Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Tito Damazo: A máquina do mundo

Novamente, torno a Drummond aqui, nesta coluna. Este poeta a que sempre estaremos recorrendo. Ler Drummond é um constante reencontro com a poesia que tantos bens nos faz, nos traz. Insubstituíveis. Impagáveis. Não há matéria e dinheiro capazes. No livro mesmo a que me referirei, o poema “Memória” me corrobora, sobretudo quando em seus dois últimos e breves tercetos afirma que “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão.”
 
O título acima é o do poema que encerra o livro Claro enigma (1951). Esse oximoro (paradoxismo) que ele estampa reflete rigorosamente os significados acentuadamente ambíguos, descendo aos múltiplos tons de abulia (“escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”) que recende da maioria dos poemas. Procedimento decorrente da lúcida recusa do sujeito poético cuja palavra poética fora empenhada pelo duro embate contra brutas formas de violência e ceifamento das liberdades (“Este é tempo de divisas, / tempo de gente cortada. / De mãos viajando sem braços, /obscenos gestos avulsos.”) em A rosa do povo (1945).
 
Assim, pois, Claro enigma é uma forma de recusa poética perante o que resultara do fim de um estado nazifascista devastador: a “Guerra Fria” - os povos subjugados aos humores, às suscetibilidades (ressentimentos, ofensas, melindres, receios) decorrentes da partilha/disputa pela hegemonia do poder sobre o mundo entre a União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA).
 
Recolhimento e distanciamento estratégicos como forma de melhor depuração reflexiva sobre as coisas e os seres com os quais está envolvido e tem de lidar. Daí, inclusive, a recorrência ao estilo da poética clássica (sonetos, versos medidos e rimados). Claro enigma: a lúcida percepção da contradição do ser e parecer; a essência e a aparência, cuja consequência é o engodo evidente. 
 
Diria que “A máquina do mundo” é uma espécie de “chave de ouro”, designação atribuída pelos analistas aos versos finais dos grandes sonetos, os quais dão ao poema magnitude, beleza e encantamento. No caso, ele seria a chave de ouro da obra Claro enigma. Ao mesmo tempo, uma primorosa síntese da mesma. 
O poema é uma máquina de linguagem poética magistral. “A máquina do mundo” é trinta e dois tercetos (noventa e seis versos) em decassílabos brancos, constituindo seis períodos longos, exceto o último.
 
1º período vai da 1ª à 4ª estrofe: “sujeito poético” se situa no espaço e tempo caracterizando seu estado de ânimo no momento em que a máquina lhe aparece. 
 
2º período, da 5ª à 7ª estrofe: representa como ela se lhe mostra; em contraste com o seu estado. 
 
3º período, da 8ª a 16ª estrofe: representa a "máquina do mundo" a lhe fazer uma revelação. 
 
4º período, da 17ª à 23ª estrofe: representa a decodificação que fizera de tudo que lhe revelara a máquina. 
 
5º período, da 24ª à 30ª estrofe: representa a sua recusa e a razões por que a fizera à oferta da “máquina”. 
 
6º período, 31ª à 32ª estrofe: representa a retirada da “máquina” ante a recusa de sua oferta. 
 
Cabe lembrar que o poema tem como referente o fantástico episódio da Ilha do Amores dos Lusíadas, onde Vasco da Gama, com seus argonautas desfrutam daquele paraíso. Tétis leva-os a um monte de onde passa a explicar-lhes a Máquina do Mundo, outro privilégio, que, pelos seus feitos, lhes foi concedido. No poema drummondiano, é a Máquina que busca o sujeito que, “incurioso, lasso, desdenhando colher a coisa oferta”, nega-se a recebê-la.
 
Eis aí, um pouco de por que esse poema, “A Máquina do Mundo”, foi considerado pela crítica ocidental como um dos dez melhores poemas de todos os tempos.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.378581