Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: De um quadro da parede

O quadro grande na parede. Há anos ali. O olhar sempre nele resvala. A poltrona de estar à televisão o tem de fronte. Mimese artística de um pôr de sol num certo lugar do Rio Paraná. Um presente da pintora Ritta Maleski. O rio. Seu esverdeado dorso, manchado de espraiadas mechas de sol ainda encimando a vasta e densa mata ciliar. Atrás da qual, também se veem duas torres de transmissão elétrica, que tomam simétricas distâncias entre e si e o sol. Em alta velocidade, uma canoa com motor de popa. Três ribeirinhos a bordo.

O lugar é a cidade de Rosana. O quadro um belo presente a mim e à minha mulher dos quais a pintora hoje é amiga e ex-aluna. Nas raras vezes que o fixo, como agora, o quadro me traz o distrito, não o município. Neste, fui duas vezes a passeio. E como Narciso que acha feio o que não é espelho não me simpatizei com ele. Ali, já não havia a Rosana que trouxera comigo ao vir embora. Nestas duas vezes, procurei-a. Mas ela se havia perdido completamente. Eu procurava o distrito que os anos de município haviam extinguido em absoluto.

Nem mesmo o rio, na parede recortado, permanecera. A pintura já alertara quanto a isso. Lá estão as duas torres de transmissão testemunhando a possessão daquele pedaço do rio pelo famigerado progresso civilizatório, a imensa Hidrelétrica Porto Primavera. Acontecimento responsável para o distrito alçar-se a município. 

Quando vim embora, a construção dessa gigantesca usina já punha em polvorosa os nervos e o coração da vida social daquela pacatíssima comunidade. Gente simples, não abastada, mas sem a caracterizada pobreza urbana conhecida. Todavia, longinquamente afastada do que se considerava benefícios do progresso civilizatório. Água de poço, latrina, sem energia elétrica, ruas e estradas sem pavimentação. 

Portanto, a construção da usina era a esperança do fim da precariedade. E de fato, foi o que aconteceu. Rosana tornou-se cidade, pondo fim às carências de benfeitorias urbanas. O povo queria isso, afinal, se quer sempre o melhor. Era necessário. Era justo. Veio a urbanidade. Evidentemente com seus bens e males, pois não há um sem o outro nesta vida.

A Rosana que trouxe comigo foi a que eu vivi, cujos males tidos e havidos eram aquelas tais precariedades. Tínhamos de dar um jeito para bebida gelada, luz à noite, arrefecer o intenso calor, conservar produtos perecíveis etc. Coisas meio próprias da roça: penico para não ter de ir à noite à privada lá fora. Chuveiro Tiradentes, tendo que aquecer a água. Chegar a Teodoro Sampaio, a cidade-sede, a 100 km, se não chovesse, em três horas, normalmente sob poeira. 

A estrada era um caminho cheio de areões e curvas. Doenças mais graves demandavam longas viagens. Mas verduras e legumes sem agrotóxico. Poluição zero, ar puro. Dormir tendo esquecido alguma parte da casa aberta, carro sem trancar, não eram problemas. Vida simples, sem requintes, todo mundo conhecia todo mundo. Não se sabia de crimes e roubos. A Rosana em que vivi não era nenhuma Pasárgada, porém lá ninguém se metia a rei, doutor. Era outra civilização, a amizade era o principal selo de vida saudável e segura. 

Nas escolas daquela Rosana, onde comecei, foi que aprendi a ser professor. Aprendi que precisaria ouvir muito, tolerar mais ainda, menosprezar nunca, respeitar e ser respeitado, amar e ser amado, estudar constantemente, que o saber sempre é menos. Vim-me embora escolado. Foram seis anos. Araçatuba recebia um professor formado na base do processo sociocultural de intensa convivência. Lá, de fato, aprendi e ensinei. Fui professor. 

Com minha mulher, professora de Educação Artística deles, e os alunos montamos e representamos à comunidade esquetes de textos literários, shows lítero-musicais. Fui, enquanto lá fiquei, o camisa 10 do Rosana Futebol Club (RAC), (perdoem-me a falta de modéstia, mas isso era voz corrente). Muitos de meus alunos jogavam no time. A ditadura militar inventou que eu estava lá, com outro professor, meu amigo, articulando a luta armada em nome do comunismo. E, causando impacto na população, foi nos prender. Mês depois, não conseguindo provar a invenção, soltou-nos.

Quando vejo o quadro de Ritta, enxergo esta Rosana (Narciso?), não a cidade que anos depois conheci e não gostei. Embora compreendesse que fatalmente um dia ela desapareceria, como muitos dos amigos que lá deixei desapareceram, como eu desaparecerei. 

LINK CURTO: http://folha.fr/1.377170

Curta nossa fanpage e receba notícias pelo Facebook