Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Mudando a folhinha

2018 começou. A segunda década do século 21 encaminha-se para o seu fim. Quase vinte anos do segundo milênio. Atingi-lo e prosseguir mais parecia coisa da imaginação. "2001- Uma Odisseia no Espaço" presumia que, macacos em princípio, aqui já seríamos galáxicos. Era a completude do longo salto dos galhos das matas virgens aos vagantes astros do imenso sidéreo virgem.

A ficção continua em fluxo vertiginoso na produção de mil e tantos filmes decorrentes daquela matriz. A realidade, depois de se decepcionar com a Lua e se espantar com a complexa grandeza do universo, redimensionou o modo de manter-se relacionando com ele. Parece ter se centrado nos estudos e experimentos com os quais vai paulatinamente rompendo as camadas dos mistérios estelares crivados de sumidouros negros e sistemas estelares vias galáxicas sem fim afora. 

Convém não esquecer que essa história toda tem a ver, a rigor, apenas indiretamente com o planeta. Já que, exceto com o que externamente se vê envolvida, a Terra segue, como tudo parece indicar, indiferente ao que lhe vai no dorso, seus viventes. Há mais de 4 bilhões de anos, conforme os cálculos de nossa ciência, ela deriva pelo espaço sideral embebida de si mesma e rodeando a grande estrela cuja energia a mantém viva.

Matéria cósmica cujos elementos bioquímicos propiciam a proliferação de seres que somos e os que não somos. Teimosamente resilientes. Extintos dinossauros, habitamos miasmas que nos engendram e nos ressuscitam homens e animais. E aqui, na superfície dessa nave sem norte, que por si se move, vamos. Peregrinos, como ela, em busca de não se sabe bem o quê, por quê, para quê, por quem. Não pedimos para vir, mas, angustiados e inconformados, fazemos quase tudo para não ir. Afinal, como questionou o nosso Poetinha maior, "se foi pra desfazer, por que é que fez? " 

Então, para a vida que inventamos e reinventamos, na busca incessante de nós em nós mesmos e nos outros, o que concomitantemente nos conforta, reconforta e nos atormenta, criamos o tempo. Para o que vai entre a luz e a treva, houvemos o segundo, o minuto, a hora, o dia, o mês, o ano.

E a cada término e início de ano, tem-se como suposto que, de alguma forma, cada sujeito de juízo preservado, em reserva, se revisa, exorciza os demônios criados e se prognostica um outro para o ano que entra. Manifesta isso a si mesmo, aos outros no ato da simulação inventiva da passagem de um ano para o outro.

Claro, a noite do último dia do ano é a mesma que surgirá no primeiro dia do ano que começa, quando, na verdade, nada começou e tudo continua acabando. Mas "o faz de conta que" é uma das molas propulsoras fundamentais para essa aventura humana que é a vida: "A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída para qualquer parte ".

Somos substancialmente "Era uma vez..." Consciência estabelecida, descobrimo-nos milagrosamente criadores. A invenção seria nossa competência e habilidade exclusivas e prodigiosas. Com elas vimos reinventando a vida na manutenção de nossa sobrevivência. Utópicos, desconfiados e crentes em nós mesmos, conquanto também envolvidos com o sobrenatural, vimos sendo isto que somos: uma soma de grandezas e misérias.

Por mais inventivos e senhores de nossos atos sejamos, a vida está sempre inacabada e, por mais conhecida que seja, é sempre um misterioso vir a ser. E vocacionada e contraditoriamente, seguimos sendo esses fingidores mágicos, criadores incessantes de paraísos e infernos, prometendo, ao mudarmos a folhinha do calendário, nos emendarmos. Assim tem sido. Assim é. Assim... será? 

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