Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: O cavalo

O cavalo ali. Empertigado. Estático, numa posição de sentinela à mercê de quem o comanda. Por certo a ordem última foi a de que assim permanecesse. A carroça sobre ele debruçada com seus dois eretos varais sustentados pela parafernália de selaria assentada no dócil dorso domesticado. 

Antiquíssima tecnologia remontando a gregos e troianos, quando o cavalo, em terra, soía soberano. Sem ele, seria como o homem hoje sem o automóvel, o trem e o ônibus. Nas locomoções extensas, o cavalo. No cultivo da terra, o cavalo. Nas lidas com o gado, o cavalo. Nas caçadas com que matava o tédio a nobreza, o cavalo. Nas guerras, o cavalo.
 
Ali, o cavalo. Com sua cor castanha, de bom tamanho. De aparência saudável. Pacientemente parado, arrepiando moscas incômodas que lhe vão aos olhos, à boca. Não pode mais que isso contra elas. Quando muito, leve chocalhar de cabeça, além dos arrepios de pelo e orelhas. O rabo, que também lhe serve como boa arma nessa ação de espantar aquelas descaradas intrusas, está impedido pela peça que compõe o aparelho encouraçado de que está vestido para a sustentação da carroça. 

Somente depois que esta estiver repleta, tornarão a fazê-lo movimentar-se na condução para o devido esvaziamento da carroça. É o seu trabalho. Puxador de carroça de aluguel. Um remanescente serviço de transporte ainda disponível à mão de obra barata que dele se serve para defender a vida. Geralmente, modestos jardineiros. Que os mais sofisticados, por isso mais caros, para a remoção dos resíduos de seus serviços de jardinagem, possuem camionetes, se não caminhões três quartos. 

A isto está hoje relegado o cavalo das pequenas cidades. Não mais lhe resta senão a carroça de pequenos e rudes serviços de aluguel. De proprietário pobre. Nobres senhores de tílburis, de carruagens mais não há. Tampouco os que tinham seu belo cavalo com que saíam não só a serviços como a galanteios. 

Há o célebre caso que pôs Bentinho em desespero. Adolescentes ainda, namoro embutido nos supostos brinquedos de vizinhos amigos, sob a vista grossa de pais e parentes. Um dia, Capitu à janela, sabe-se lá quantas vezes isso se dera, envaidecida ante a corte de um cavaleiro, "um dandy", que por ali passava em "seu belo cavalo alazão". 

Não é mais o tempo em que os grandes homens, heróis incontestáveis, não o eram senão com o seu majestoso cavalo. Aquiles e Heitor. Alexandre, o grande. Rei Arthur, e os seus cavaleiros. Ariosto, o Furioso. Napoleão Bonaparte. Não há que se esquecer do também grandioso cavaleiro de "triste figura", inseparável de seu Rocinante. 
Em terra, o cavalo era a maior e mais completa extensão do homem. 

O homem e seu cavalo. Como o homem e seu automóvel. Esta não é ainda uma relação extinta. Na economia da vida rural pastoril o cavalo continua tendo papel fundamental. Na grande lida com o gado, com ele se dão as essenciais atividades. Em pastos, matas, aguadas, morros e vales, campear rastreando, tangendo o boi é tarefa inviável, senão conduzida por com um bom cavalo. 

Meu avô montava o Alazão, ia campear. No curral, o Baio arreado à disposição de eventuais ocorrências: rês desgarrada; berros longínquos de gado estranhando algo; novilha ausente. De tardezinha, para recolher o gado leiteiro, apartando vacas e bezerros. Tudo feito pelo vaqueiro a trotes e galopes de um Baio de belo porte, forte e lépido. Certamente, enquanto houver a economia campestre pastoril, por mais que o avanço tecnológico vá inventando mudanças, o cavalo ali continuará imprescindível.

Nas cidades pequenas e médias parece mesmo não ainda inteiramente preterido, pelo menos enquanto a mão de obra rústica e pobre subsistir na prestação de pequenos serviços de jardinagens. E os pequenos carretos executados pelos denominados carroceiros. 

Nas cidades grandes, parece que ficou confinado a divertir, distrair, propiciar encontros e movimentar negócios nos hipódromos dos jóqueis clubes. Ali, deve ser útil enquanto render, depois... como acontece com tudo que ao homem desinteressa, deve ser descartado. Além disso, sabe-se de sua utilização em outro evento de elite, as competições esportivas de hipismo.

O cavalo. Para a história da construção humana, ele na terra, como o barco nos rios e mares. No trabalho, quanto na guerra. Nas viagens, quanto nas recreações. Decerto não seria o homem o que é, se não tivesse também escravizado o cavalo.

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