser possível, quando menos se repara, tem lá um quê que já não é o de anteontem. Os edifícios brotam próximos uns dos outros. São Paulo é sempre a cara do seu tempo. Morar ali é cada vez mais e mais cada qual ter, num edifício, seu lugar-residência. De tudo apartado. A residência é, pois, um apartamento. 

Desaparecem de maneira progressiva, não morosa e irreversível as moradias tradicionais a que denominamos casa. Mora-se mais e mais em apartamentos. Prédios com portaria, um administrador que cuida de tudo, o síndico. Em que há um responsável diuturnamente para conferir, controlar, anunciar receber etc. Câmeras postas discretamente em pontos estratégicos. Portões eletrônicos e automáticos. Toda a proteção possível. 

O assaltante, o bandido, o criminoso, o terrorista, mesmo os importunos normalmente inofensivos, como pedintes, os vendedores ambulantes, estão livres e soltos na rua. A rua é aberta, anônima, nela mora o perigo. Livrar-se da rua o quanto for possível é necessário. Ir e vir em condução própria é a saída. Eles estão no metrô, nos coletivos, assaltando, assediando sexualmente. Até mesmo num Uber, num táxi eles comparecem.

Já meio antigo, todavia ainda moderno e atual, o conceito mais acertado de morar é viver num edifício. Não só, evidentemente, mas principalmente nas grandes metrópoles. As cidades médias, sobretudo, também não de agora, mas nem tanto de antanho, além da adesão aos edifícios - que vão se alastrando - instituíram os condomínios. 

Com seus síndicos, seus porteiros, suas câmeras. Os "apartamentos" mantêm ainda a arquitetura de casa, que igualmente guardam a distância entre si de forma horizontal. Para livrá-las da promiscuidade que graça pelas ruas, vão todas abrigadas por alta amurada. À qual, para mais ainda guarnecer, sobrepõe-se a moderna cerca elétrica. É o homem do século XXI restaurando um modo medieval de morar. 

Agora, feudos verticais e horizontais. As casas ainda casas mesmo, como mais expostas às ruas, também erguem seus altos muros sobrepostos de cerca elétrica e instalam portão eletrônico. As grandes favelas, a distancias estabelecidas, assim não são por algumas razões, como por precisão e porque a "civilidade" ("os bacanas"?) as ignoram. 

Os pobres, por certo porque pobres, lá nas longínquas periferias, continuam morando em "casas" separadas por cercas (quando muros, mais demarcadores que de proteção). Sua não proteção é de outra natureza. Por certo, basicamente, a maioria de seus "assaltantes" e "assassinos" vai a vida toda encasulada naqueles recintos empilhados, ou em redomas. Mal sabe o que são as ruas, o que vai pelas ruas. Exceto quando estas atentam contra sua sã integridade.

Essas reflexões um tanto quanto esdrúxulas, talvez, me vêm, quando vou olhando e pensando essas coisas. Vem-me também, quase concomitantemente, que eu, menino, ficava com muito medo, porque, sempre que íamos dormir, minha mãe encostava a porta da frente, que dava para a calçada, com uma cadeira, pois meu pai ainda chegaria, do bar onde, todas as noites, praticamente, ficava até tarde jogando sinuca. 

Em outro tempo, noutro lugar, em que começava a vida profissional, em noites de muito calor, dormíamos com as janelas para o quintal abertas. Nunca, em nenhum dos casos, houve qualquer tentativa de invasão à casa. Em ambos os casos, de tempos bem distantes, os lugares eram cidadezinhas. Seus moradores, quase pobres. Uns poucos, remediados. Os tidos como ricos, remediados e meio. Fico sempre, nessas ocasiões, teimosamente não querendo aceitar este fato como justificativa.

"Onde vãos de abrir,/ ele foi amurando// opacos de fechar; onde vidro, concreto;// até fechar o homem: na capela útero,/ com confortos de matriz, outra vez feto."

LINK CURTO: http://folha.fr/1.366784