Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: 'Ah! os heróis'

Alguns heróis de minha infância, muitos dos quais, por certo, já eram de infâncias anteriores, subsistiram na de meus filhos, persistem na de meus netos, ainda que já com bem menos força. O imaginário massificador de mercado os tem mobilizado, certamente conduzido pela lei da oferta e da procura, a qual determina o sucesso ou o fracasso.

O Super-Homem e o Batman são os dois que, parece, não tiveram oscilações nesse universo do capital mercadológico. Filhos de galáxia e caverna, respectivamente, são uma combinação de homens, senhores da técnica, da física, e de deuses, senhores da mística, da metafísica.

Conheci-os pelos gibis. Viciado leitor de quadrinhos, fiquei logo fã deles. O Super-Homem, sabíamos, era filho de um mágico e inacessível lugar a que denominavam Krypton. No mundo dos homens, é um simples e disfarçadamente ingênuo jornalista. A caverna de morcego de Batman é um lugar fantástico, onde os mais modernos e avançados equipamentos tecnológicos do tempo funcionam, dominados por ele e por seu fiel "mordomo", Alfred.

Sua magia, ao contrário da do outro, que tem uma origem super-humana, consiste em suas incríveis habilidades como imbatível lutador e malabarista somadas à sua não menos admirável força física. O homem-morcego se insurge de repente dos mais impossíveis lugares. As crianças e adolescentes iniciais se encantavam por eles e viviam a se vestir como tais. Hoje eles persistem, renascidos, refeitos, remodelados para darem sustentação à sua permanência neste mundo completamente eletrônico, digital, internético. A virtualidade real os quer ainda mais versáteis.

Entre eles, hoje, dividindo as atenções vive balançando-se em suas teias o Homem-Aranha: Peter Parker, um frágil fotógrafo independente que, nas horas de grande perigo vivenciado pela sociedade, traveste-se neste herói, cuja fragilidade de origem parece ter-lhe angariado simpatias que muitas vezes o tornam mais querido que aqueles. 

Todavia, deles todos, o herói de quem mais gostava era o Fantasma. Talvez, na história dos heróis, o mais antigo. Seu habitat, a selva africana. Mas seu combate ao crime se estendia também, quando fosse o caso, para a civilização citadina. Christopher Walker, um marinheiro britânico que jura combater o crime perante o assassinato do pai. Bangalla é o país africano que desfruta deste protetor dos "fora da lei". Seu "brasão", uma caveira, que figura em seu anel e como forma da entrada de sua secreta caverna. 

Os vencidos por ele sempre ficam marcados com a caveira. Conhecido, respeitado e querido por toda a selva, sobretudo por seus amigos pigmeus. Fantasma, "a sombra, o espírito que anda". Inseparável de dois animais que são, de certa forma, sua extensão, o cavalo branco de nome Herói e um lobo chamado Capeto. Tão habilidosos quanto o dono. Além disso, Diana Palmer, sua eterna namorada, a quem conheceu em seus anos de estudos nos EUA. 

O desaparecimento deste herói é compreensível. Cada vez mais somos uma civilização de pura selva de pedras, onde o verde quando muito é uma figuração reduzida a jardinagens, praças e parques. Nem mesmo o que resta da civilização indígena tem conseguido a garantia da selva para si mesmo. A aculturação espoliadora a que têm sido submetidos, com também, consequentemente, a natureza, seu habitat, é secular e progressiva. 

Nesta civilização, enfim, o conceito de bandido e mocinho há muito mudou, tornou-se complexa, pois o que é mocinho é também bandido, e o que é bandido é também mocinho. A ficção contemporânea desta trilha tem, de algum modo, procurado representá-los tal qual vêm sendo. Com grande predomínio, evidentemente por razões óbvias, têm feito isso continuamente, quase sempre com muita qualidade, a ficção televisiva e a cinematográfica, conquanto esta tenha mantido também e, muita vez, com competência, a ficção mesma.

Felizmente. Pois talvez esteja nela centrada e na ciência a maior esperança de que a humanidade consiga um dia, por fim, expurgar-se de sua miserabilidade e monstruosidade. A ficção e a ciência têm sido constantes em sua produção de realidades que tornam o real menos virtual e as virtualidades reais. São ainda a salvação da lavoura.