Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: Homens imprudentemente poéticos

Perdura ainda uma ideia generalizada de que poeta normalmente é um sujeito esquisito, arredio, solitário, aluado, sonhador, meio fora de órbita etc. Isso decorre do entendimento de que os textos de poesia são, além de densos, arrevesados, quase sempre obscuros, os quais, muitas vezes, são tidos como muito bonitos, mas não compreensíveis. Orbita mais ou menos nessa esfera de pensamento a imagem popular tradicionalmente atribuída a esses textos desses "homens imprudentemente poéticos".

Ocorre então que, massivamente, a poesia, assim considerada, é tácita e silentemente rechaçada e se recorre a uma enorme quantidade de textos impudicamente denominados de poesia. 

Orbitam na esfera da ingenuidade, do simplismo, do sentimentalismo, imagens estigmatizadas, padronizadas por chavões e convencionalismos, numa escrita ingênua, via de regra, uma versalhada desmedida, quando não uma linguagem ridiculamente empolada acreditando, certamente, que, desse modo, dá ao texto grandeza poética, já que criptografado de palavras obscuras, de difícil compreensão. Ou então, esmera-se em talhar o texto com depurada sintaxe clássica imputando a isso a altivez do poético.

Esse quadro relativo à escritura da poesia, do poema, breve e superficialmente acima esboçado, não é de agora nem se extinguirá, pelo menos enquanto a poesia resistir. Ao contrário, com o advento da internet sua evidência "viralizou". 

Os sítios da rede social abriram-lhe o mundo. E por isso e com isso, publicar livro deixou de ser bicho de sete cabeças. Portanto, temos hoje e continuaremos a ter, nesses logradouros de comunicação e em publicações impressas, a versalhada se denominando poesia e a poesia, como sempre, muito pouco frequentada, em detrimento daquela. As causas são várias e não poucas, mas, indubitavelmente, têm, entre seus componentes, o degradado e elitizado sistema educacional, consequentemente cultural e socioeconômico. 

Que fique claro, isto aqui é uma simples e comum análise de constatação. Para que não se perca de vista a percepção crítica necessária do problema. Nada mais. Que continuem a versejar e a poetar. Com algumas exceções, o sistema-crítico literário, em suas várias instâncias, ainda que com algumas dissintonias, tem conseguido manter a devida separação entre o trigo e o joio.

Como o exemplo continua sendo um quesito recorrentemente eficaz, tomo dois dos maiores autores da atualidade, não brasileiros, mas de língua portuguesa, para fazer uma exemplificação, ainda que indireta, do assunto. Trata-se de Mia Couto e Valter Hugo Mãe. O famoso moçambicano já disse que lê muito mais poesia do que prosa e não só escreve como começou escrevendo poesia. 

Depois de consolidada sua grandeza literária, comprovada, com, dentre outras, a premiação do "Camões", a maior condecoração literária em língua portuguesa, como romancista e contista, publicou, há pouco, um livro de poesia. Hugo Mãe, romancista já consagrado e detentor de alguns prêmios literários, além de pintor, dramaturgo é também poeta com livro publicado. Todavia, o fato é que ambos são tidos como notórios autores da prosa de ficção em língua portuguesa da atualidade, embora, por razões compreensíveis, também têm seus poemas publicados. Devem ter a convicção de que sua poesia é uma espécie de robe.

Outro ponto a ser considerado é que, em alguns autores, a linguagem de cunho poético, embora não empregada em composição de poemas, é uma constante em suas obras em prosa. É o caso, majoritariamente reconhecido pela crítica em geral, desses dois escritores. 

Em Mia Couto o poético se faz, além do trabalho da linguagem, com sua recorrência ao universo místico-mítico-imagético da cultura popular, mesclada com as questões insufladas pelas guerras de independência de seu país. Hugo Mãe, mais versátil temática e topologicamente, é igualmente um cultor da linguagem poética na representação de situações psicológicas mais individualizadas. O título acima é o de um extraordinário romance seu que se realiza na conjunção desses fatores.

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