Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: A vida que anda e desanda

De quantos mundos são feitos este mundo, penso, enquanto tenho recortes de muitos deles em situações que me permitem observá-los. São os milhões de homens comuns que cedinho saltam da cama e põem-se à maratona que os conduzirá ao trabalho. 

Ali atuarão durante oito horas, no mínimo, na produção de artefatos, ideias, objetos etc., os quais, deverão se prestar, de alguma forma, ao suprimento das necessidades de outros (seu irmão, seu semelhante). Em contrapartida, receberão, por isso, um salário com que procurarão garantir a sua sobrevivência e a de sua família. Este é o quadro padronizado, o estereótipo da vida do homem, não só, mas especialmente, moderno, sobretudo a partir do predomínio do sistema de produção capitalista. Há os muitos outros modos variados desse procedimento cujo denominador comum se chama trabalho.

Estes trabalhadores estão obrigados a despender parte de seu sempre modesto salário no pagamento de impostos, taxas, licenças cujos recursos se destinam ao Estado que, de posse dos mesmos, cria e mantém muitos e vários serviços para o bem-estar da coletividade. E estes bens, evidentemente têm que ser os mesmos de forma igual a todos. Isso, como todo o mundo sabe e repete deve se converter em educação, saúde, água, esgoto, saneamento básico, transporte, energia e alguns outros.

Para assim, acontecer bastaria que os homens públicos eleitos, designados, concursados para os setores administrativos, legislativos e judiciários ciosamente agissem no cumprimento destas obrigações para com o povo, pois foram conduzidos aos cargos de tais setores com esta missão e obrigação. Nenhum centavo a mais poderia ser aplicado em casos que não fossem estes. E seus gastos, como também as arrecadações, deveriam ser devidamente expostos ao conhecimento de toda a população de maneira clara e objetiva.

Embora deste modo expresso o que aqui exponho pareça ingênuo e até mesmo simplório, isto, rigorosamente, era o que teria de acontecer. Ora, em assim sendo, a vida seria outra, pois confiança, respeito, honra e ética seriam valores e princípios humanos básicos e condutores de um mundo justo, sem favoritismos e privilégios.

Mas, desgraçadamente, a investidura naqueles cargos, por força de tornar esses homens mais poderosos, cria-lhes um conjunto de privilégios, distinções e mordomias instigando-lhes a sensação, por certo, de que é natural que assim seja, como o foi aos reis e imperadores. E confinados a gabinetes longe dos olhos dos que lhes estariam atentamente espiando seus atos e ações, foram criando mecanismos de tal ordem que os favorecimentos desdobrassem, pouco se importando com o fato de que quanto mais amealhavam mais diminuíam os recursos necessários a cumprir os compromissos assumidos junto ao povo.

Isto se sedimentou de tal forma, em todas as instâncias de poder, desde as mais complexas às mais simples, que amealhar recursos públicos tornou-se uma prática própria aos atos de governar. Quem ocupa espaços de governo, como também os que lhes servem das mais variadas maneiras estão "habilitados" a apropriarem-se dos recursos públicos em favor de seus interesses e dos que os circundam. 

Tal "prerrogativa", historicamente assimilada - "é assim mesmo, quem governa normalmente entra pobre e sai rico, muita vez, milionário"-, tornou-se uma cultura do ato de governar, sendo assegurada e incentivada pela impunidade. Quando o excesso dos excessos gritava aos quatro cantos que aquilo já era demais, abria-se um inquérito contra o abusador. Este, no entanto, tinha dinheiro de sobra para contratar sumidades advocatícias que punham o caso a rolar até que caísse no esquecimento e se prescrevesse.

É possível admitir que essa degenerescência "cultural" criminosa, ferida pelo chamado "Mensalão" e fortemente caçada pela "Lava Jato", finalmente, será atingida de morte? Parece que, atrás dos diretos responsáveis por isso, a Polícia Federal, a PGR e o juiz Sérgio Moro, a grande massa populacional fechou-se como uma corrente consciente e decisiva. Tomara que, no fim, este país se tenha passado a limpo e das cinzas renasça a República Democrática do Brasil com que todos tanto sonhamos.