Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Laikificados

Acabou!, disse-me minha mulher com o corpo e a alma ao me vir destaramelar o trinco de um dos portões do fundo do quintal. 

Um estático extraterrestre: capacete, óculos de sol, bermuda preta colada ao corpo, algibeira preta com apetrechos, segurando a bicicleta. Por segundos, fiquei contemplando o quadro: ela, a meio caminho e a passos do corpo coberto por velha manta nossa conhecida, era toda dor e desalento.

Acabou o quê, perguntei em minha mudez. E, ainda assim, me respondi que, definitivamente, acabavam os sofrimentos recentes e a doce convivência amorosa, que nos parecia ser eterna. Era como se duraria, enquanto durássemos.

Sem mesmo me deseteizar, bicicleta escorando-se em meu quadril, nos fechamos em lamento mudo e silencioso choro. Depois, nos sentamos junto ao corpo e, falando a esmo, ficamos a acariciá-lo.

Foi um curto velório a dois. Indigno de sua grandeza. Mas, apesar do horário de verão, o sol já ia muito adiantado e, mais grave, os céus indiciavam chuva forte sem muita tardança. Precisava, pois, pôr-me a cavar sua cova. Haveria de ser mais larga e mais funda, que as de todos os seus antecessores, alguns dos quais com ela convivera. Ajudaria o fato de estarmos passando por um período de chuva.

Feita a cova, já era noite bem entrada, efetuado o melindroso e detalhado sepultamento, um tanto extenuado, nos sentamos à varanda, entregues a solta conversação. A conversa girara entre ter que comunicar o passamento aos entes estreitos, a alguns amigos mais próximos ao conhecimento dela, e a nos referirmos ao intenso convívio que mutuamente desenvolvêramos.

Que eu não me enganasse, foram, sim, treze anos. Um a mais do padronizado como máximo. Tá bom, mas bem que poderia ter sido um pouco mais, se tivermos em conta a vida que levava. Sim, mas nessa conta também precisam ser considerados seus antecedentes, do que a gente não tem claras informações. É... Me lembro bem de quando a tivemos. Me lembro que os três, sem maiores discussões, nos encantamos com ela sem vacilar. É... As reclamações perante o modo de convivência que lhe propúnhamos. Chorona como ela só! Tadinha. Você foi um tanto severa durante um bom tempo... 

Eu me segurava, entendia, sim, que ela precisava aprender e ir se acostumando com os necessários limites, mas... com dó, com dó... tadinha. Você pensa?... também eu ficava com dó! Entretanto, vimos o bom resultado. Ah! mas já tinha uma boa índole, talvez tenha sido principalmente por isso. Não creio. Acredito mais na soma das duas coisas. Boa índole não cresce sozinha. Menina maravilhosa! Não havia quem com ela não se encantasse, né? É verdade. Por isso que repito, índole boa se constrói. Humm! Um bocado filosófico. Não... É que é assim mesmo, oras!... 

A quietude. Depois, cada qual a seu modo, perambulando pelos desvãos do nosso passado, desarquivando as situações mais queridas que vivêramos juntos. Episódios, muitos não cotidianos, que nos deixavam encantados, pasmos algumas vezes, sem palavras, noutras, apenas dando vazão ao riso como forma de manifestar nossa gratidão por tê-la conosco durante esse tempo. 

Tempo que, deveras, não foi curto, mas que considerava pouco, pois sua presença, um presente durante treze anos, tão bom, que pareceu muito breve. Demovedor de quaisquer estresses que se metessem a nos pegar, ou nos tivessem apanhado. Bastava estar com ela alguns minutos para expurgá-los. Para cada um de casa tinha uma maneira de carinhosamente se manifestar. Além da forma peculiar de agir com todos ao mesmo tempo.

Tornado de meu devaneio, vi que minha mulher divagava por fotos e vídeos decerto relacionados à nossa perdida preciosidade. Dando-se comigo a fitá-la me disse que a Gika, nossa netinha de seis anos, pedira que puséssemos uma pedra grande na extremidade da cova para que a identificasse, quando viesse vê-la. Aquela notação infantil tão querida nos arrancou largo e espontâneo sorriso de pura consolação apaziguadora.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.386859