Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: O drible

O drible é procedimento individual que instaura o singular, o imprevisto. Um rompimento com o padronizado. Ele é da ordem do contingencial. Não é previsto, nem comum, mas um fator possível e sempre perturbador. Também é mais enquadrável na ordem do risco. Como de todo imponderável, dele pode advir a conquista ou o incômodo, se não o pior.

Driblar é, pois, a superação de obstáculos, por certo muito mais cometido por atos criativos, que calculados. O cálculo pondera, sopesa, rejeita o desacerto, assim, circunstanciando o medo. O driblador consciente ou intuitivamente sabe que, nesse ato, há a possibilidade do reverso, mas a dificuldade, que parece incontornável, instiga-o a crer mais em si e assumir o risco, assim, circunstanciando a coragem. 

A rigor, do drible se servem o lícito e o escuso. Deste há mais informações, é mais tangível, porque mais incidente em esferas públicas, afetando a ordem e o bem-estar em geral da sociedade. Podemos dizer que a dita crise social, crônica, do país, posta como calamidade em evidência nesses últimos anos, decorre de atos desses dribladores escusos. 

Diria que o drible lícito tem sido um recurso a que constantemente se vê obrigada a recorrer a grande maioria da população. Sobretudo porque as ilicitudes daqueles dribladores escusos mais lhe aprofundam as muitas dificuldades para a obtenção de uma sobrevivência digna. Precisam recorrer ao drible os desempregados, os subempregados, os subassalariados, os periféricos, os marginalizados. Têm que inventar saídas.

Mas o célebre drible, lícito, popularmente conhecido, é o empregado por alguns jogadores de futebol. Ato que, de uma forma ou de outra, os destaca dos demais. Conquanto tenha se dedicado plenamente, sobretudo de fins dos 1970 para cá, a esquemas táticos, à força física e à velocidade, o futebol ainda tem no driblador um trunfo diferencial contra as cerradas defesas adversárias. Quando não há esse jogador, a partida se restringe à mecânica da mesmice. A defesa se empareda, impedindo de todas as formas que a bola chegue ao seu gol. 

O ataque tocando da intermediária para uma ponta, desta volta para a intermediária, que manda à outra ponta... De vez em quando, um ponta cruza a bola na área para ver o que acontece. E essa redundância, quase sempre, vai até o fim do jogo, que resulta em empate, ou com uma das equipes vencendo por um a zero. Ora, de modo geral, as partidas de futebol se sucedem nesse diapasão. Futebol força. Futebol defensivo. Futebol robotizado.

Quando há, tem-se o driblador, não dribladores. E seus adversários logo começam a impor-lhe entradas duras, violentas, a fim de intimidá-lo ou mesmo contundi-lo. Se o craque aplica um belo drible, o adversário, via de regra, quer trucidá-lo, pois vê o drible não como uma jogada criativa com que soube dele se livrar, mas algo humilhante, razão pela qual, irado, só falta bater-lhe. Muitas vezes, mesmo os colegas e o técnico admoestam o driblador; nem se fale, se o drible não for bem-sucedido. 

Que o drible tenha sido utilizado, às vezes, para desfazer do adversário é um fato. Como às vezes é objeto de pura brincadeira, diversão. Neste caso, provavelmente, os dribles mais conhecidos são os daqueles lances da partida do Brasil contra a URSS no mundial de 1962. Por certo as filmotecas do mundo do futebol têm cópia da célebre filmagem em que Garrincha, na sua ponta predileta do campo, driblou várias vezes os soviéticos, a ponto de parar e ficar esperando que eles tornassem a tentar lhe tomar a bola, o que os jogadores já não se dispunham mais a fazê-lo, procurando apenas, em bloco, cercá-lo. Mas apesar dos tantos dribles tomados, nenhuma virulência. 

Humilhados, passaram a rodeá-lo, esperando. Era no tempo do futebol arte. Exceto estas excepcionais exceções, o drible impunha-se como a forma criativa de superar os obstáculos. Pelé é ainda o melhor exemplo. O driblador, o lançador de longa distância não eram aves raras. Coincidência ou não, o grande driblador, normalmente, vem de lares em que driblar pela sobrevivência é uma necessidade: Canhoteiro, Pelé, Coutinho, Garrincha, Edu, Maradona, Ronaldo, Dener, Ronaldinho, Messi, Neymar, Gabriel Jesus. 

LINK CURTO: http://folha.fr/1.374559